Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Os refugiados de hoje e os retornados de ontem

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2015-11-08 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os europeus assistem, diariamente, a uma fuga de pessoas do Médio Oriente, num fenómeno que só encontra paralelo com o que aconteceu no final da Segunda Guerra Mundial.
Durante este ano, chegaram à Europa cerca de 750 mil pessoas que fugiram, principalmente, da Síria. São pessoas que procuram a todo o custo deixar a sua terra de origem e refazer a sua vida na Europa.

O elevado número de refugiados espelha as dificuldades manifestadas pelos países europeus em lidar com este problema. A solução encontrada por muitos foi o encerramento das suas fronteiras com a colocação de redes de arame farpado, a construção de muros de betão ou, ainda, o aumento do poder da polícia e do exército. São, de facto, decisões que em nada coincidem com os valores da Europa no que diz respeito à tolerância, ao acolhimento e até ao civismo, desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Este enorme afluxo de pessoas que entra na Europa faz recordar aquilo que aconteceu a Portugal, há exatamente 40 anos.
Os conflitos que surgiram nas ex-colónias portuguesas, logo após o 25 de abril de 1974, estiveram na origem da fuga massiva dos portugueses, que lá se encontravam, e muitos a residir há décadas nesses locais.

Assustados com o seu futuro, os portugueses de imediato começaram a deixar as ex-colónias, através de formas diversas como bicicletas (três, pelo menos, fugiram dessa forma), carros, camiões, traineiras ou, na grande maioria, paquetes e aviões. Ficou nessa altura célebre a ponte aérea que se fez entre as ex-colónias e Portugal.

O nosso país, acabado de sair de um regime ditatorial de 48 anos, envolto em profunda miséria, com cuidados de saúde e de educação ainda primários, com falta de emprego para os portugueses, sem a existência, sequer, de um salário mínimo nacional (este foi criado apenas em junho de 1974), com condições habitacionais paupérrimas (havia pessoas que ainda tinham animais nas suas casas, apenas separadas por uma cortina de pano!), mesmo assim, este povo conseguiu acolher um número de pessoas quase idêntico ao que a Europa, toda a Europa, tem dificuldades em acolher hoje.

Foram 500 mil os retornados acolhidos no nosso país, a maioria deles descontentes, assustados e revoltados com tudo o que lhes estava a acontecer. Muitos acabavam de perder tudo o que tinham adquirido em África, ao longo de uma vida! Este elevado número de pessoas, ao entrar em Portugal de forma tão massiva, podia tornar a sociedade portuguesa explosiva, com contornos até de guerra civil, não fosse a forma ordeira e hospitaleira como foram acolhidos e integrados. A criação do decreto-lei n.º 169/75, de 31 de março, que instituiu o IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais), contribuiu para uma melhor integração destes portugueses.

Quando chegaram a Portugal, foram denominados de desalojados, outros de regressados, outros ainda de repatriados, fugitivos ou deslocados, até que, finalmente, em meados de 1975, foram denominados de retornados.
Por todo o país, este meio milhão de cidadãos foi distribuído, contando com a colaboração das instituições portuguesas, quer oficiais, quer religiosas, quer de solidariedade local ou, ainda, de famílias. A recolha de alimentos, vestuário e bens de primeira necessidade e de habitação digna foram efetuados pela população portuguesa.

Neste processo, a Igreja bracarense desempenhou um papel notável, pois disponibilizou as instalações do Seminário de Santiago, retirando daí os seus alunos e transferindo-os para o Seminário Conciliar, onde ficaram em condições precárias!
No Seminário de Santiago, foram então colocados cerca de 600 retornados, um número verdadeiramente impressionante na altura. Contudo, essas instalações foram sendo degradadas, devido ao enorme número de ocupantes, ficando célebres as notícias que nos davam conta das condições pouco dignas, que muitos consideraram um autêntico “gueto”!

Em 23 de junho de 1984 o arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, lamentava esta situação, pois a arquidiocese de Braga necessitava do Seminário de Santiago para lá colocar sacerdotes idosos e estudantes universitários.
Apesar de tudo, os portugueses conseguiram integrar todos estes retornados, num contexto muito particular e difícil como o que o nosso país viveu há 40 anos.

Desta forma, estranha-se que a Alemanha tenha hoje dificuldades em receber cerca de 31 mil refugiados, a França 24 mil, ou a Espanha 15 mil, e sejam necessárias várias reuniões dos membros mais destacados da União Europeia, para resolver um problema de integração destas pessoas, que fogem da guerra e da morte.

A forma como os portugueses integraram cerca de 500 mil retornados, há 40 anos, devia servir de lição aos povos europeus que atualmente tentam receber um número ligeiramente superior.
Quando se afirma que os portugueses são hospitaleiros, aqui está mais um exemplo repleto de valores, de grande dignidade e de solidariedade. Foi há 40 anos, com a integração de meio milhão de retornados!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho