Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Os rapazitos que jogavam à bola nas ruas de Braga

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Ideias

2019-03-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A prática desportiva é uma atividade que acompanhou sempre a humanidade. Nas últimas décadas tem, inclusive, atingido proporções económicas, uma vez que as grandes marcas comerciais apostam nas atividades desportivas para projetarem os seus produtos.
O basquetebol, nos EUA, o hóquei no gelo, nos países nórdicos, o râguebi, na Nova Zelândia, ou o futebol, um pouco por todo o mundo, atingiram proporções de grande mediatismo.
No que concerne ao futebol, modalidade mais popular e emotiva em Portugal, o seu auge foi atingido no Euro 2004, com a mobilização de uma nação inteira em torno da seleção de Portugal, e ainda no Europeu de 2016, em França, quando a seleção se tornou campeã da Europa.
A atração pelo futebol, que está incutida em muitos jovens portugueses, já vem desde inícios do século XX, quando a miséria era uma marca da nossa sociedade. Nessas décadas, enquanto as raparigas se concentravam a jogar à “macaca”, os rapazes pobres deliciavam-se com as corridas de arcos retirados de pipas de vinho velho e, também, com jogos de futebol, utilizando uma bola de trapos ou bolas de borracha.
Há pouco mais de meio século esta era ainda uma prática bem enraizada em Braga. Em campos mais abertos, como o Campo da Vinha, o Campo das Hortas, o Campo das Carvalheiras ou o Campo Novo, os rapazes juntavam-se e corriam em torno de uma dessas bolas improvisadas.
Quer no inverno, quer no verão, estes rapazes habituaram-se a sair de casa para se encontrarem nesses campos. Contudo, era no verão que os habitantes das proximidades mais se queixavam destes garotos a correr atrás de uma bola. O pó que levantavam era incómodo para a vizinhança, mas os gritos que davam quando corriam atrás da bola ou os chutos nesses trapos incomodavam muito mais quem os presenciava. Algumas dessas bolas de trapos embatiam nas janelas e estilhaçavam os vidros. De seguida, os autores fugiam para onde podiam, pois atrás deles vinham as donas de casa, procurando explicações acerca do sucedido. Muitas mulheres iam ter com os familiares dos jovens, provocando enormes discussões.
O incómodo destes rapazitos a brincarem atrás de uma bola de trapos veio inclusivamente parar ao jornal “Diário do Minho” que, no dia 10 de dezembro de 1948, criticava violentamente os pais e os jovens que passam o tempo a correr atrás de uma bola de trapos, incomodando muita gente. E a solução tinha que ser radical, pois esta situação não poderia continuar. “Não haverá processo de meter na ordem os aguerridos jogadores, ordenando-se ao guarda de giro na área que, de quando em vez, dê umas voltas pelo local?”.
Um dos casos mais gritantes ocorriam no Campo Novo, onde se encontra a estátua do “piedoso” D. Pedro V. Aí realizavam-se alguns dos “jogos” mais disputados entre a rapaziada de Braga. E aí concentravam-se muitas dezenas de crianças, da muito povoada freguesia de S. Vicente. No entanto, estes rapazotes ignoravam todas as chamadas de atenção que lhes eram feitas, não “olhavam a admoestações nem a censuras de quem quer que seja e, desta maneira, não só os vidros das janelas, as paredes dos prédios e as pessoas que por ali transitam, estão sempre sob a ameaça da bola de trapos ou de borracha”.
Mas a revolta contra estes meninos, que passavam o tempo na rua, deveria ser mais radical, e a solução era metê-los em casas que corrigisse os seus comportamentos de arruaceiros! Este problema só se poderia resolver com a construção de “Patronatos que será o remédio eficaz para tirar da rua os menores e dar-lhes, à mistura com uma sólida assistência moral, todos os divertimentos que prendam o seu espírito infantil, tornando-os, assim, queridos e não aborrecidos”!
Só com a construção de mais patronatos, onde fossem colocados estes rapazes e fossem educados segundo os princípios da orientação social da época, poderia ser resolvido este problema infantil e retirar da rua os rapazes que atraídos “pelo vício da rua, causa prejuízos nos jardins e as maiores arrelias as pessoas que não podem pôr-se a salvo das suas escaramuças futebolísticas”!
Ao recordarmos a realidade dos jovens de há meio século com a atual, notamos enormes diferenças. Há meio século, os jovens brincavam de forma alegre e saudável nas ruas, de forma despreocupada. Na altura, uma das preocupações era arranjar-lhes forma de se instruírem e de evoluírem na sua educação e no seu ensino. Hoje, a preocupação relativa aos jovens é retirá-los dos jogos informáticos e arranjar algum tempo, alguns minutos que seja, para que possam brincar ao ar livre, de forma saudável e despreocupada.
Por fim, a pergunta a fazer é simples: qual será a forma mais saudável para formar e educar estes jovens? Será como há 50 anos, em que passavam a maior parte do tempo na rua? Ou agora, que passam a maior parte do tempo na escola? Creio que um misto das duas situações será o ideal, para termos jovens mais saudáveis, mentalmente mais abertos e livres, mais tolerantes e mais colaborantes com a sociedade que os rodeia.

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