Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Os prisioneiros das cinzas

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2020-02-02 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Nos últimos meses têm surgido inúmeras publicações relacionadas com Auschwitz, com a apelativa foto da estação ferroviária desse campo de concentração.
Tenho-os lido quase todos e, apesar de uma ou outra controvérsia relativa à oportunidade, ou não, destas publicações, o facto é que todos eles apontam para um denominador comum: o campo de concentração de Auschwitz foi a mais terrível máquina de morte que alguma vez o Homem construiu.
Situado no sul da Polónia, numa área plana e sem qualquer vegetação por perto, a construção deste campo de concentração foi decidida, em abril de 1940, por Heinrich Himmler, ocupando a área correspondente aos antigos alojamentos artilharia do exército polaco.
Durante os 57 meses, durante as 224 semanas, durante os 1570 dias de funcionamento deste campo de concentração, ocorreram as mais brutais torturas, humilhações, experiências médicas e mortes que possamos imaginar. Auschwitz foi o local onde os homens se transformaram nos “prisioneiros das cinzas” (“Auschwitz um dia de cada vez”, Mucznik, 2017).
Antes deste conflito mundial ter começado, já os alemães tinham planeado e construído campos de concentração, jogando com o destino dos prisioneiros de forma humilhante. A 1 de novembro de 1938 a revista “The Times” referia que os deportados eram levados desde as suas casas para estações ferroviárias e colocados dentro de comboios que iam até à fronteira com a Polónia, onde os guardas polacos os enviavam de volta, através do rio, para a Alemanha. Este impasse continuou durante vários dias, debaixo de chuva torrencial, com os judeus a marcharem sem comida ou qualquer tipo de abrigo e a ficarem espalhados por pequenas aldeias ao longo da fronteira.
O meio de transporte que esteve ligado a esta máquina de guerra, disseminada pela Europa, foi o comboio. Situada no centro deste continente, Auschwitz permitia a ligação entre as principais linhas de caminhos de ferro internacionais.
Os relatos destas viagens são impressionantes: “As portas do vagão abriram-se pela primeira vez em muitos dias e a luz do dia brilhou sobre nós. Agarrei bem a mão da minha irmã gémea quando nos empurraram para a plataforma.
- Auschwitz? É Auschwitz? Que sítio é este?
- Estamos na Alemanha – foi a resposta.
Na verdade, estávamos na Polónia...” (“As Gémeas de Auschwitz”, E M Kor, 2019).
Na obra "O Bloco das Crianças" (Kraus, 2019) uma criança vê o fumo a sair diariamente pela chaminé referindo, num poema, que "O fumo foi o meu irmão"!
A destruição e a barbárie da altura foram aterradoras, estando os prisioneiros conscientes do seu destino dramático : "Parte de mim será levada pelo vento, outra parte será transformada numa barra de sabão e o remanescente será levado pelo Vístula para o Mar Báltico" (Kraus, 2019).
Tenho dito algumas vezes que a democracia é como um ser vivo, tem de ser alimentada. Assim, não podemos adormecer à luz da convicção de que estes acontecimentos dramáticos da 2.ª Guerra são obra do passado e jamais se repetirão.
Durante as três últimas gerações, que nos separam desse conflito, houve um esforço por parte das instituições políticas, culturais e educacionais para incutir os valores do respeito, da tolerância e da igualdade entre todos.
Nestas três últimas gerações, apesar de terem existido alguns conflitos regionais (principalmente nos Balcãs) conseguimos manter-nos afastados de um conflito à escala mundial ou até europeu. Os europeus já libertaram a esmagadora maioria das suas colónias, resolvendo dessa forma um foco de instabilidade mundial. Também a criação da União Europeia foi um fator determinante para a manutenção da paz. Não devemos esquecer ainda a nova mentalidade alemã, de cooperação institucional, humanitária e de paz.
Apesar de tudo, temos visto na geração atual, alguns laivos de intolerância e de imaturidade cívica e cultural. Basta recordar que:
- Os extremismos na Europa estão a aumentar, notando-se aqui o crescente número de deputados eleitos para os diferentes parlamentos europeus, inclusive para o Parlamento Europeu;
- Os ataques xenófobos estão a multiplicar-se, destacando-se aqui os efetuados contra os Judeus e contra as suas memórias;
- As desprezíveis sugestões de devolução de património histórico a ex-colónias ou a outros países (se entrássemos por essa sugestão, todos tínhamos que devolver a alguém, desde há milhares de anos);
- A ignóbil instigação de devolução de pessoas a outros países ou a outras regiões, apenas por serem de outra cor ou de outra raça!
Neste contexto, e estando nós perante pessoas que ocupam cargos institucionais na Assembleia da República, parece-me necessário legislar neste sentido, e com urgência, de maneira a punir quem profere afirmações que coloquem em causa a democracia. Punição que deverá passar mesmo pela perda de mandato. De facto, jamais poderemos permitir que quem está no Parlamento, esteja lá a defender ideais opostos à democracia. E ainda a serem pagos para isso!
A todos os que nos últimos tempos têm delirado com ideais racistas e afirmações xenófobas, partilhando e comentando estas posições, recordo um pensamento de Anne Frank: "O que é feito não pode ser desfeito, mas podemos impedir que aconteça novamente”.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho