Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Os prémios nobel e os outros

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-10-11 às 06h00

Jorge Cruz

Tradicionalmente, é nesta altura do ano que são divulgados os nomes dos vencedores dos prémios Nobel nas diversas categorias em que o prestigiado e valioso galardão é atribuído. Tornou-se um hábito, nas diversas comu- nidades, aqui e além, fazer previsões, adiantar nomes, muitas vezes tão-somente com o objectivo de tentar pressionar o júri escandinavo.

Com maior ou menor grau de surpresa, a Academia Sueca lá vai divulgando a identidade dos homenageados, deixando para o final aqueles que, por norma, suscitam mais interesse e curiosidade por parte da comunidade internacional - o da literatura e o da paz. Nem de propósito, este ano o Nobel da Literatura só será conhecido na próxima quinta-feira porque, ao que parece, a falta de consenso entre os 18 membros do júri obrigou ao adiamento da sua divulgação por uma semana.

A atribuição dos galardões da Academia Sueca constitui, portanto, o momento mais esperado no que ao reconhecimento público dos laureados diz respeito mas, simultaneamente, não se pode minimizar o efeito que os mesmos têm, no plano da afirmação das diversas áreas, quer pela divulgação à escala global quer mesmo pelo incentivo que necessariamente geram.

Compreende-se, assim, que os prémios apenas contemplem, e ainda bem que assim é, as áreas mais relevantes, aquelas onde se pretendem reforçar as apostas da comunidade, as que de facto podem contribuir para os avanços da humanidade e para a melhoria da sua qualidade de vida. E desse ponto de vista, creio que a Academia Sueca tem desenvolvido uma acção de inegável relevância, independentemente das eventuais discordâncias que uma ou outra atribuição possa ter suscitado.

Encerrado o tema dos galardões suecos, portanto sem qualquer risco de contaminação, por ténue que seja, pretendo agora comentar algumas atitudes de altos responsáveis políticos, atitudes que não enobrecem a política e os deveriam cobrir de vergonha.
Mesmo tendo consciência que não terei espaço para falar de todos, quero deixar aqui uma pequena amostragem, um breve catálogo de políticos com conflitos insanáveis com as regras da democracia e que, em alguns dos casos, usam e abusam de métodos humanamente criticáveis. É assim, com as práticas desta gente, que os cidadãos se alheiam da política, que a democracia se vê enfraquecida e, o que é pior, que ocorrem os avanços extremistas de direita.

Recuso-me, obviamente, a citar o nome daquele figurão inqualificável que se apresenta como candidato a presidente dos Estados Unidos, tão deplorável é a figura. Reconheço, no entanto, que esse é um exemplo perfeito de como a mentira, a baixeza moral e a hipocrisia, quando bem manipulados, arrastam multidões. E, desse ponto de vista, tem lugar nesta breve lista.

Mas nesta análise quero referir-me, por exemplo, a Jean-Claude Junker, o presidente da Comissão Europeia que não teve qualquer pejo em felicitar António Guterres pela sua eleição para secretário-geral da ONU, manifestando-se “extremamente satisfeito”, quando toda a gente sabe que quer o luxemburguês quer a toda-poderosa Merkel foram os mentores de uma candidatura criada a partir da própria Comissão Europeia com o objectivo de “trucidar” outros candidatos europeus já há muito no terreno.

Também sobre este mesmo processo, não nos podemos esquecer que enquanto prometia “neutralidade” a Portugal, a chanceler Merkel cozinhava a tal “alternativa” em que envolveu uma parte da Europa, não sabemos com que promessas, e exercia pressões para derrotar Guterres.
Saiu-lhes o tiro pela culatra porque felizmente o inédito e muito aplaudido processo de transparência adoptado pela ONU para a escolha do novo secretário-geral da organização resistiu a todas as pressões e foi levado até ao seu termo. Provavelmente, será o receio de réplicas em processos similares que possam vir a ocorrer noutras instituições que ainda assusta muita gente…

Mudando de latitude e entrando em Portugal, constatamos que também aqui a hipocrisia está vivificada e, aliás, até se desenvolve num processo de alastramento assustador. Se não, vejamos: em visita ao distrito de Braga, este fim-de-semana, Pedro Passos Coelho, claramente em campanha pré-eleitoral para as autárquicas do próximo ano, acusou o governo de António Costa de não avançar com a construção da variante de Vila Verde nem com a reformulação do troço da EN14 entre os municípios de Famalicão e Trofa.

Deixo de parte a “coincidência” de estarmos perante empreitadas em três municípios liderados por sociais-democratas (o que não retira minimamente a premência das ditas obras), mas não posso olvidar que nos longos anos em que foi Primeiro-ministro, Passos Coelho também não as passou do papel à prática. Bem prega Frei Tomás…

Estes breves exemplos, dos muitos que poderiam ser aqui referidos se o espaço disponível desse para tanto, demonstram que se existisse um prémio para a hipocrisia, certamente seria bastante disputado. E já para não falar de outros galardões que provavelmente ninguém gostaria de vencer. A última sessão da Assembleia Municipal de Braga, na passada sexta-feira, constitui, desse ponto de vista, um autêntico alforge de ideias. É só ler os relatos para conhecer a ideia que alguns têm de democracia.

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