Correio do Minho

Braga, terça-feira

Os perigos do Brexit

Dar banho às virgens

Ideias

2016-06-17 às 06h00

Margarida Proença

Na próxima semana, no dia 23 de junho, o Reino Unido vai votar um referendo que acabou conhecido como o BREXIT, ou seja a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. As últimas sondagens indicam uma vantagem de quase seis pontos para o “sim”. Isto é ainda uma das consequências desta crise, que mesmo a nível europeu não parece ainda ter encontrado formas de ir embora. O “sim” indicia que um significativo número de pessoas acredita que o male dos seus problemas está no contexto da União Europeia. Tenho para mim que vale sempre a pena olhar com muita atenção os argumentos utilizados pela parte contrária, mais do que assumir á partida que são irrelevantes. Ainda que confesse um relativo desconhecimento de futebol, parece-me que o resultado do jogo entre Portugal e a Islândia poderá ter andado por aí, pela menor assunção de que os rivais, sendo inteligentes, utilizam sempre as estratégias que os favorecem…
O controlo da emigração parece constituir um dos grandes argumentos, basicamente consideram que o número de imigrantes que entram no Reino Unido deve ser bloqueado; seguindo um medo muito antigo, e crenças solidamente instaladas na generalidade das sociedades, que os “outros” são o perigo que vêm “roubar“ os potenciais empregos, e viver da riqueza gerada internamente. Claro que o terrorismo tem suportado e estruturado esta perceção. Este argumento relativamente á mobilidade de pessoas, por motivos económicos, tem também sido uma das traves principais do discurso de Trump, nos Estados Unidos, e é revelada ainda pela incapacidade da União Europeia para a resolução do problema dos refugiados.
Outro argumento remete para a ideia romântica do passado de grandeza, para a nostalgia do papel central que a Inglaterra teve já, e que assentaria na capacidade de o país fazer as suas próprias escolhas e decisões, apenas determinadas “pelo que se passa no seu quintal”. Esta abordagem enquadra-se numa rejeição á flor da pele dos burocratas de Bruxelas, que decidem muitas vezes com base numa tecnoestrutura, sem atenderem a circunstâncias, culturas, história, sem atenderem ao impacto de natureza micro ou regional. Ainda por cima, dizem, o Reino Unido tem de pagar um custo enorme por pertencer ao clube, digamos assim, já que a contribuição anual para o orçamento comunitário ronda os 12 mil milhões de euros.
Depois, há a ideia genérica de que o problema está nas elites, e que o povo é melhor. Este argumento também não é exclusivo do Reino Unido. No fundo, remete também para uma ideia romântica, do tipo do Robin dos Bosques - todos nos lembramos da história, um bando de puros, que lutava com afinco contra uma liderança corrupta e violenta, justificando o roubo dos ricos para distribuir pelos pobres. Esta mesma ideia, um pouco instintiva quase, explica ainda um outro argumento que tem sido utilizado com mestria a favor do sim - saída da U.E. permitirá uma descida de preços. A ideia é que as áreas de comércio comum protegem as suas indústrias, e a sua agricultura, atribuindo quotas, etc, e portanto os preços dentro da U.E. são mais elevados do que os preços praticados no mercado mundial.
As sondagens suportam estes argumentos, ainda que no caso dos referendos, á boca das urnas muitas vezes os eleitores tenham medo dos potenciais resultados, e optem por votar de forma conservadora, mantendo a situação existente, em vez da mudança. A ganhar esta orientação, a análise das consequências tem de ser feito a dois níveis - o que se poderá vir a passar no Reino Unido, e o que poderá vir a ocorrer na União Europeia, e já agora em Portugal.
No caso do Reino Unido, existem diversos estudos de entidades independentes, ligadas na maioria dos casos a centros de investigação em universidades reputadas, mas também de consultoras e think-tanks. Todos estão de acordo que no curto prazo a saída da U.E. vai implicar uma quebra no PIB que pode chegar aos 3,9%. A longo prazo, as opiniões já apresentam algumas divergências, mas ainda assim a ideia de que os preços vão cair não encontra qualquer sustentação; pelo contrário, os preços dos produtos alimentares, do vestuário, dos transportes, entre outros , vão mesmo subir. Um estudo muito recente da London School of Economics (junho 2016) também conclui que os custos vão ser pagos por todos, os mais ricos e os mais pobres, bem como a classe média, ou seja a tese “Robin dos Bosques” não é sustentável, mesmo nos cenários mais otimistas.
O projeto da U.E. vai certamente pagar um preço muito elevado. Do ponto de vista interno, politicamente, a Alemanha solidificará uma posição hegemónica. O nervosismo nos mercados financeiros é já muito claro. A tese de que os investidores internacionais, de fora da União Europeia, sediados no Reino Unido, poderão vir a ser atraídos pelas economias mais periféricas, não faz qualquer sentido em termos económicos - a geografia, a cultura, e a economia vão jogar claramente contra as economias do Sul da Europa. A outra tese de que isto pode ser positivo, porque a U.E. pode passar a ser mais envolvida nos seus próprios interesses, mais integrada, não faz qualquer sentido também. Pelo contrário - o efeito dominó que levou ao seu alargamento, vão agora abrir as portas a diversas outras saídas.
Complicados tempos estes que vivemos. Entretanto, os nossos bancos continuam a refletir a forte recessão económica, gerada pela crise financeira e pela drástica quebra na procura que se seguiu em 2012.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

13 Novembro 2018

Braga Capital

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.