Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Os percursos pedestres e os outros

O que nos distingue

Ideias

2016-06-14 às 06h00

Jorge Cruz

Com alguma pompa, a que de resto já nos vamos habituando, a Câmara Municipal de Braga anunciou a criação, num futuro próximo, da “maior rede de percursos pedestres a nível nacional”. Trata-se, segundo o vereador responsável, de 26 percursos, que totalizam 280 quilómetros e que cobrem as 37 freguesias do concelho, num investimento que ronda os 270 mil euros.

Em defesa da ideia, Altino Bessa explicou que o objectivo “é a interacção entre aquilo que é a questão ambiental, turística, patrimonial e a valorização do próprio território”.
Estamos, obviamente, perante desígnios de enorme relevância e que, também por essa razão, suscitam o apoio das populações e seus autarcas locais. Quero, pois, exprimir o meu aplauso pela implementação de tal rede de percursos pedestres, já que se trata de um programa bastante enriquecedor, sob o ponto de vista ambiental e bem-estar, e que de facto também pode vir a beneficiar uma actividade turística bastante específica mas nem por isso de menor relevância.

As vantagens são tão evidentes que tornariam desnecessária a “ajuda” da empresa que fez o reconhecimento dos trilhos, designadamente quando o seu responsável afirmou que “cinquenta e dois por cento do território (concelho de Braga) está classificado como reserva ecológica ou agrícola, e tem muitos locais representativos de épocas históricas e proximidade ao Parque Nacional da Peneda-Gerês”.

Não estando minimamente em causa o apoio à iniciativa, louvável a todos os títulos, convirá no entanto refrear um pouco algumas cabeças, particularmente aquelas que são acossadas por súbitos ataques de soberba, decorrentes da sempre efémera passagem pelo poder. Quero com isto significar que uma certa tendência paroquial de considerar e, pior do que isso, propalar aos quatro ventos que uma determinada iniciativa ou evento que se desenvolve é o maior ou o melhor, além de frequentemente não ter qualquer sustentação consistente, em nada contribui para o seu engrandecimento, bem pelo contrário.

A relevância e os atributos de uma acção não são mensuráveis por critérios político-propagandísticos, mas por factores que têm a ver com as realidades locais, naturalmente mutáveis em função de factores diversificados e que na maior parte dos casos nem dependem dos próprios organizadores.

Mas voltando à rede pedestre, afinal o tema central deste apontamento, quero registar com satisfação que, ao contrário do que sucede com outras infraestruturas, a autarquia prometeu conceder-lhe um apoio continuado. De facto, na apresentação do projecto, Ricardo Rio garantiu que a rede de percursos pedestres “não pode descurar a segurança dos utilizadores”, o que implica “a realização de um conjunto de investimentos” significativos bem como despesas regulares de manutenção.

Este ponto sensível é absolutamente normal em gestão pública, mas surpreende pela positiva na medida em que constitui também um ponto de viragem na actuação do executivo, um executivo que como é público e notório tem deixado quase ao abandono uma série de infraestruturas, por vezes com gravíssimos riscos para os utentes. Aliás, com esta mudança de modus operandi que se anuncia, será tempo de resolver de uma vez por todas algumas dessas situações, umas arrastando-se há longos anos, outras com menor longevidade.

A impropriamente chamada Ciclovia da Variante da Encosta é um dos mais infelizes exemplos de como uma excelente ideia é completamente aniquilada por um péssimo planeamento e pela posterior falta de manutenção. A ausência de intervenção municipal, no mínimo para as tão reclamadas quão necessárias obras de manutenção, condenaram definitivamente esta prometida solução de mobilidade e, o que assume gravidade quase criminosa, coloca diariamente em risco de vida milhares de munícipes.

Outro infeliz exemplo da incúria dos responsáveis municipais é o adiantado estado de degradação em que se encontram alguns dos parques infantis. Também aqui não se pode dizer que exista desconhecimento porquanto as denúncias têm sido mais que muitas, sem que, todavia, encontrem qualquer eco na praça do município.

Pode ser que agora, com este suplemento de sensibilização que, pelos vistos, o vereador Altino Bessa conseguiu injectar a Ricardo Rio, a Câmara de Braga manifeste mais preocupação pela manutenção do património erigido e tome finalmente a peito a recuperação de uma série de estruturas quase abandonadas.

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