Correio do Minho

Braga, terça-feira

Os novos movimentos sociais e políticos na Europa... Qual o significado?

Dar banho às virgens

Ideias

2013-03-16 às 06h00

António Ferraz

Temos vindo a assistir nos últimos anos ao aparecimento na Europa, mormente nos países periféricos do sul, casos da Grécia, Espanha e Portugal, onde tem vindo a ser aplicadas severas medidas de austeridade impostas pela ‘troika’ como contrapartida da sua ajuda financeira e visando o ajustamento das contas públicas, de novos movimentos sociais e políticos de contestação.

Na realidade a crise económica e financeira na Europa não deixa de ser em grande medida o resultado da aplicação ao longo das últimas décadas das teses liberais, traduzidas pela liberalização dos mercados, pelo enfraquecimento do papel intervencionista e regulador do Estado, pelo ataque sem precedentes ao estado social vigente e, por consequência, pelo surgimento de recessões económicas persistentes e de níveis inaceitáveis de desemprego. Assim, a falta de crescimento económico e de criação de emprego, conduziram naqueles países a um elevado sentimento de revolta, indignação e mesmo de desesperança.

As revoluções sociais “do passado” pese embora podermos considerar a existência de condições objectivas favoráveis, não são exequíveis por falta de condições subjectivas, nomeadamente as resultantes do fenómeno da globalização, da falta de liderança reconhecida, da existência de estruturas sindicais orgânicas, e, por último, mas não menos importante, pelo sentimento generalizado de que na actualidade as crises económicas e sociais ultrapassam-se com mais e não menos democracia (em novos moldes, mais efectiva e participativa).

Muitos são os que fortemente criticam os novos movimentos sociais e políticos por potencialmente serem geradores de instabilidade imprevisível na vida económica e social. Contudo, movimentos sociais como os M12M em Espanha, M15S e ‘Que se Lixe a Troika’ em Portugal e movimentos políticos inorgânicos como os casos do partido Syriza na Grécia e o M5S de Beppe Grillo em Itália que recentemente recebeu um quarto dos votos nas recentes eleições italianas, não deixam de revelar embora com algum sentido prudencial próprio de fenómenos novos que a cidadania ainda existe, que as pessoas ainda reagem, que contestam a democracia tal como a conhecemos.

Permitem, desta forma, que se discuta alternativas ao modelo dominante, que se pense em um novo paradigma económico e social para o período pós-crise, que esteja centrado nos interesses das pessoas em geral e não nos interesses dos poderes económico e financeiro instalados e onde política económica signifique crescimento económico (e a geração de emprego) com maior equidade social. Tudo o resto é secundário e negociável.

A propósito, os economistas, grosso modo, poderão ser agrupados em duas grandes correntes de pensamento económico, por um lado, os economistas ortodoxos mais ou menos liberais e, por outro, os economistas heterodoxos (muito críticos do sistema vigente), defensores da importância do papel do Estado na estabilização económica e na regulação dos mercados, da defesa do estado social no seu essencial.

Os primeiros partem do pressuposto de que os agentes económicos são “racionais”, isto é, adoptam em todas as circunstâncias comportamentos que maximizem os seus benefícios e que assim a sociedade como um todo ficaria a ganhar em termos de bem-estar.

Os segundos atentos a evolução do mundo percebem que ao contrário do que dizem os ortodoxos, vivemos num mundo onde imperam ambientes económicos e sociais de grande incerteza o que torna mais evidente a imprevisibilidade dos comportamentos humanos na sociedade, ou seja, relevam aquilo que os economistas designam por espírito animal “animal spirits”.

Esta linha de pensamento vai muito de encontro com as modernas descobertas na área das neurociências (destaque aqui para o cientista português António Damásio), em particular, a ideia de que a razão e a emoção estão fortemente conectadas e que, por consequência, não se poderá prever com significativo grau de certeza a forma como os indivíduos reagirão perante os múltiplos estímulos com que se deparam. Fará sentido em tal contexto de grande incerteza económica e social e de alterações muito rápidas na informação, o conceito ortodoxo de “racional”. É quando muito duvidoso.

De certa forma, a heterodoxia económica poderá assim explicar esses novos movimentos sociais e políticos sem ligação às estruturas económicas, sociais e políticas tradicionais, fortemente críticos do sistema e altamente apelativos por uma democracia diferente.
O Mundo mudou é certo... mas, não é menos verdade, que não parou…

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