Correio do Minho

Braga, terça-feira

Os Novos Estatutos do Escutismo Católico Português

Diciembre, Decembro, Abendua... e Desembre?

Escreve quem sabe

2018-11-16 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

“Caminhemos para o futuro, por caminhos de exigências que dignificam e não por planos inclinados de cedências que envergonham.”1
Padre João Ferreira
Começamos esta crónica, para encerrar o ciclo que se iniciou a 13 de abril e terminou a 11 de maio deste ano, sobre a revisão estatutária do Corpo Nacional de Escutas • Escutismo Católico Português (CNE) iniciada em 6 de junho de 2016, com o lançamento do Projeto Torre, pelo Chefe Nacional, Norberto Correia, com uma citação do saudoso Assistente Nacional Adjunto do CNE, o Padre João Ferreira, que, num momento de grande complexidade, no verão de 1974, desafiou a escolher um caminho de dignidade, por oposição ao caminho do facilitismo.

Escolhi esta citação pela capacidade que os dirigentes de então tiveram de manterem o rumo traçado tanto por Baden-Powell como por D. Manuel Vieira de Matos, lembro-me que era apenas um jovem dirigente com um ano e dez meses de experiência e com 21 anos de idade:
1) manter o CNE como obra da Igreja para a formação integral dos Jovens,
2) manter no CNE a prática do método escutista, nos seus valores fundamentais e
3) manter o CNE ao serviço dos Jovens.

Este sinal de respeito e responsabilidade começou a notar-se quando a Junta Central, entretanto eleita, manteve este processo emprestando-lhe a sua própria dinâmica.
Nestes últimos dois anos, foram-se construindo propostas, das quais quatro foram entregues à Mesa dos Conselhos Nacionais, e no final dos trinta dias de debate público na associação, se reduziram a três, por fusão da subscrita pelo órgão executivo nacional com a da Região de Braga, e as outras duas propostas subscritas pela Junta de Núcleo do Oeste (Lisboa) e por 28 dirigentes da Região do Porto, mantiveram a sua autonomia.
O Conselho Nacional Plenário, órgão deliberativo, onde têm assento 10.241 dirigentes, reuniu em duas sessões, a primeira em 19 e 20 de maio de 2018 e a segunda em 10 e 11 do corrente mês. Du- rante 28 horas de trabalho, em sessão plenária, sendo que, pelas 13h30 do passado domingo, o CNE aprovou em sede de votação final global, por maioria, muito superior aos três quartos exigíveis, onde apenas se registaram dois votos contra e oito abstenções, o texto dos novos estatutos.

Claro que para alguns ainda há trabalho a fazer, para fixar o texto final onde a preocupação de identificar as normas prejudicadas e a adequação do texto em função de uma estrutura interna coerente, mas este é um trabalho técnico que, podendo ou não ser objeto de apreciação do Conselho Nacional Plenário, será presente à Conferência Episcopal Portuguesa para homologação, só depois de concluídos os trâmites legais é que os novos estatutos terão força de lei.
A nossa crónica de 11 de maio passado (a 3ª sobre este tema) tinha como título “Tempos de Honrar o Passado e Preparar o Futuro”, hoje, é o tempo de pensarmos se honrou o passado e se preparou o futuro.
Honrou o passado porque as alterações estatutárias introduzidas não só valorizaram o método escutista como aprofundam a sua simbiose com a Igreja, com as comunidades, com as famílias e com as crianças e jovens, como também reafirmam a sua ligação, no sentido de pertença, à Fraternidade Mundial do Escutismo e estabeleceram-se limites para o número de mandatos consecutivos nos cargos eletivos.

Como o escutismo educa para a assunção de responsabilidades, pessoais e sociais, estes estatutos, valorizando o método, até onde nunca tinha sido feito, reconhecendo aos Caminheiros, jovens dos 18 aos 22 anos, a capacidade eleitoral ativa que lhes alarga a capacidade de votar para os órgãos nacionais do CNE (algo que, desde sempre, esteve reservado aos dirigentes), além disso estes jovens adultos também poderão ser eleitos para os Conselhos Nacionais de Representantes. Esta era uma aspiração das bases do CNE, podendo de certa forma afirmar-se que era um desejo tantas vezes sonhado pelos chefes de unidade do CNE, pelo que recorro ao poema 25 de Abril, de Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas”:
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”

Sophia, neste texto, ilustra, de forma como só ela o soube fazer, a materialização de um sonho, que sendo individual, era também coletivo e sinónimo da um futuro num mundo melhor. Não sei se ainda são atuais as palavras do verso de Fernando Pessoa “Senhor, falta cumprir-se Portugal!”2, mas tenho a certeza que, com esta decisão histórica, se dará mais um impulso para que, depois de “cumprido” o Escutismo Católico Português, também se cumpra Portugal!

1Padre João Ferreira, Assistente Nacional Adjunto do CNE, Mensagem ao Conselho Nacional, julho de 1974
2Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).-57.

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