Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Os mortos que fugiam para a Igreja de Priscos

Comunidades de aprendizagem

Ideias

2011-01-31 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Todos sabemos que a região do Minho é uma das regiões portuguesas onde as mudanças sociais encontram mais resistência por parte das suas populações.
São vários os exemplos de revoltas populares que ocorreram nesta região e que se opunham ao avanço legislativo ou às alterações nos costumes e nas tradições. De uma religiosidade profunda, as gentes minhotas evitavam, em décadas passadas, que os seus modos de vida fossem alterados.

Um dos motivos que provocou grande revolta no Minho, durante o século XIX, foi a questão relacionada com os cemitérios.
Ficaram célebres as revoltas populares relacionadas com os cemitérios, ocorridas nas freguesias de Alvarães (Viana do Castelo), Soutelo (Vila Verde) e Vilaça (em Braga).
Mas o episódio que vos quero trazer aqui hoje ocorreu há 85 anos na freguesia de Priscos (concelho de Braga).

A ‘Peste Espanhola’ que afectou praticamente todo o mundo, também se fez sentir em Braga, onde morreram 4773 pessoas (754 só no concelho de Braga), entre 1918 e 1919. Também na freguesia de Priscos se verificou um elevado número de mortos.
Esta epidemia também foi agravada pelo facto dos mortos serem enterrados no interior da própria igreja da freguesia. Aliás, esta, como outras freguesias do concelho de Braga, continuava em 1926 sem um cemitério público, razão pela qual a população insistia em enterrar os seus mortos no interior da igreja paroquial.

Mas a inexistência de um cemitério na freguesia acabava por agradar à maioria dos seus habitantes, uma vez que estes diziam que enterrar os mortos no interior da igreja estava mais de acordo com os desígnios da fé.

Apesar da lei obrigar aos enterramentos fora das igrejas e apesar da pressão efectuada pelos delegados de saúde e pelos próprios párocos das freguesias, a maioria das pessoas continuava a enterrar os mortos no interior das igrejas. As autoridades religiosas e civis ainda propunham que, nas freguesias onde não existisse cemitério público, os cadáveres fossem enterrados nos adros das igrejas, mas mesmo assim muitos populares não aceitavam esta ordem.

Um dos exemplos mais caricatos desta situação ocorreu em Priscos, em 1926. Devido à epidemia espanhola, o delegado de saúde de então propôs que os mortos fossem enterrados no adro da capela do Senhor dos Passos. Aliás, a própria Junta da Paróquia concordava que o adro dessa capela fosse transformado em cemitério.

Aparentemente tudo corria com normalidade, uma vez que o padre efectuava, de facto, o enterramento dos cadáveres no adro da capela. Mas nos dias seguintes aos funerais surgia sempre um enorme mistério na freguesia, uma vez que os mortos desapareciam do adro e apareciam no interior da igreja!

Espantadas, muitas pessoas tentavam perceber qual a origem do mistério dos mortos que, depois de enterrados no adro, apareciam depois sepultados no interior da igreja. Mas depressa se aperceberam que os responsáveis por estes procedimentos eram familiares e amigos dos falecidos que, pela calada da noite, resolviam efectuar este “serviço fúnebre”!

A trasladação destes cadáveres não era nada fácil, já que a entrada na igreja tinha que ser feita às escondidas, uma vez que as chaves da igreja estavam na posse exclusiva do pároco da freguesia. Assim, e para resolver este problema, os familiares e amigos dos defuntos subiam as escadas da torre e, com umas cordas, desciam o cadáver desde o coro ao interior da igreja. Só depois, e sempre no silêncio da noite, procediam ao enterramento do cadáver.

Esta situação criou um mistério em Priscos, uma vez que os mortos continuavam a fugir do adro para o interior da igreja! O problema agravava-se com o acumular de defuntos no solo da igreja, já que originava a escassez de espaço para novos defuntos.

O jornal ‘Diário do Minho’, do dia 10 de Agosto de 1926, alarmado com toda esta situação, relatou um episódio ocorrido em Priscos, referente a alguém que queria sepultar um cadáver no interior da igreja: “Para sepultar um cadáver andaram à busca de lugar ou sepultura para êle um dia inteiro. Remexeram várias sepulturas, puzeram a descoberto o cadáver de uma criança há pouco sepultada, o cadáver de uma mulher há dois anos apenas sepultada e fizeram um verdadeiro estendal de ossos humanos por toda a igreja. Não se horrorisem os leitores ainda porque, para complemento de toda a infâmia, até os cães foram vistos com ossos de defuntos, num festim macabro!”.

Perante uma situação tão macabra, algumas pessoas, preocupadas, apelavam com insistência ao Governador Civil de Braga para que este proibisse verdadeira e definitivamente os enterramentos no interior da igreja de Priscos. E este apelo surgia porque ninguém conseguia entrar nessa igreja totalmente descansado, devido à enorme probabilidade de contraírem epidemias.

Ora, essas epidemias eram uma consequência das acções provocadas pelos amigos daqueles que, depois de mortos, insistiam que o seu lugar era junto dos santos, bem no interior da igreja de Priscos!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho