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Os mortos de Celeirós que eram enterrados em Figueiredo

Oh não, outra vez a paixão pela educação!

Os mortos de Celeirós  que eram enterrados em Figueiredo

Ideias

2021-06-27 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A atual pandemia, que já causou mais de quatro milhões de vítimas mortais em todo o mundo, tem marcado o nosso quotidiano desde há um ano e meio e insiste em não nos largar.
A geração atual nunca tinha assistido a uma pandemia desta dimensão, quer em Portugal, quer em qualquer outra parte do mundo. No entanto, o nosso país e a nossa região assistiram, até há pouco mais de 50 anos, a constantes epidemias, muitas delas provocadas pela falta de higiene ou pela inexistência de cemitérios públicos em todas as freguesias.
Apesar dos decretos de 21 de setembro e 8 de outubro de 1835, da autoria de Rodrigues da Fonseca Magalhães, que considerava os enterramentos no interior das igrejas próprios da Idade Média, o certo é que o cemitério público em Braga só entrou em funcionamento em 1878 e, passados cinquenta anos da sua inauguração, muitas freguesias de Braga ainda não possuíam o seu cemitério público!

Vivia-se o verão de 1908 quando um caso caricato ocorreu na conhecida freguesia do concelho, em Celeirós, dois anos antes da implantação a República. Convém recordar que a freguesia de Celeirós era uma das quatro que compreendia o couto de Vimieiro (S. Lourenço de Celeirós, Santana de Vimieiro, Salvador de Figueiredo e Santa Maria de Aveleda) (i).
Nesse ano de 1908 o reverendo José da Anunciação Malheiro, abade de Vimieiro, deu conhecimento ao Delegado de Saúde de Braga que na sua freguesia e ainda em Celeirós e Priscos existiam muitas pessoas atingidas por náuseas, dores de estômago e diarreia, sendo uma “doença de mau caracter, que tem causado bastantes victimas” (2).
Mal recebeu o pedido de José da Anunciação Malheiro, abade de Santana de Vimieiro, o Delegado de Saúde de Braga, João Barroso Dias, seguiu logo na sexta-feira, dia 24 de julho de 1908, para as referidas freguesias para analisar de perto a causa que originava tantas vítimas mortais nessas localidades.

Acompanhado por elementos do posto de desinfeção de Braga e ainda por alguns polícias, logo verificou que por aí era bem visível a falta de higiene pessoal e salubridade públicas e, de imediato, ordenou a desinfeção das casas, a limpeza das fossas, a vedação de tanques e fontes públicas e ainda providenciou a assistência médica aos enfermos que por aí grassavam!
Como em Braga não existiam técnicos de análise de águas, nos últimos dias de julho de 1908, deslocou-se a Celeirós, Priscos e Vimieiro um analista de laboratório de bacteriologia do Porto e, acompanhado pelo Delegado de Saúde de Braga, procedeu à análise das águas que aí eram usadas para uso doméstico.
Todavia um dos problemas que afetava muito a freguesia de Celeirós era a inexistência de um cemitério na freguesia, o que implicava que, em pleno século XX, ainda se procedesse ao enterro de cadáveres no interior do templo religioso, facto que provocava constante inquietude nas pessoas, fruto das infeções que daí advinham.

A situação era de tal forma grave que motivou o envio de uma exposição ao Governador Civil de Braga, por parte do Delegado de Saúde do distrito. Assim, no dia 24 de julho desse ano de 1908 o dr. João Barroso Dias escreveu ao Governador Civil, dizendo que em virtude da epidemia que assola as freguesias de Celeirós e Vimioso, e a bem da saúde pública, determinou que os enterramentos que são efetuados no interior da igreja de Celeirós “por falta de cemitério, passarão a ser feitos, até ordem em contrário, na vizinha freguesia de Figueiredo, para o que já officiei o respectivo Pároco e Regedor”. ii
O Delegado de Saúde de Braga informou ainda que a existência de vários cadáveres sepultados no interior da igreja de Celeirós, e que se encontravam cobertos com uma pequena camada de terra, provocavam um cheiro nauseabundo e, consequentemente, um perigo para a saúde pública. Neste sentido, solicitou o encerramento da igreja de Celeirós, até que esta situação fosse resolvida.

Por fim, o Delegado de Saúde pediu ao Governador Civil, na altura a entidade competente para a autorização de construção dos cemitérios públicos, que ordenasse a construção de um cemitério em Celeirós, uma vez que as dificuldades de aquisição de um terreno para o efeito tinham atrasado a construção desta obra.
No mesmo sentido, o Arcebispo de Braga enviou um ofício ao Governador Civil, informando-o da concordância relativamente ao encerramento temporário da igreja de Celeirós. Informou ainda que pároco de Celeirós não iria efetuar qualquer missa na igreja, mas sim numa capela existente na freguesia.

Esta moléstia, que atingiu dezenas de pessoas nestas localidades, começou a diminuir no final de julho, pois as medidas tomadas pelo Delegado de Saúde do distrito de Braga, João Barroso Dias, tornaram-se eficazes. No mesmo sentido, o Arcebispo de Braga informou o Governador Civil que a epidemia tendia a diminuir, pois tinha sido informado pelo pároco de Celeirós que na sua freguesia, nos últimos dias, apenas tinham ocorrido dois óbitos (um no dia 19 outro no dia 21 de julho) provocados por esta enfermidade. No dia 3 de agosto de 1908 existiam apenas cinco pessoas infetadas, na freguesia de Celeirós.
Por fim, apesar da lei obrigar os enterramentos fora das igrejas e dos esforços dos Delegados de Saúde e até dos párocos das freguesias, na década de 30, do século XX, eram muitas, ainda, as igrejas em Braga que continuavam a sepultar os seus paroquianos no interior dos templos religiosos, devido à inexistência de cemitérios públicos.


i “As freguesias do Distrito de Braga nas memórias Paroquiais de 1758”, José Viriato Capela.

ii “Commercio do Minho”, de 23 de julho de 1908.

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