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Os moinhos de vento da Serra do Ouro (Airó)

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Os moinhos de vento da Serra do Ouro (Airó)

Ideias

2020-06-21 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Numa altura em que alguns arrasadores de estátuas julgam, de forma agressiva, referências do nosso passado, quero aqui recordar um dos símbolos do trabalho e da luta diária pela alimentação e pela sobrevivência de um povo: os moinhos de vento.
Como cidadãos integrados numa sociedade evoluída, um dos nossos deveres é aprendermos com o passado para, dessa forma, prepararmos melhor o futuro. E os símbolos do nosso passado, quer nacionais, quer regionais ou até familiares, devem ser sempre preservados e nunca vandalizados, ou destruídos!
Uma das serras típicas da nossa região é a serra de Airó, que se situa entre os concelhos de Braga e de Barcelos. Na obra do Professor José Viriato Capela (As freguesias do distrito de Braga nas memórias paroquianas de 1758, Braga, 2003), que recorre às “Memorias Paroquias” de 1598, está referido que “Há per sima desta freguesia (de Bastuço S. João) pella parte do Norte, huma serra que chamam Airó, que antigamente se chamava serra do Ouro, que terá de comprimento huma legoa de Nascente a Poente e do Norte a Sul terá hum coarto de legoa o coal principia na freguesia de Sam Julliam de Passos, no lugar chamado de Martim e vai findar na freguesia de Moure”.
Esta serra de Airó, antigamente chamada de serra do Ouro, como vimos, estende-se pelas freguesias de S. Julião de Passos até Moure e simboliza um dos locais de grande pobreza que marcou a população destas freguesias, durante décadas, séculos… e cuja qualidade de vida chegou, apenas, após o 25 de abril de 1974, de forma lenta, muito lenta. No topo desta serra situa-se a capela da Senhora da Boa Fé, cuja administração já pertenceu a Sebastião de Faria Machado da Cunha Gusmão, da Casa das Ortas de Braga.
Um dos principais frutos que os terrenos de cultivo, destas freguesias, mais produziam era o milho grosso ou branco e o centeio. Contudo, os pesados impostos que tinham de pagar aos seus senhorios reduzia ainda mais a forma de sobrevivência destas gentes.
A subsistência destas populações baseava-se nas poucas colheitas atrás referidas, numa serra onde a vegetação apenas se vem a notar, com maior intensidade, a partir de meados do século XX. Assim, o milho era, como se percebe, indispensável para a alimentação dessas pessoas, de tal forma que na altura em que o milho estava a secar nas eiras, os homens dormiam ao relento, durante a noite, tendo junto a eles cães e até armas de fogo! Tudo para defender esse precioso cereal.
Uma vez que nesta região a água era, também, muito escassa, existindo apenas entre a freguesia de Bastuço S. João e Sequiade um regato que passa pelo lugar de “Furgial onde lhe dão o nome de rio do Furgial e logo mais abaixo passa pelo lugar do Folhão, ahi lhe dão o nome do rio do Folhão”, a solução encontrada para moerem o milho foi aproveitarem a força do vento. Assim, na freguesia de Sequiade existiam “couza de des moinhos de pão e hum pisão de lam”. Estes moinhos vêm mencionados na “Obrigação à fábrica da ermida de Nossa Senhora da Piedade”, de 1630, e citados na obra referida do Professor José Viriato Capela. São moinhos que terão, pelo menos, 400 anos.
Durante estes séculos, os habitantes destas freguesias subiam, esta serra árida, a pé ou de burro, descalços ou com tamancos, carregando sacos de milho para serem moídos nestes moinhos de vento. Como o dinheiro era quase inexistente, esta pobre população deixava uma parte de milho que levava, pagamento então conhecido pela “maquia”, dada ao moleiro, como recompensa pelo seu trabalho.
Este importante conjunto de moinhos de vento de Sequiade deixou de funcionar em 1963, já lá vão 57 anos. No último ano de funcionamento, o último moleiro a usar estes moinhos foi Adelino Faria da Costa, conhecido por Ti Adelino São Martinho (apelido herdado do seu pai Augusto Costa) que retirou “os panos que expunha ao vento lá no alto do monte do Crasto, e travou definitivamente o moinho que herdou do seu pai em 1943”, segundo referências que se encontram num cartaz de homenagem pelo centenário do nascimento deste moleiro, que ocorreu a 12 de março de 2020.
Conhecido pelo moleiro honesto, a bondade do Ti Adelino São Martinho era conhecida de todos e foi ainda mais admirada, quando ficou preso, durante um dia e uma noite, por altura da Segunda Guerra Mundial. Nessa ocasião, em que o medo e a fome dominavam e assustavam toda esta região, este moleiro foi retido por “ter escondido fornadas e moído mais do que aquilo que era permitido, para atender o pedido dos fregueses que queriam matar a fome aos filhos”, pode ler-se na homenagem efetuada aquando do centenário do seu nascimento.
Dos mais de dez moinhos de vento, hoje restam apenas três, situados mesmo junto ao parque desportivo de Sequiade, localidade que já se chamou Ciquiadi, Ciquiade (1220) Azquiadi e Zaquiadi (1258).
Curioso é verificarmos que, dos três moinhos de vento que restam atualmente, um deles está ligeiramente recuperado, outro parcialmente destruído e outro destruído na totalidade.
Atendendo a que se trata de um património de valor indiscutível para a memória destas terras e destas gentes, pessoas para quem o milho e a farinha eram o seu verdadeiro “ouro”, torna-se imprescindível recuperar estes moinhos de vento e colocá-los à disposição do público.
Também a realização de uma representação anual, recriando a atividade dos moleiros e dos moinhos de vento, à semelhança do que ocorre, por exemplo, em Priscos, relacionada com o presépio, constituiria uma das boas formas de homenagear este povo, outrora muito marcado pelo trabalho árduo e pela luta pela sobrevivência.

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