Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Os meninos que queriam ser polícias

O que nos distingue

Conta o Leitor

2012-08-28 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Foram milhares os portugueses vindos das nossas colónias ultramarinas, nos anos setenta, a quem sem razão, deram o nome de retornados. Entre eles um polícia, homem do norte, que sendo destacado para Lisboa, deixou os filhinhos confiados à corajosa esposa, tendo a certeza de que nada lhes faltaria. Fazia o seu trajecto a pé, entre a esquadra e o quarto que alugara numa casa particular.

Certo dia, havia algumas crianças que brincavam no caminho, ao ele passar fugiram, apenas uma ficou. Então o polícia perguntou ao que ficou, qual a razão dos seus colegas terem fugido, ele disse, que tinham medo da polícia e apontou para a sua arma. O polícia disse, para não terem medo dele, que a arma era só para assustar os malandros, acrescentando, vocês não são malandros pois não!...

O miúdo ficou embaraçado, respondendo de um aceno negativo com a cabeça. O polícia olhou o miúdo e sorriu dizendo, eu sabia que vocês não são malandros. Estendeu-lhe a mão e despediu-se dele, com um até amanhã. No dia seguinte, fazendo o mesmo trajecto, pensava nas crianças que brincavam na rua, e via nelas os seus filhinhos que deixara em terras nortenhas, confiadas à sua esposa em quem pensava dia e noite.

Chegado ao local onde as crianças brincavam, foi surpresa para ele ver que as crianças estavam lá e que nenhuma delas fugiu, ele deu boa tarde e todos responderam, seguiram-se muitas perguntas às quais o polícia respondeu. Do interior de um quintal falou uma senhora, mãe de um dos miúdos, para não maçarem o senhor agente, o polícia respondeu que era só curiosidade de miúdos, seguindo o seu caminho para o quarto, seu local de repouso.

A rotina do polícia era a mesma e as crianças todos os dias o esperavam, acompanhando-o parte do caminho. Um dia os miúdos estavam agitados, então o polícia com a sua experiência, sentiu que alguma coisa não estaria bem com eles, e perguntou!..
- Qual a razão de estarem assim tão nervosos?

Então um deles respondeu, porque temos uma coisa para lhe dizer, o polícia ficou curioso, perguntando, porquê tanto mistério! Então, um miúdo deu dois passos em frente dizendo, o senhor foi eleito o nosso herói. O polícia sorriu pensando ser brincadeira de miúdos, mas na verdade, o comportamento dos miúdos mudou, e quando um dia lhe perguntou, o que queriam ser quando fossem grandes, todos responderam… Queremos ser polícias.

Depois de muitos anos passados em Lisboa e ter feito muitos amigos, foi transferido para Braga, onde tinha o conforto da sua casa e o carinho dos seus filhos e família. Era o reconhecimento de todos os sacrifícios passados, em prol do bem-estar daqueles que mais amava. Também aqui fez muitos amigos, pelo seu fácil relacionamento com os bracarenses, merecendo a consideração e estima que tinham por si.

Mais tarde e muito doente, rodeado dos filhos e netos, falava daqueles miúdos com um brilho nos olhos e um afecto paternal, dizendo que daria muito para ver aqueles miúdos. Ser polícia, é isto. É saber ouvir, mesmo os mais pequeninos, é a saudação de mão levantada, aos que estão do outro lado da rua, é o sorriso aos idosos e doentes, que estão limitados ao espaço das suas janelas, é pôr o seu lado humano, ao serviço dos mais frágeis e desprotegidos, transmitindo-lhes a serenidade e tranquilidade no dia-a-dia.

Afinal, os miúdos de Lisboa sabiam que aquele homem não era um polícia comum, tinha algo de mágico, tinha um coração grande com certeza. Talvez ainda hoje, esses homens que em tempos foram meninos e que tiveram o privilégio de conhecer esse polícia, estejam gratos a esse homem, que soube lidar com eles, com a sabedoria que uma autoridade deve transmitir ao cidadão comum, mesmo sendo ele crianças. Esses miúdos, que um dia queriam ser polícias, viram naquele homem a simplicidade e humildade, a que não estavam habituados a ver, nas nossas autoridades.

Esse polícia, que um dia foi eleito herói por um grupo de crianças, é o exemplo e a prova, que não é a farda que faz um bom polícia. Mas sim, o seu espírito nobre e sua alma de criança.
Ser polícia é isto. Chamava-se: B. S.

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