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Braga, sábado

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Os larápios que vinham do Porto para o S. João de Braga

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Os larápios que vinham do Porto para o S. João de Braga

Ideias

2022-06-12 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Braga assistiu, na passada sexta-feira, a um S. João antecipado, fruto das comemorações do Dia de Portugal, que aqui foram assinaladas no dia 10 de junho. Foi um momento de jubilação, quer da população, quer das entidades, que aproveitaram o momento para reforçar ainda mais o epíteto de “Presidente dos afetos”, tal a quantidade de “selfies” que aqui foram tiradas com o Presidente da República.
Este foi também um momento aproveitado para a colossal comunidade de brasileiros que aqui prolifera tirar também a indispensável “selfie” com um Presidente que, pelas suas caraterísticas, provavelmente desejavam ter no Brasil.

A singularidade deste S. João antecipado em nada tem a ver com outras épocas, altura em que, exatamente pelas festas de S. João, para aqui vinham outras autênticas comunidades, neste caso de larápios, que aproveitavam as festas para desenvolver a sua atividade, marcada pelos esticões, ameaça, agressões e muitos roubos!
Independentemente da idade, da condição económica, da categoria social ou das revoltas sociais, o S. João era sempre aproveitado para esquecerem o quotidiano, pelo menos por uns momentos.
Neste sentido, o S. João de 1889 foi aproveitado pelos bracarenses, e outros forasteiros, para darem asas a uma euforia que funcionava como terapia para os problemas diários.

Nesse ano, segundo os relatos da época, o S. João de Braga foi muito concorrido. Os hotéis e hospedarias, os cafés e tascas estavam apinhados de foliões. Segundo o “Commercio do Minho”, de 26 de junho de 1889, nunca se tinha visto “tanta gente em Braga por occasiao das festas de S. João”, afirmavam já na altura “homens antigos”!
Calcula-se que nesse ano tivessem participado nas festas de S. João de Braga cerca de 50 000 pessoas, numa altura em que a população do distrito de Braga rondava os 330 000 habitantes (em 1896 o distrito de Braga tinha 338 308 habitantes).
Segundo a fonte, atrás referida, a “cidade apresentava um bonito aspeto, com a imensa gente que fervilhava por todos os pontos”. Um dos locais onde havia uma concentração de pessoas era na estação dos caminhos de ferro, pois aí chegavam e partiam comboios especiais para este arraial minhoto. Na estação do caminho-de-ferro, “o povo disputava os lugares nos wagons, atirando-se para dentro dos mesmos d’um modo por vezes engraçado e por outras ridículo”, refere a fonte mencionada.

Por diversas vezes “Os aldeaos pisavam as senhoras que comodamente se recostavam nas carruagens, chegando a ir nos devidos compartimentos maior numero de passageiros, isto principalmente em 3.a classe”. Nesses momentos, as regras de funcionamento dos comboios nem sempre eram respeitadas, pois as pessoas invadiam “por vezes, as carruagens de 2.ª classe, obrigando aquelas pessoas que haviam tirado bilhete de 2.ª, a ir em 3.ª”!
Nesses anos de crise social e económica, muitos larápios aproveitavam a ocasião para fazerem o seu serviço no meio da multidão que por estas ruas deambulava alegre e eufórica. Apesar das dificuldades, a polícia conseguiu ainda assim tomar conta de alguns amigos do alheio. Por exemplo, a um individuo de Viana do Castelo “subtrairam dos bolsos 15 libras e a outros quantias pequenas e objectos de pouco valor”.

A lista de alguns larápios foi publicada no “Commercio do Minho”, de 26 de junho de 1889, e dela constava: José Pinto, casado, morador nas Fontainhas, da cidade do Porto; Mathias Moniz, casado, natural de Ponte Vedra; Camilo Fontela Gonçalves, casado, de Ponte Vedra; Francisco António, o Rei Preto, casado, morador na rua Direita, do Porto; Manuel Ferreira, de 10 anos, natural da freguesia de Cedofeita, Campo Pequeno, da cidade do Porto; António Garcia, solteiro—o Patinha, morador na rua do Bonjardim, do Porto; José Pinto - o Pintor, da rua da Se, do Porto; Cândido Mendes, solteiro, de 38 anos, do concelho de Anciães; Quitéria Maria e sua mãe Maria José Soares, viúva, da rua Nova de Santa Cruz, de Braga; Antónia Maria, viúva, de 25 anos, do concelho de Amares; Domingos Martins, casado, sem domicílio, nem profissão conhecida e ainda Joaquim Manuel, de 50 anos, e sua mulher, Maria da Luz, ciganos, sem domicílio certo.

Como se vê, a maioria destes larápios vinha do Porto, inclusive o jovem Manuel Ferreira, de apenas 10 anos!
Segundo a Polícia de então, todos estes gatunos tinham na sua posse dinheiro em cobre, prata e ouro, sendo-lhes apreendidas diversas quantias, na totalidade de 43$200 réis.

Mas esse S. João de 1889 ficou, para além dos roubos, marcado por vários momentos de confusão, gritos, de pancadaria, de feridos, acidentes e até de uma morte!
Assim, por volta das 6 horas da tarde de domingo, dia 23 de junho, junto das primeiras capelas do Bom Jesus, quando um carro americano ia a parar, uma mulher (Maria Pereira, de 37 anos, de V. N. de Gaia) teve a desleixo de querer descer do veículo. Ao descer, caiu e as rodas do americano apanharam-na, ficando esta num estado deplorável. Tinha 3 filhos e andava grávida! Encaminhada ao hospital de S. Marcos, acabou por aí falecer. O marido, ao receber a notícia, tombou, desmaiado, em pleno hospital, e por pouco não caiu de um corredor a um dos jardins do hospital.

Ainda nesse dia 23, vésperas de S. João, Maria Teresa, de 14 anos de idade, surda e muda, da freguesia da Sé (Braga), foi atropelada por um carro americano na rua dos Biscainhos.
Já no dia 24 de junho, pelas 2 horas da madrugada deu entrada no hospital de S. Marcos um menor “queimado nas partes pudicas por uma bomba que lhe rebentara no bolso”. Chama-se Manuel Ferreira, de 11 anos, de Maximinos. Este pobre rapaz, “poucos momentos antes de entrar no hospital, havia apanhado no monte do Picoto, uma bomba que caíra d’um foguete” e explodiu-lhe no bolso!
As caraterísticas da sociedade atual são bem diferentes dessa altura, mas o desleixo associado à euforia pode levar a momentos como estes, no próximo S. João.

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