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Os jogos da sueca e da vermelhinha

A densidade urbana

Os jogos da sueca e da vermelhinha

Ideias

2021-03-07 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O presidente do Conselho Económico e Social, Francisco Assis, referiu, há uma semana, que as lotarias instantâneas têm consequências económicas e sociais nefastas e envolvem muitas pessoas com mais dificuldades financeiras.
O vício que os portugueses revelam pelos jogos colocam o nosso país no topo europeu e mundial daqueles que mais apostam em jogos numa procura de dinheiro fácil.
No nosso país, esta é uma tradição bem antiga e que está associada ao vício do jogo, seja com lotarias, ou com jogos de sueca ou vermelhinha. Em várias décadas do século XIX e XX, o vício dos jogos, que existia na nossa região, em muitos casos acabavam de forma violenta, muitas vezes mesmo fatal. Refiro-me, principalmente, ao jogo da sueca e da vermelhinha!

Na viragem para o século XX o vício era tão elevado que muitos defendiam uma intervenção forte do Governo, no sentido de impedir esta desgraça social. Outros consideravam quase impossível impedir os jogos e a batota, defendendo antes que os jogos deveriam ser regulamentados, tributados e fiscalizados de forma pesada!
A inquietação, quanto ao vício dos jogos, que ocorria no nosso país, era de tal forma elevada que em agosto de 1900 uma comissão de comerciantes e proprietários de Cascais enviou um ofício a Hintze Ribeiro, então Ministro do Reino, solicitando-lhe que autorizasse os jogos na praia de Cascais, porque a sua proibição seria fatal para o comércio e economia dessa vila!

Em Guimarães houve outra preocupação, em consequência destes jogos. Neles existiam permanentes conflitos e até batota, o que originava a intervenção das autoridades administrativas. No dia 25 de julho de 1900, o administrador do concelho de Guimarães, acompanhado por alguns guardas civis, entrou numa casa de jogo em Vizela, provocando um grande alarido popular. Aí apreendeu cerca de 100$000 réis que estavam em jogo!
Em Braga, era nas tabernas que os jogos decorriam em maior número, envolvendo pessoas da mais miserável condição social e económica. São inúmeros os relatos de jogos que acabaram de forma violenta e que ocorreram nas principais tabernas de Braga. Contudo, um dos locais da nossa região onde esses jogos ocorriam com maior frequência era na estação ferroviária de Nine.

A estação ferroviária de Nine (ramal de Braga) era muito frequentada por passageiros que utilizavam (e utilizam) o comboio para efetuarem as suas viagens para os principais destinos da região, como Braga, Barcelos, Viana do Castelo, Espanha, V. N. de Famalicão e Porto, não fosse o comboio o principal meio de transporte que então ligava estas localidades.
O facto dos horários de então obrigarem os passageiros a esperarem algumas horas pela chegada de comboios, para outros destinos, fazia com que alguns desses passageiros ocupassem o tempo nas tascas existentes nas proximidades desta muito movimentada estação ferroviária. E nesses locais comiam, bebiam e… jogavam!

Foram várias as situações de conflitos que ocorreram nas imediações da estação ferroviária de Nine. Um exemplo ocorreu na noite de domingo, dia 26 de maio de 1901, envolveu um jogo da sueca que terminou de forma dramática.
No final da noite desse domingo, numa taberna de Nine, Guilherme Correia de Faria, mais conhecido por “Gambeta”, da freguesia do Louro (V. N. de Famalicão) e João da Mota, marceneiro, da freguesia de Couto de Cambeses (Barcelos) passaram muito tempo a jogar à sueca, acabando por se desentenderem nesse jogo!

A desordem provocada pelo jogo da sueca permitiu enormes desavenças entre os dois, resultando daí descomunais cenas de pancadaria, às quais se juntaram outros indivíduos que por ali vagueavam!
A desordem extravasou para o exterior da taberna, passando para a estação ferroviária e daí para as agulhas do lado sul, ou seja, na direção de Nine para V. N. de Famalicão. Ao conflito entre João da Mota e o Gambeta juntaram-se vários indivíduos, resultando daí a morte do cidadão de Couto de Cambeses, morto à facada pelo Gambeta do Louro! Descontrolado, este espetou cinco facadas no pescoço. De seguida, o Gambeta e outros seus amigos arrastaram o corpo da vítima para junto da estação, onde acabaram por abandonar o corpo.

Chamadas as autoridades, o assassino foi preso, não se mostrando nada arrependido daquilo que tinha feito, morte provocada por uma navalha que tinha espetado no pescoço, até ao cabo, cortando a carótida a João da Mota!
A vítima mortal deste jogo da sueca, então rotulado como sendo um homem de bem, deixou órfãos cinco filhos pequenos.

Já o Gambeta, de apenas vinte anos, e que gozava de má fama, não se mostrou nada arrependido do crime que havia cometido!
Na época dizia-se com frequência que o jogo dava cabo das pessoas e das fortunas. Chegava a perverter homens, mulheres, jovens e até crianças. Afirmava-se ainda que de jogador a ladrão era um passo pequeno, e de ladrão a assassino outro ainda menor.
Ora foi o que aconteceu junto à estação ferroviária de Nine, com o desentendimento num jogo da sueca, que terminou de forma fatal. Tal como muitos na épo-ca!

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