Correio do Minho

Braga, sábado

- +

Os incidentes eleitorais na Igreja de S. João de Souto

E cá vamos nós...

Os incidentes eleitorais na Igreja de S. João de Souto

Ideias

2021-09-05 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A 26 de setembro deste ano teremos as eleições Autárquicas. As próximas três semanas serão, necessariamente, marcadas por uma campanha eleitoral intensa por parte dos diferentes candidatos.
A intensidade da campanha justifica-se pela apresentação previsível de propostas para a melhoria de condições de vida dos munícipes, não fosse o poder local aquele que mais de perto mexe com as pessoas, devido aos problemas mais adjacentes e ao conhecimento que os eleitores têm, quase pessoal, de muitos dos candidatos.
Apesar de algum bulício que se tem verificado, pouco ou nada pode comparar-se a outros atos eleitorais que ocorreram no nosso país noutras épocas. Neste sentido, irei recordar hoje as últimas eleições nacionais, que se realizaram ainda durante a Monarquia, exatamente a 28 de agosto de 1910.

Fruto do agitado momento político que se vivia na época, a campanha eleitoral decorreu sob forte convulsão social, facto bem visível no próprio dia das eleições, onde ocorreram muitas situações tensas, que originaram perseguições, gritos, cenas de pancadaria e até prisões.
Na cidade de Braga existiam três mesas eleitorais: uma na Sé, outra em S. João do Souto e outra em S. Victor. Os representantes da autoridade administrativa eram, na freguesia da Sé, José Alves Ferreira; na freguesia de S. João do Souto, João Rodrigues da Silva, e em S. Victor, Manuel Joaquim Fernandes Braga.
Nas freguesias da Sé e de S. Victor, a votação efetuou-se nos edifícios escolares, mas na freguesia de S. João do Souto, a votação foi efetuada na igreja paroquial, uma vez que a escola da freguesia não oferecia a segurança necessária ao ato eleitoral.

Era prática na altura, no final da votação, as urnas serem fechadas e guardadas pelos militares, para no dia seguinte serem contados os votos.
O ato eleitoral decorreu com alguma normalidade em S. Victor e na Sé, mas na freguesia de S. João do Souto ocorreu um incidente, por volta das 16h30, que teve grandes repercussões sociais. Tudo começou quando o eleitor Adolfo Taveira e Silva Leite de Macedo, depois de presumivelmente ter exercido o seu direito de voto em S. Victor, apresentou-se em S. João do Souto para aí votar também. Contudo, uma certidão do secretariado da mesa de S. Victor confirmou que este já tinha votado e, por esse motivo, foi preso e levado ao comissariado da polícia.

De imediato geraram-se protestos tendo, por isso, sido chamado um esquadrão do regimento de Cavalaria, para impor a ordem. Como consequência, a igreja foi evacuada e a eleição interrompida por meia hora.
Ao final da tarde, e no momento em que se encerravam as urnas, verificou-se uma nova desordem na igreja de S. João do Souto, resultando daí cenas de pancadaria, que só terminaram novamente com a chegada de uma força de Cavalaria, para mais uma vez impor a ordem.
Quando, no dia seguinte, foram contados os votos, verificaram-se repetidamente vários incidentes e protestos na mesma freguesia!

A meio da tarde desse dia, a confusão em S. João do Souto atingiu o seu auge, quando quatro homens armados com mocas roubaram a urna, arremessando-a de seguida para o largo em frente à igreja.
Após este incidente, de novo a força militar foi chamada, verificando-se de seguida mais bordoadas entre vários elementos. Como consequência, foram presos o reverendo José Esteves e António Pereira de Azevedo, que integravam a mesa eleitoral. No meio desta agitação, várias pessoas tentaram acalmar os ânimos, entre os quais se destacaram o célebre Dr. António Maria Pinheiro Torres e ainda o Dr. Carlos Braga e o Conde de Castro e Sole.
Nesse mesmo dia 29 de agosto de 1910, por volta das 21h30, ouviu-se junto à rua Nova de Souza uma enorme multidão de pessoas a correr e a gritar, proferindo palavras como “cerca” ou “agarra”. Esta agitação prendia-se com a perseguição a um ferreiro, residente em S. Victor, de nome “Pistarola”.

Este tinha acabado de espancar, no campo de D. Luís, algumas pessoas, sendo por isso perseguido por soldados e populares. Entretanto, o “Pistarola” fugiu pela rua dos Biscainhos abaixo, disparando nessa ocasião três tiros de revólver, o que originou um maior aglomerado de pessoas que desataram desenfreadamente a correr atrás do indivíduo. Depois, fugiu pelo Arco da Porta Nova e refugiou-se na loja da viúva Baptista Ribeiro, da rua Nova de Sousa.
Perante este cenário, os soldados e os populares decidiram arrombar a porta da loja e partir um vidro para lá entrarem, tudo no meio de gritos de “aqui del-rei”, da proprietária e de alguns vizinhos espantados com o que estavam a assistir.

O povo gritava que lhe entregassem o “Pistarola” e a dona da loja negava que este lá estivesse. Depois de algumas horas de tensão, a polícia entrou na casa da viúva e prendeu o fugitivo. É importante referir que este ferreiro de S. Victor foi um dos autores do roubo da urna eleitoral.
Ainda nessa segunda-feira à noite, verificaram-se várias cenas de pancadaria no largo do Barão de S. Martinho, largo dos Remédios, rua do Anjo e campo de D. Luís.

Do resultado desta desordem eleitoral e social, emergiram ferimentos em alguns polícias e outros cidadãos, nomeadamente o sr. Vasconcelos, dono de uma barbearia na rua de S. Marcos, um filho de Manuel José da Fonseca, dono de uma ourivesaria, no largo do Paço, e no rev. Clemente Peixoto, capelão do Pópulo.
Esta enorme confusão, provocada pelas eleições, foi comunicada inclusivamente ao próprio Chefe do Estado! Como a calma não regressou com facilidade, dos episódios seguintes dar-se-ão conta no próximo texto… eleitoral!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho