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Os impreparados

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Ideias

2012-09-24 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A maior parte dos países da Europa, principalmente os ocidentais, estão a atravessar uma crise económica, cujas consequências reflectem-se nos actuais problemas sociais e políticos.
A sociedade portuguesa, apoiada pela experiência que lhe advém de uma história com quase 900 anos, revela atitudes de elevada tolerância e compreensão e, por norma, só actua em situações extremas. Nos últimos anos, os portugueses tiveram três momentos de manifestação e acção, em que revelaram toda a sua grandeza moral e cívica, a sua compreensão e tolerância, e o seu sentido de defesa dos interesses do país e a tudo o que a ele está associado:
- O primeiro foi em 1999, quando uma onda de solidariedade nacional se elevou na defesa do povo de Timor Leste. Durante três minutos o mundo ficou impressionado com Portugal: na rua, nas empresas, nos estabelecimentos de ensino ou nos estabelecimentos comerciais, as pessoas ficaram imóveis, formando uma enorme pressão silenciosa, que teve um efeito muito superior ao efeito provocado por armas ou por exércitos.
- O segundo momento de enorme orgulho nacional foi demonstrado aquando da realização do Europeu de Futebol de 2004. Passados mais de oito anos, algumas casas ainda mantém as bandeiras nacionais às suas janelas, demonstrando um enorme orgulho em Portugal.
- O último momento de grande afirmação social realizou-se no dia 15 de Setembro deste ano, quando centenas de milhares de pessoas mostraram ao mundo que estão a sofrer e estão a passar por dificuldades, que em alguns casos são quase dramáticas. Foi uma manifestação com enorme pressão psicológica e social, cuja mensagem transmitida é muito superior a qualquer tipo de armas ou de exércitos que se possam utilizar.
Ao longo da sua história, o nosso Portugal viveu crises políticas muitíssimo graves e de todas elas conseguiu sair reforçado e preparado para os desafios que se deparavam. A maior prova é que os portugueses conseguiram manter a independência do seu país durante quase novecentos anos, se exceptuarmos os sessenta anos em que perdemos a independência para a Espanha (1580-1640). Curiosamente, o que levou à perda da independência nacional foi a determinação cega de um jovem rei, pouco preparado para reinar, altamente convencido da sua superior inteligência, pouco receptivo a conselhos dos mais velhos e com excessiva vontade de protagonismo. As consequências foram fatais e foram aquelas que todos sabemos: perda da independência nacional!
Creio que uma parte dos problemas do nosso país advém da crise económica e financeira que a Europa atravessa, mas também da impreparação de muitos dos nossos governantes. Nota-se, na actualidade, uma falta de conhecimentos técnicos, cívicos, históricos e até na capacidade que demonstram na “arte” de governar, cujas consequências estão à vista, nomeadamente através da tentativa de destruição da sociedade portuguesa. Contudo, o mais grave é sabermos que todas estas debilidades revelam-se da pior forma: obsessão pelo poder, intransigência, intolerância e imprudência, cujas características, inclusive, tendem a ser imitadas por muitos elementos da nossa sociedade.
Devemos ser claros naquilo que fazemos e dizemos. E só devemos criar ou aplicar alguma medida quando tivermos a certeza daquilo que pretendemos. Como cada vez mais se comprova, o comportamento intransigente e irredutível é típico de pessoas impreparadas e pouco cultas.
Tal como sugere o Prof. Freitas do Amaral, creio ser útil rever os currículos do nosso sistema de ensino e pensarmos, seriamente, em incluir uma disciplina de ciência política, que ajude os portugueses a reflectirem de uma forma mais clara em todo o sistema político-administrativo que nos rodeia.
Devemos aprender com o passado para melhor prepararmos o futuro. E creio não existirem dúvidas que os políticos portugueses, que só estão lá porque querem, devem ter uma base sólida de conhecimentos e de experiência de vida e de trabalho altamente reconhecidos. É neste contexto que o conhecimento da ciência política é importante para uma boa acção política, quer para quem lidera, quer para quem é liderado.
Se perguntarmos aos políticos, por exemplo, quem foram os grandes atenienses que deram origem aos quatro pilares do sistema político (1), e que ainda hoje são a base dos sistemas de governação mundiais, não duvido que todos eles responderiam de imediato, usando gestos mecanizados e um tom de voz afirmativo. Mas duvido que algum desse a resposta correcta.

_________
1) - Péricles, ao defender as características da Democracia; Platão, ao defender as características semelhantes ao Comunismo (apesar deste só ter surgido no séc. XIX); Xenofonte, ao defender as características da Ditadura; Aristóteles, ao defender as características democracia, baseada nas classes médias.

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