Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Os homens de Braga são…

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Ideias

2016-01-31 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O século XX, tal como os anteriores, foi marcado pela influência que o homem exerceu na sociedade a nível económico, cultural, político e familiar.
Até há poucos anos, o homem minhoto, especialmente o de Braga, detinha uma preponderância social que impunha respeito à sua família. Era o primeiro a sentar-se à mesa das refeições, era o primeiro a ser servido e era o último a sair da mesa. O seu olhar, a sua presença, a sua autoridade, intimidava e subalternizava os que gravitavam em torno de si, no contexto familiar.

O homem minhoto, especialmente o de Braga, era um dos poucos membros da família que sabia ler e escrever. Quando noutras localidades da Europa, e mesmo de Portugal, idealizavam-se escolas para mulheres, os bracarenses mantinham a sua repulsa à sua alfabetização. Quando, nas primeiras décadas do século XX, os homens permitiram que algumas das suas filhas frequentassem os liceus, mantinham sobre elas uma postura de controlo total, acompanhando-as às escolas e trazendo-as de volta a casa, sempre com o olhar atento a tudo o que as rodeava!

O homem minhoto, especialmente o de Braga, era também quem controlava as economias da família, a quem a esposa tinha que apresentar as despesas do orçamento familiar. A esposa raramente tocava no dinheiro que o homem ganhava. Sempre que necessitava, deslocava-se à mercearia mais próxima, onde fazia as compras necessárias para o sustento da família, trazendo a mercadoria sem pagar, ficando reservada ao homem a responsabilidade de liquidar a despesa no final do mês.

O homem minhoto, especialmente o de Braga, exercia o direito de voto, sempre que existiam eleições, fazendo-o da forma mais solene e submissa que podia. Ficou célebre uma análise eleitoral, publicada no dia 8 de março de 1885, no jornal “O Commercio do Minho”, e que referia que “Zé votante levanta-se de manhã cedo, veste uma camisa lavada, rapa as barbas para ficar mais bonito, enfrasca-se na fatiota de ver a Deus e á conversada, calça os socos tachados de novo (…) mata o bicho com uma malga de vinho, e sae de casa satisfeito com a lembrança de que vae fazer um figurão, ouvindo chamar pelo seu nome dentro de uma egreja, e mettendo na urna um voto importante, que lhe foi pedido por um homem de bilro na cabeça, gravata no pescoço e mãos enluvadas”! Normalmente o homem de Braga demorava horas a exercer este seu dever, pois de seguida mantinha prolongadas conversas com os seus amigos que, no meio de umas malgas de vinho e algumas discussões, acabavam muitas vezes em cenas de pancadaria!

O homem minhoto, especialmente o de Braga, vincava bem o “Código Civil Português”, de 1867, segundo o qual as mulheres não passavam de umas menores, pois só os homens podiam ser testemunhas, podiam contrair dívidas, assinar contratos e exercer uma profissão. Se, eventualmente, uma mulher estava empregada, o seu salário era pertença do marido!

O homem minhoto, especialmente o de Braga, era corajoso e fazia questão de o afirmar. Foi muito comentada em Braga a destreza e a ousadia dos homens de Braga que, em março de 1932, conseguiram enfrentar uma misteriosa fera que percorreu as freguesias deste concelho, destruindo campos e amedrontando pessoas. Foram os homens de Braga, melhor, os homens de Dume, que conseguiram terminar com este pesadelo para as populações!

Os homens minhotos, especialmente os de Braga, eram os mais respeitados no seio da Igreja Católica. Daqui saíram os mais destacados Padres, os mais astutos Bispos e os mais mediáticos Arcebispos. As imponentes procissões religiosas que aqui se realizam, especialmente as da Semana Santa, tiveram a participação exclusiva dos homens de Braga!

Os homens minhotos, especialmente os de Braga, exerceram durante décadas, a primazia do ensino, afirmando-se como astutos pedagogos, que ficaram na memória dos seus alunos!
Os homens minhotos, especialmente os de Braga, mantiveram o seu conservadorismo durante mais anos que os restantes homens do país. Quando em 1951 “O Nosso Café” teve a ousadia de colocar uma escultura nua no seu interior (estátua de Diana), não faltaram aqueles que protestaram, deixando mesmo de entrar no café, porque uma mulher nua (mesmo sendo uma escultura) colidia violentamente com os valores católicos e familiares da conservadora Braga!

O homem minhoto, especialmente o de Braga, não se importou de emigrar para locais longínquos, nomeadamente o Brasil, sem a sua mulher ou família, muitos deles por lá ficando ou constituindo uma nova família, que mantinha a par da que tinha deixado em Portugal!

O homem minhoto, especialmente o de Braga, estava sempre na primeira fila das manifestações sociais e políticas: nos primeiros dias da República apoiaram convictamente este novo regime, da mesma forma que tinham apoiado a Monarquia nos seus últimos momentos; nos primeiros dias da Ditadura Militar apoiavam convictamente este novo regime, da mesma forma que uns dias antes apoiavam convictamente a Primeira República; nos primeiros dias após a instauração da Democracia, apoiavam convictamente este novo regime, da mesma forma que apoiavam convictamente o Estado Novo nos seus últimos dias! São assim os homens minhotos, são assim os homens de Braga: sempre na vanguarda das lutas, mesmo não entendendo muito bem as suas razões. Se atualmente fosse realizado um questionário acerca dos homens do nosso país, não teria dúvidas que daí se concluiria que os homens de Braga são…

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