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Os galegos que vieram matar a Gualtar

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Os galegos que vieram matar a Gualtar

Ideias

2021-02-21 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A história está repleta de casos de pessoas que tentam matar por razões económicas e, sobretudo, ligadas a heranças. Neste sentido, um dos casos mais estranhos ocorreu em Gualtar (Braga) há precisamente 120 anos.
Às 5 horas da madrugada do dia 30 de janeiro de 1901, três pedreiros de Adaúfe, Francisco de Castro, Joaquim Teixeira e José Fernandes, dirigiam-se ao seu trabalho na cidade de Braga, quando se depararam com uma mulher, de bruços, envolta em sangue, quando passavam pelo lugar do Monte, em Gualtar, muito próximo do cemitério da freguesia.
De imediato estes pedreiros chamaram os moradores desse lugar, dando-lhes conta do acontecido. O regedor da freguesia comunicou o sucedido ao comissário da polícia, que logo se dirigiu para Gualtar.
Apesar de muitas pessoas terem visto o cadáver, ninguém o reconheceu, pelo que a polícia resolveu caracterizá-lo fisicamente como sendo uma pessoa do sexo feminino, de estatura baixa, de pele clara, “rosto sobre o comprido, cabello preto penteado em fórma de trança, pequenos botões d’ouro nas orelhas”. (1)

As autoridades administrativas de Braga resolveram deixar o corpo até às 14 h desse dia, com a esperança de que alguém o viesse a reconhecer. No entanto, apesar das centenas de pessoas que ocorreram ao local, incluindo pessoas vinda de coches, do centro da cidade, ninguém conseguiu identificá-lo.
Entretanto, foi transportado para a morgue do Hospital de S. Marcos tendo a polícia enviado convites a “tendeiros ambulantes, subditos hespanhoes e até indivi- duos de reputação duvidosa, como jogadores da vermelhinha”, para tentar resolver o mistério, mas ninguém identificou a vítima.
O enigma adensava-se até que no dia 1 de fevereiro uma menina, de 11 anos de idade, dirigiu-se à polícia e disse conhecer a vítima dizendo que tratar-se de Maria Rosa, de Valença, e que estivera alguns meses a servir em Vila Verde. Apesar da posição desta menina, não havia certezas. Assim, a polícia decidiu fotografar o cadáver e enviar fotografias para diversos pontos de Portugal e Espanha, com a finalidade de alguém reconhecer a vítima, que apresentada sete orifícios na cabeça.

Os dias foram passando e o mistério da morte desta mulher não era desvendado. Houve conhecimento da presença de um cidadão espanhol que esteve numa estalagem de Augusto Martins, na então rua das Águas. O empregado da taberna, que o serviu nessa noite, informou “que o homem estava inquieto e agitado. Recolhendo-se n’um biombo, alli comeu uma costella e pão, bebendo vinho verde e fino” (2). Antes de se deitar, pediu ao empregado que o acordasse às 5 h, alterando de seguida para as 3 h da madrugada. De referir ainda que este desconhecido trazia um relógio e uma corrente de ouro e ainda dinheiro português e espanhol.
A pedido das autoridades policiais de vários concelhos chegavam a Braga a informação acerca do desconhecimento deste suspeito. Contudo, a polícia de Santarém referiu ter “quasi a certeza de ter elle estado aqui uma noite hospedado n’um hotel junto á estação do caminho de ferro, seguindo no dia immediato para Marvão no primeiro comboio”. (3)
Os dias foram passando e a descoberta deste misterioso crime tardava. Contudo, começou a ser desvendado quando, no dia 14 de fevereiro de 1901, a polícia do Porto prendeu, na estação de S. Bento, o espanhol José Garcia Otero, de 28 anos de idade.

Depois de ter informado que tinha estado no Hotel Cruzeiro do Sul, em Campanhã, foi chamado a depor o funcionário Francisco Vila, desse hotel, que mencionou ter tirado três bilhetes de comboio, do Porto para Nine, sendo um para o presumível assassino, outro para um individuo que o acompanhava e ainda outro para a mulher, que posteriormente viria a ser assassinada.
O suspeito foi encaminhado para Braga, no comboio-correio da manhã, de 15 de fevereiro, acompanhado por dois elementos da polícia judiciária.
Sabendo-se, em Braga, que este suspeito vinha no comboio, na estação e nas ruas próximas aglomeraram-se centenas de pessoas, o que obrigou a polícia a deslocar um “landeau” até à estação, para levar o preso até à esquadra da polícia. Contudo, também na esquadra a aglomeração era enorme, o que fez com que os guardas entrassem pelo “lado sul do edifício do governo civil, conduzindo o preso pelas escadas que dão para a Agência do Banco de Portugal”. (3)

José Otero confessou à polícia que tinha vindo do Porto, no dia 30 de janeiro, na companhia da mulher que havia sido assassinada e de outro homem. Deslocaram-se de Campanhã para Nine, onde se demorou algumas horas, até ter ligação de comboio para Braga.
Da estação de Braga seguiram para Gualtar, onde o homem que os acompanhava disparou sobre a mulher, provocando-lhe a morte. Deixaram ali o cadáver, regressando a Braga, onde se separaram e seguiram caminhos diferentes.
A polícia descobriu ainda que a mulher assassinada era viúva, tinha duas filhas, possuía alguns bens e residia em Pontevedra.

O suspeito espanhol confessou, ainda, que residia há um ano em Pontevedra, em casa de Domingos Quintã, e que se relacionara há poucos meses com Adelaide Loureiro, viúva, de 31 anos, havendo o desejo de ambos contraírem matrimónio em breve. Referiu ainda que a vítima tinha uma estalagem em Caldas dos Reis (Pontevedra). Disse que veio a Portugal no dia 29 de janeiro, acompanhar o seu amigo que vinha procurar uns tios, abastados, que viviam no nosso país, e convencê-los a regressar a Espanha. Mas a sua noiva insistiu em acompanhá-los a Portugal, onde acabou por ser assassinada. Confessou que esse espanhol assassinou a sua noiva, com a finalidade de lhe retirar a fortuna que possuía.

Entretanto, a polícia de Pontevedra descobriu que Adelaide Loureiro, a vítima, tinha uma fortuna avaliada em 25.000 pesetas (cerca de 14. 500$000 réis). Tendo esta manifestado a José Moldes, seu amigo e hóspede, desejo de emigrar para a América, este conseguiu dissuadi-la a não emigrar. E de seguida apresentou-lhe José Garcia Otelo, que sugeria ser o ideal para contrair segundas núpcias.
A 8 de janeiro, desse ano de 1901, Adelaide Loureiro tinha vendido um prédio por 3.000 pesetas. No dia 11 de janeiro José Moldes, com procuração de Adelaide, hipotecou uma propriedade desta, no valor de 2.000 pesetas. De seguida, os três combinaram um passeio até Portugal.
Por fim, há a referir que José Moldes tentou sacar dinheiro a outras pessoas, em Pontevedra, em nome de Adelaide Loureiro, propalando que esta tinha ido para a América. Mas, afinal, tinha-a assassinado neste local, então recôndito, o lugar do Monte, em Gualtar!

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