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Os fanáticos

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Os fanáticos

Escreve quem sabe

2022-11-27 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

D e outros tempos, quando a hora não apertava para chegar ao destino, trocava o Metro pelo autocarro, a carreira de toupeira pelo olhar esvoaçante por ruas, prédios, recantos e vendas de ar livre, entre a Praça Oktyabrskaya e a Rua Guertsen, rebatizada dos nossos dias como Balshaya Nikitskaya. Em todo o caso, refizesse agora o trajecto, e à mesma faculdade chegaria.
Desse itinerário recordo com vividez uma fachada, antes da travessia do rio – subestação eléctrica que se manterá, nada de relevante em termos de arquitectura, e um lema revolucionário tudo ao longo do prédio: o comunismo é o poder soviético mais a electrificação integral do país.
Electrificação feita e conseguida ombro a ombro, por russos e ucranianos, por contingentes de nações que, de vassalas obscuras de um czar, se criam construtoras renascidas de mundo inédito. Não resisto à curiosidade de assinalar a deposição de Guertsen em favor de entidade monástica feminina, restaurada em sua ancestral rotina. Do lema tampou- co haverá traço.

Era a electrificação um avanço civilizacional, será a sabotagem metódica empreendida uma arma valente do inverso. Guerra de sítio por outros meios. Guerra de desgaste visando a capitulação. Vitória que engendra duas perdas. De passado ainda mais longínquo recordam os eslavos as incursões mongóis – cidade que não abrisse portas era arrasada, escravizadas, mortas e torturadas sem escrúpulo as suas gentes. Consta que o império mongol haja sido o mais extenso e duradouro.
Não estamos aí, nós, europeus bem formados. Inflamamo-nos com coisas, como direitos humanos por avulso, como a constitucionalização do direito a abortar, com a reprovação aguerrida do sofrer animal, e não há matador de toiros que nos não pareça um horrendo centauro das hordas do Grande Cão.

Destroem uns de uma forma, e com eles convenho que abdiquem outros de construir, mas este escândalo passa de assobio. Vemos o presente por prisma varejante. Fazemos batota, esticamos causas e depreciamos almas, enchemos o dia com catástrofes iminentes, e eu só me lembra os fanáticos de outras eras: arrependei-vos, que o fim do mundo está perto.
Demos uma estocada nas religiões – nós, pelo menos, os ocidentais de tradição cristã –, mas não nos desfizemos do beato que nutrimos com a nossa incultura e irracionalidade. Mudamos de demónio e de pecados, mas continuamos a não conseguir ver a vida com naturalidade, no seu tempo e com a sua história, e muito me admiraria se jovem, se marmanjo, que vai a museu fazer misérias, não se revoltasse à sugestão de que seja da massa dos que outrora purgavam impuro a fogo.

Empolgamo-nos com o efémero, com o que é feito constar da ordem do dia. Barafustamos mais do que lemos, reagimos em bando mais do que pensamos, nivelamos a prática governativa e política pelo padrão barato e fétido do futebol – é penalti, não é penalti, é suborno, não é suborno… e o de 30: é entre lusitos e hispanos?
Quanto a causas do dia em França – a corrida e o aborto. Entre o drama e a farsa, pela segunda sugiro ao pessoal da festa brava que se filie em partido de radicalidades e em lantejoulas invoque defesa de minorias. É causa ganha. Pela primeira, e independentemente de uma mulher, ou um par, ter que chegar a dizer que não pode avançar com uma gravidez, bastamente absurdo me parece sobrevalorizar constitucionalmente o aborto, quando a alternativa deveria ser gravar na pedra o direito a uma gestação digna e a uma vida auspiciosa – da mãe, dos pais, do que deles por paixão resulte.
Andamos à toa, mas será pregar no deserto.

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