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Os extremos t(r)ocam-se

Aprender para ensinar a adaptar

Os extremos t(r)ocam-se

Ideias

2020-11-10 às 06h00

João Marques João Marques

Após uma semana de autêntica novela… americana e não mexicana, temos finalmente por assente quem será o próximo presidente dos Estados Unidos da América. Joe Biden, o candidato democrata que colheu (à hora a que escrevo) mais de 75 milhões de votos, torna-se, assim, no líder mais votado de sempre da maior potência mundial.
Para o futuro ficará a difícil tarefa não de união, mas de concertação do espectro político nacional, com o consequente reflexo na capacidade de a sociedade americana diminuir o nível de polarização e antagonismo que atualmente a caracteriza. Sobretudo depois de os últimos quatro anos terem sido de profunda divisão política, assistindo-se a uma inédita presidência que apostava claramente numa lógica de separação das águas e de demonstração do falhanço do chamado “sistema”.
Com Trump, os EUA não se limitaram a abrir uma página, mas escolheram fechar um livro da história onde se encerram quase 250 anos de sucessivas conquistas cívicas e avanços socio-económicos. O que se abriu foi um capítulo que ainda não se sabe se se resumirá a um panfleto passageiro ou a um rombo histórico que tornará Trump no precursor do novo paradigma da política.
É óbvio que, por aqui, a maioria das pessoas se sentem incomodadas e mesmo repulsivamente afastadas da conduta, dos termos e propostas que este último mandato presidencial representou. E tal repulsa ou antagonismo verificou-se igualmente do lado de lá do Atlântico, sendo manifesta a distanciação abissal que separava os anti-Trump daqueles que o apoiavam ou toleravam.
Ainda assim, convirá não esquecer que, por terras lusitanas, aVenturas semelhantes ameaçam o modelo que temos sabido erigir desde 1974, enquanto, por lá, mais de 70 milhões de americanos decidiram confiar em Trump, o que o torna no segundo candidato mais votado de sempre. E isto depois de todas as polémicas: o nepotismo inaudito e inacreditável que o levou a decorar a Casa Branca com familiares; as sucessivas e imparáveis reorgani- zações do gabinete presidencial e dos membros do Governo; as incompreendidas e incompreensíveis alterações nas políticas de acolhimento de emigrantes e seus descendentes; as novas bissetrizes de orientação das coligações geopolíticas, onde pareceram entrar a Coreia do Norte e sair a Nato; a novilíngua dos factos alternativos; a luta sem quartel contra os media e a agora tríplice entente “big media, big money, big tech”; o tergiversar face a grupos extremistas e violentos (quando não transpareceu mesmo um certo apoio velado às suas ações); o muro com o México, que mal avançou em metros, mas que parece ter dado largas passadas em dólares, até à “guerra santa” contra o “obamacare”, o famoso plano de seguros de saúde acessíveis desenhado pela administração Obama, entre muitas outras.
Em suma, um manual atemorizante e utramaquiavélico (se bem que custe ligar um génio da política mundial às ações de Trump) que não pareceu impressionar os eleitores americanos, os quais terão premiado os “feitos” desta administração no campo económico e o combate ao politicamente correto. E se assim foi, ou seja, se a marca identitária de um estilo confrontacional, puramente pragmático e dirigido aos objetivos de curto prazo parece ter agradado a tantos eleitores, a pergunta de algibeira só pode ser “Quando teremos este Trump de volta ou outros Trumps a substituí-lo?”.
Esta pergunta não se destina apenas aos apoiantes de Trump, mas também aos apoiantes de soluções reflexas no campo da extrema-esquerda. Durante muitos meses, a mensagem mais radical de Bernie Sanders pareceu um canto de sereia que agrilhoava os democratas àquela que seria aparentemente a única arma para combater Trump: um antissistema para combater outro antissistema. Bem sei que as comparações são exageradas, porquanto Sanders tem uma estrutura ideológica, tem um passado escrutinável e tem, como sói dizer-se, “princípios”. Todavia, a tentação de ver no contrário de Trump a salvação para a vitória eleitoral é um perigoso estímulo à continuação não da alter- nativa, mas do caos: a situação política em que a única solução para o que o passado construiu é a destruição.
Os americanos (os democratas primeiro e a generalidade da população a seguir) foram sagazes na escolha e optaram por confiar em quem vem do, conhece e domina o sistema, na esperança fundada de que o possa salvar. Tal não significa retroceder na desconstrução do “status quo”, mas reconhecer que o sinal dado com Trump foi assimilado e que o sistema, se não valorizar devidamente esse sinal, cairá de podre.
Por cá, será bom que outros protagonistas percebam que o objetivo de salvar o sistema ou preservar vitórias eleitorais pode ser atingido sem menorizar mensagens xenófobas, artificialmente divisivas e antissistémicas. Tolerá-las, ainda que apenas na aparência, pode colocar em causa décadas de delicada construção democrática e fazer perigar a própria existência dos partidos que nela nasceram e cresceram.

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