Correio do Minho

Braga, sábado

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Os explosivos do padre Himalaia

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Ideias

2010-12-20 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Ao longo dos anos, vários elementos ligados à Igreja têm enveredado por algumas situações que, devido à sua anormalidade, acabaram por se tornar célebres. Um desses elementos foi o padre Manuel António Gomes.
Foi em 1868, na freguesia de Cendufe, concelho de Arcos de Valdevez, que nasceu Manuel António Gomes. A vocação sacerdotal deste jovem fez com que os seus pais o matriculas-sem no Seminário Conciliar de Braga, onde viria a terminar o seu curso em 1890.

A repulsa aos ingleses, originada pelo célebre “Ultimato Inglês” (1890) criou em Manuel António Gomes um sentimento de grande revolta, que o levou a seguir por um caminho nada condicente aos seus princípios de sacerdote: a invenção de explosivos.
Manuel António Gomes era um homem de estatura muito elevada: “Era alto como uma torre e esguio como um choupo, com a sua sobrecasaca negra” (1) de tal forma que os seus colegas de seminário o baptizaram de “Himalaia”, associando-o ao célebre Monte Himalaia.

Depois de ter sido ordenado sacerdote, o Padre Himalaia dedicou-se ao ensino, leccionando Ciências Físicas em vários colégios particulares. De seguida, ainda tentou uma aventura no estrangeiro, em Paris, onde estudou Medicina, mas acabou por não terminar o seu curso.
O Padre Himalaia era muito conhecido em Braga uma vez que, por onde passava, as pessoas reparavam na sua enorme estatura, de tal forma que muitos paravam e comentavam, ao verem-no passar. Mas o padre lá seguia o seu caminho, indiferente a tudo o que o rodeava.

O que o preocupava de facto era a Física, a Química e tudo o que se associava a estas áreas. Aliás, o despoletar da Primeira Guerra Mundial, em 1914, e as novas tecnologias a ela associada, nomeadamente a utilização de submarinos, criaram no Padre Himalaia um sentimento de ajuda e de descoberta, que passava por algo que conseguisse detectar estes submarinos.

Era grande o desejo de aumentar os seus conhecimentos. Tinha uma “imaginação científica exuberante, de insaciável curiosidade, físico amador indisciplinável, o padre sábio entregava-se ardosamente a pesquisas de inventor” (2)
Foram várias as pesquisas efectuadas pelo padre Himalaia: “estudou a maneira de fazer chover, de descobrir os submarinos, durante a conflagração de 1914-1918, de fertilizar os campos, de concentrar a luz e o calor, de transformar e recolher as forças da Natureza no seu mais alto grau”. (2)

Mas as duas grandes invenções do Padre Himalaia foram o “pirelióforo”, um engenho construído através da combinação de grandes espelhos que convergiam a luz para um único local. Um primeiro aparelho conseguiu atingir 500 graus de temperatura, e um segundo apare-lho, com uma altura de 80 me- tros, atingiu a considerável temperatura de 3500 graus!
Outra invenção do Padre Himalaia foi a “himalaite”, um enorme explosivo que antecedeu os fortes explosivos utilizados nas duas Guerras Mundiais.

O Padre Hilamaia viajou muito por vários países da Europa e da América. Participou inclusive em 1904 na Exposição Internacional de S. Luís, nos EUA, tendo obtido um prémio com o seu “pirelióforo”!
A atracção pelas suas invenções atingia repercussões internacionais. No dia 3 de Setembro de 1907, o jornal “Com- mercio do Minho” noticiava que “o explosivo do celebre inventor portuguez rev. Himalaya acaba de ser reconhecido pelas auctoridades britannicas como de manipulação sem risco algum, ficando a sua fabricação auctorizada em Inglaterra”.

Em Setembro de 1908 o Padre Himalaia proferiu uma conferência em Braga, que na altura foi muito concorrida. O jornal “Commercio do Minho” noticiou esta conferência durante seis edições seguidas, e muitas delas na primeira página. Na sua edição de 7 de Setembro de 1908, este jornal refere que o Padre Himalaia aceitou o convite da direcção da Liga Naval para falar pela primeira vez sobre os dois inventos que conseguiu realizar: “o Pyrheliophoro e a Himalayte”!

Ao longo da sua vida, o Padre Himalaia tentou angariar apoios para desenvolver e colocar no mercado as suas invenções, mas as contribuições nunca chegariam. Este facto acabou por o desencorajar e decepcionar. Dessa forma, os últimos anos da vida deste padre foram passados com o “modestíssimo lugar de capelão do Hospital de Velhos e Entrevados de Nossa Senhora da Caridade”, de Viana do Castelo.

Morreu sem bens, sem glória e sem a mínima dignidade, no dia 21 de Dezembro de 1933 (faz amanhã 77 anos). Tinha 65 anos.
1) - “Ao Compasso das Semanas”, Aníbal Mendonça, Braga, 1958.
2) - “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, vol. 13, pág. 217.

Nota: Quero aproveitar para desejar a todos os que trabalham no jornal “Correio do Minho”, bem como a todos os seus leitores, um Santo Natal e um ano de 2011 cheio de saúde e sucessos pessoais.

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