Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Os Deuses devem estar Loucos!

A vida não é um cliché

Ideias

2014-05-05 às 06h00

Artur Coimbra

1. Anda pelo governo um foguetório louco a propósito da alegada saída da malfadada tróica e dos resultados da 12ª avaliação que, tal como os restantes, são sempre “positivos” para Passos e Portas e que resultam, logo a seguir, sistematicamente, em mais cortes e em mais impostos a triturar ainda mais a vida dos portugueses.
Esta gente é de gritos, à medida que se aproxima a data de 25 de Maio (sufrágio para Parlamento Europeu) e não andam longe as eleições legislativas de 2015. São só “boas notícias”, em período pré-eleitoral. O país, dizem, iludindo, está em retoma, “está bem”, apesar de os portugueses “estarem mal”, o que obviamente ninguém compreende nem aceita…
Todos deveríamos estar contentes com a satisfação dos governantes, se fosse sincera, se correspondesse aos factos, se motivasse os portugueses. Mas ninguém acredita no que os governantes afirmam. O país que “vendem”, não é o mesmo, nem de perto nem de longe, o país onde os portugueses vivem, sofrem e declinam.
Porque é que ninguém de boa-fé dá o mínimo crédito a esta gente que não o tem? Só mesmo por ingratidão!... Os factos só podem ir nesse sentido.
Quando antes se falava do eventual aumento do salário mínimo nacional, logo o primeiro-ministro vinha, pressuroso, atirar gelo para o fogo, afirmando que nem pensar, que não havia condições e a tróica não deixava. Depois, foi ele próprio, com imensa dose de aldrabice e demagogia, a trazer para o debate público a hipótese do aumento, obviamente para depois de 2015. Como para depois dessa data é o anunciado começo da reposição dos salários da função pública, mas apenas se houver condições económicas que o viabilizem, o que parece não ser de todo despropositado considerar, até porque falta ainda conhecer as decisões do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento de Estado do ano em curso. Como se em 2015 não houvesse legislativas que, mais que provavelmente, vão arredar esta gente das cadeiras de S. Bento. Portanto, a direita no poder está a fazer filmes e futurologia como se os portugueses não fossem soberanos e não estivessem fartos de ser enganados, ludibriados e espezinhados até ao tutano. Para quem passou os primeiros tempos da governação a garantir “que se lixem as eleições”, como se estivesse imbuído de uma missão salvífica do povo português, até que nem está mal este caricato “golpe de rins”.
O vice-primeiro ministro, com a elevada credibilidade que o exorna, desde o santificado episódio da “decisão irrevogável”, que resultou na sua ascensão no governo e em declínio em tudo o resto, anda por aí a alardear a “libertação”, o fim do “protectorado” internacional, após a alegada saída dos credores internacionais. Nem de propósito, as equipas da Comissão Europeia (CE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI)  que aqui estiveram na 12ª avaliação deixaram imensos recados.
Que “alguns problemas persistentes na estrutura e no funcionamento dos mercados reduzem a flexibilidade da economia na resposta a choques adversos. É necessário um mercado de trabalho mais dinâmico, bem como um crescimento mais robusto, para reduzir o nível ainda muito elevado de desemprego. A fraca concorrência em certos setores da economia impede maiores ganhos de produtividade e de competitividade. Os elevados níveis de endividamento na economia, em conjugação com importantes custos de financiamento numa conjuntura de baixa inflação, acentuam a necessidade de medidas decisivas destinadas a reduzir a dívida das empresas e os respectivos prémios de risco”. Enfim, que “com a conclusão do programa, é essencial que Portugal se comprometa a aplicar políticas económicas sólidas a médio prazo”. 
Ou seja, tanto foguetório para nada. A tróica vai embora, formalmente, mas vai continuar a controlar o orçamento e a soberania portuguesa e impõe que a austeridade não fraqueje.


2. Já a ministra das Finanças teve o desplante de afirmar, com a maior sobranceria, a mais pérfida injustiça e desvergonha descomunal, que este governo fez mais em três anos que o que foi feito durante os restantes anos após o 25 de Abril. A mulher só pode estar vesga ou ter estado num país que não é seguramente Portugal. Porque o que se passou nos últimos três anos, com a paixão da austeridade cega e surda, foi destruir o país no que tinha de melhor, que são os seus activos humanos; foi empobrecer selvaticamente a generalidade da população, excepto a classe rica, altamente beneficiada por este governo; foi diminuir brutalmente prestações sociais; foi empurrar mais de 300 mil portugueses para a emigração; foi aumentar despudoradamente os níveis de desemprego, em especial o desemprego jovem; foi alienar as empresas estratégicas, e as mais lucrativas; foi cavar ainda mais funda a linha de desigualdade social; foi encerrar serviços essenciais, da saúde à justiça e à educação; foi diminuir e desvalorizar o Estado Social, a maior conquista do 25 de Abril e da democracia; foi fazer o país andar para trás em décadas; foi aumentar a dívida pública, em quase 35%, passando de 96% para mais de 130 % do PIB.
Com estes dados, como é que alguém, em uso do seu perfeito juízo, pode afirmar que nos últimos três anos se fez mais do que nos restantes 37 de democracia.
O sol de Cascais deve estar a fazer os seus efeitos em algumas mentes!...


3. Depois, a meio da semana passada soube-se que a paixão da austeridade não tem fim para este governo. Ao apresentar o Documento de Estratégia Orçamental, o governo voltou a faltar à palavra, o que foi genético na sua constituição, pois foi eleito com base na mentira. Garantindo nos últimos meses que não iria aumentar os impostos (“Não acredito que o país aguente mais impostos”, mentiu o primeiro-ministro no Verão do ano passado), o executivo decretou a subida do IVA para 23,25% e a TSU dos trabalhadores para 11,2%, entre outras medidas.
Vamos passar a pagar mais, pelos mesmos artigos que compramos no supermercado. Vamos pagar mais impostos, na TSU. Quer dizer, os portugueses vão ter menos rendimentos disponíveis em 2015. Até os trabalhadores que vencem o salário mínimo vão receber menos.
E, em face desta realidade, o primeiro-ministro ainda tem a lata de vir negar o aumento de impostos e a ministra das Finanças sustentar que “não há novos cortes sobre salários e pensões' …
Os deuses devem estar loucos!...

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