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‘Os deuses devem estar loucos’

O espantalho

Escreve quem sabe

2018-10-28 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

A propósito do momento político que vivemos nas últimas semanas, e tem mantido o país numa onda de incertezas, trouxe-me à memória no filme “Os deuses devem estar loucos”, lançado em 1980, pelo impacto causado por uma garrafa de coca-cola entre a tribo de bosquímanos do deserto de Kalahari. Descartada por um piloto de um monomotor, que sobrevoou território onde viviam em paz, bem organizados e em harmonia com a natureza.
Tal como nós vivemos, na esperança de dias melhores que decorre dos tempos favoráveis que vivemos, do tão enfatizado equilíbrio das nossas contas públicas e na expetativa criada pelo compromisso assumido pela atual solução governativa, de reposição de direitos socias e profissionais, resultantes do período de intervenção externa que vivemos durante os tempos da troika, onde a austeridade marcou, profundamente, a vida de todos em nome do superior interesse nacional, independentemente, da sua situação económica e social.
Trata-se de um filme interessante, apesar de Jamie Uys nos transportar para um contexto espácio-temporal totalmente diferente do nosso. O próprio enredo do filme, as situações caricatas com que nos confronta, proporcionam-nos motivos de reflexão que nos tocam com muita proximidade. Em relação à organização da nossa sociedade, à forma como são tomadas as decisões, ao processo de liderança e à forma como reagimos em relação aos imprevistos e às situações novas, como temos sido confrontados nos últimos tempos. Tal como no filme, nós temos que descobrir o que está a lançar tantas incertezas, apesar da convicção dos protagonistas!
Desde logo remodelação governamental a partir da demissão do Ministro da Defesa, ainda a propósito do material de guerra, supostamente “obliterado” das instalações militares de Tancos. Uma remodelação profunda, que se embrulhou num coro de críticas em relação às opções do Primeiro Ministro, e ao perfil pessoal técnico e, sobretudo político, dos novos membros do Governo.
Depois de uma substituição atribulada da Procuradora Geral da República, que sendo tradição ou não, surpreendeu uma grande maioria de portugueses, pela avaliação positiva da anterior titular do cargo, Joana Marques Vidal, pela ação inspiradora de confiança no sistema de justiça, e pela forma como geriu alguns dos processos mais sensíveis.
Queremos um sistema seguro, que continue a fazer o seu trabalho com eficiência, eficácia e efetividade, mas devemos com toda a convicção, pedir mais recato e maior equidade no tratamento dos processos que se vão sucedendo. Um desígnio civilizacional, em que nos devemos envolver de forma empenhada, para deixarmos funcionar as instituições normalmente, e de forma discreta sem pôr em causa o seu prestígio, expondo de forma ligeira o recato e a reserva que carateriza as instituições de justiça e segurança.
O Ministro da Finanças defende a meta histórica do défice zero, preconizando o superavit das contas nacionais, para um horizonte próximo. As organizações sindicais tem desenvolvido uma intensa atividade, que consubstanciam um número elevado de greves. Os professores, os enfermeiros, os médicos, a função pública em geral e, tantos outros grupos profissionais, não se conformam com o desfasamento das condições prometidas, e as previsões orçamentais podem garantir.
A proposta de Orçamento do Estado tem sido outra caixa de surpresas. Nem os parceiros de coligação se entendem. As expetativas estão muito elevadas. O ajustamento do sistema de reformas enrolou-se numa “trapalhada”, que o Ministro responsável, certamente bem-intencionado, não conseguiu esclarecer. As leituras são diversas. Os mais ilustres economistas e académicos, levantam muitas dúvidas.
Neste sentido, não podemos continuar neste ambiente de incerteza, onde os políticos não se respeitam, dando a sensação que a verdade está a cada momento a ser mascarada, quando se reivindicam as evidências, porque se chega à conclusão de que, afinal, não possível ir tão longe como prometemos, temo que ter a humildade de corrigir a rota. Os limites e as fronteiras são cada vez menos cognoscíveis, e as surpresas são cada vez mais intensas, ameaçando ocupar o estádio da normalidade.
Todos defendemos contas certas, mas com realismo, para que a transparência e a credibilidade da ação política, não sejam postas em causa. As pessoas merecem ser tratadas com inteligência e respeito, depois do exemplo que deram, em defesa do interesse público, ao abdicarem dos seus próprios direitos. Só podemos prometer o que podemos pagar, porque nem as eleições devem ser o princípio da ação política, a esta distância, nem o futuro se constrói com medidas de consumo imediato.

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