Correio do Minho

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Os Crápulas

Bibliotecas humanas

Ideias

2015-06-05 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

A palavra é de tal modo insidiosa e ofensiva que até nos demos ao trabalho de ir aos dicionários verificar todo o seu alcance e abrangência, importando dizer-se desde já que como subs- tantivo tem o significado de indívíduo crapuloso, isto é, dado à crápula, que por sua vez, segundo um dicionário da Porto Editora, quererá dizer “desregramento abjecto”, “devassidão grosseira” e “libertinagem”. Um conjunto de vocábulos de tal modo “fortes” e “desregrados” na sua significação que até nos levou a consultar o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, aí se constatando que crápula será “o indivíduo que se rebaixa com a prática habitual dos vícios torpes e acções revoltantes, indignas”, sendo que a palavra «crápula”, aliás de origem latina, traduzirá “desregramento”, “modo extravagante, desregrado, grosseiro e habitual de vida”, “libertinagem, devassidão” e “gente devassa”.

Tudo isto, diga-se, vem a propósito de um artigo com este título subscrito no C.M.(13.4.15) por Marinho Pinto, antigo Bastonário da OA, eurodeputado (crê-se) e pai do PDR, um novo partido político com que os portugueses se terão de haver nas próximas eleições legislativas. Claro que tal “escrito” teria de ter a assinatura de Marinho Pinto, que desde há muito nos habituou a um certo “deboche” vocabular e a todo um linguarajar “destravado”, aliás de todo explicável por lhe sido mal cortada a trave na língua quando criança e compreensível quando inflamado por incontroláveis “ressabiamentos”. Mas adiante! Debruçando-nos sobre “Os crápulas” de Marinho Pinto, impõe-se-nos consignar que continua igual a si mesmo quanto ao destilar de veneno contra o sistema judicial e ... imagine-se, até contra os próprios políticos. Um “veneno” que de todo se regista e se sublinha ainda que nos surpreendam não só tal dicotomia como a sua restrição a tais estratos sociais, dado que, tanto quanto sabemos e se nos afigura, Marinho Pinto continua a estar inserido no sistema judicial como advogado, seu anterior Bastonário e agora como arguido num processo, sendo incontornável que de igual modo se encontra integrado num especial “naipe” de políticos activos, por enfileirar e surgir como responsável e “cabeça” do PDR. E porque crápulas há muitos, e por toda a parte, não pudemos deixar de estranhar a própria dicoto- mia e a “qualificação crapulosa” que fez, restringindo-a apenas a integrantes e participantes nesses dois “espaços” ou “estratos” sociais ( política e sistema judicial ), sendo certo que também não deixamos de sentir muitas dificuldades e alguma perplexidade em vislumbar como e de que modo consegue ver-se e pôr-se de fora de tal enquadramento dicotómico de “crápulas” e fugir a uma natural inclusão gerada por uma tão absoluta qualificação numa restrita, mas tão usual e comum, categoria de figurantes. Até porque, diga-se e reconheça-se, não identificou nem individualizou quaisquer crápulas em concreto, isolando-os e “demarcando-se” das excepções que, estamos em crer, certamente existem como personalidades reais, dignas e distintas na dicotomia que traçou entre esses dois estratos sociais: o dos ” políticos” e o do “sistema judicial».
Mas lá terá as suas razões e motivos, pessoais ou não, ocasionais, circunstanciais ou de raiz, reais ou fictícios para escrever e dissertar assim sobre toda uma “crapulogia” que, para nós, que não somos tão jacobinistas nem radicais, ainda não vislumbramos como endémica, muito embora reconheçamos que, devido a uma crescente e universal globalização e sua propagação graças às novas tecnologias, não será de excluir em breve, e de todo em todo, uma grave e muito perigosa pandemia de crápulas. Sobretudo devido aos políticos e a todo um conatural e inquestionável descalabro em seriedade, honestidade, carácter, independência e isenção, com reflexos perversos num aumento do seu número no país e em todas as áreas de vivência humana, e não apenas no sistema judicial e na política, que aliás mereceram ênfase e todo o arrazoado de Marinho Pinto. Um arrazoado que, quanto se nos afigura face à leitura que fizemos, assenta em todo um incontornável ressabiamento político-judicial baseado em certas escutas havidas e numa “soprada” informação de que “estaria a ser preparada uma mixórdia mediática a fim de ser usada contra si e o PDR nas próximas eleições”. Aliás umas escutas que teriam sido facultadas (!?) “a sicários especializados em denegrir a imagem de pessoas sérias” como o próprio escriba, o qual, hipotizando já tal facto como uma crua realidade, exara expressamente “que há crápulas no interior do sistema judicial que usam os seus poderes para, em conjugação de esforços com os crápulas que há na política, tentarem subverter as regras do jogo político democrático”. Mas logo referindo e sublinhando estar “certo de que, mais cedo que tarde, os crápulas acabarão afastados do sistema judicial e da própria política e que a probidade e a honestidade voltarão a ser bandeiras de orgulho para quem aí exercer funções”.
Ressaltando e emergindo de todo em todo um certo ressabiamento político e uma prevenção avisada e acautelada de possíveis efeitos perversos de eventuais, reais ou simplesmente “soprados” envolvimentos seus com a pessoa de Sócrates, tal arrazoado escrito acaba por desaguar e se travestir num prévio e vigoroso contra-ataque a algo de “soprado”, mas de consequências e resultados por enquanto desconhecidos. Na verdade “Os crápulas”, subscrito por Marinho Pinto, “suporta” as mais díspares respostas e possíveis considerações, mas não deixa de ser muito curiosa, indisfarçável, elucidativa e sintomática toda a preocupação havida em revelar que “a única vez que falei com José Sócrates desde que deixou de ser primeiro ministro foi por altura das eleições europeias, porque ele me convidou para almoçar”, sendo que “o próprio Sócrates anulou o convite à última hora, provavelmente pelas minhas posições públicas em favor de António José Seguro”, e em asseverar não ter pedido nem recebido nada do “antigo ex-primeiro-ministro, muito menos apoio financeiro para qualquer campanha eleitoral”, esclarecendo ainda que “Sócrates também nunca me pediu nada - ou melhor, a única coisa que me pediu foi que eu fosse candidato nas listas do PS, mas eu recusei”.
Mais “crápulas” ou menos “crápulas”, mais “mixórdias” ou menos “mixórdias”, mais “sopros” ou menos “sopros”, a única conclusão a tirar disto tudo é que a figura de Sócrates, há anos fora do poder e agora “recolhido” na cadeia de Évora, continua a ter efeitos colaterais de manifesta perversidade e a gerar preocupações, com muitos a pretender fugir com o rabo à seringa, a “justificar-se” e a querer “independementar-se”. Curiosamente o povo, desiludido e descontente com a democracia que se diz ter, continua a acreditar!?!... Daí que sejam já em número de 22 os partidos políticos registados no Constitucional para as próximas legislativas, porquanto a política, apesar de tudo, continua a ser vista como uma “indústria” com futuro, naturalmente com outros e mais “crápulas” devido ao inexorável fatalismo da “partidocracia” que se vem vivendo e aos arraigados defeitos e vícios da nossa muito especial classe política.

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