Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Os chapéus de palha de Cambeses

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2019-02-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Muito se tem falado na alteração permanente das profissões, no fim de umas e no surgimento de outras. A ideia de termos uma única profissão durante o nosso período ativo praticamente desapareceu. Certamente, não sabemos quais serão as profissões que estarão em maior destaque, daqui a uma década, contudo, sabemos que alguns empregos desaparecerão, sendo substituídos por automatismos que desempenharão as mesmas funções.
Perante esta acelerada alteração do dogma laboral, qual a saída que temos?
Para contribuir para a inversão deste paradigma, algumas das profissões do futuro poderão ser recuperadas em atividades tradicionais da nossa região.
Como sabemos, o Minho é uma região rica nas tradições e nos costumes. Até há poucas décadas, predominavam nas freguesias minhotas as pequenas atividades populares com um cunho tipicamente local. A olaria, a cestaria, a filigrana, os bordados, os ferros forjados são algumas das atividades que mantiveram muitas famílias, durante décadas. Alguns concelhos procuram já recuperar tradições que contribuem para uma melhoria da economia dessas terras. Refiro-me, por exemplo, a Vila Verde e ao desenvolvimento assinalável que a marca “Lenço dos Namorados” atingiu a nível nacional e internacional; à Póvoa de Lanhoso, com a projeção que dá aos ourives e, também, a Barcelos, com a projeção que dá à olaria.
Contudo, pretendo aqui lembrar outra área muito ligada à nossa região, especialmente em freguesias de Fafe, de Braga e, também, de Barcelos. Refiro-me à produção de chapéus de palha!
A palha de centeio é uma das fibras vegetais usadas pelo homem como matéria-prima, agora quase em desuso. Assim, quem percorria o Minho, há alguns anos, deparava-se com um importante uso da palha de centeio. Esta era utilizada para cobrir telhados, para chamuscar os pêlos do porco, aquando da sua matança, para servir de colchões e, também, para fazer trabalhos artesanais, nomeadamente cestas e chapéus.
Com uma maior concentração em Fafe, a palha era depois trabalhada em Braga (principalmente S. Vítor) e em Barcelos, por artesãos empenhados, que contribuíam para a pobre economia familiar da época. Uma das freguesias com maior ligação ao trabalho da palha é Cambeses, no concelho de Barcelos. A ligação é de tal modo acentuada, que no seu brasão está, bem no centro, um chapéu!
A afirmação desta arte de trabalhar a palha e os chapéus de palha nesta freguesia teve o seu epicentro na Exposição do Mundo Português, em Lisboa, em junho de 1940, quando ali marcaram presença uma senhora e duas raparigas da freguesia, para mostrar ao país a arte de bem fazer estes chapéus.
De facto, durante o século XIX e principalmente na primeira metade do século XX, muitas mulheres da freguesia contribuíam para o parco orçamento familiar, transformando a palha em tranças e, posteriormente, em chapéus. A par da agricultura, era uma das principais atividades da freguesia.
À porta de casa ou até mesmo quando circulavam pelas ruas lamacentas ou poeirentas, em direção à igreja ou à mercearia, as mulheres da freguesia levavam no braço palha e, tranquilamente, iam-na transformando em tranças. Havia várias formas de entrelaçar a palha, nomeadamente os trancelins, as rendilhas, as escumilhas, as tocas e até as peixeiras.
De todas as formas, estas mulheres rentabilizavam a palha e a produção de chapéus de palha. Assim, aproveitavam as mais grossas para fazerem palhinhas que vendiam para os melhores cafés de Braga e do Porto. Era vê-las no comboio, com cestos de palhinhas, em direção a estas duas cidades. Posteriormente, estas palhinhas de centeio, que serviam para beber leite, cevada ou galão, foram substituídas pelas de plástico!
Mas os chapéus eram, na realidade, o principal destino que estas mulheres davam às suas tranças de palha. Os chapéus, grandes ou pequenos, eram utilizados não só para trabalhar nos campos, mas também para irem à igreja. Muitas colocavam nos chapéus penas de galinha que, pintadas, tornavam o chapéu ainda mais atrativo.
Adelino Ribeiro da Silva, que nasceu em 1911, e Rosa Faria Ribeiro, que nasceu em 1915, foram um dos casais de chapeleiros que mais se dedicou a esta arte. Também Maria Dolores Martins da Silva dedicou uma grande parte da sua vida aos chapéus de palha, que aprendeu com o seu marido, António Ribeiro da Silva, também ele filho de um chapeleiro.
Atualmente, quem mantém esta tradição há mais tempo é Maria Alice da Costa Pereira, de 83 anos, filha de Joaquim Gomes Pereira e Carolina da Costa Moreira. Trabalha na arte da palha desde os cinco anos!
À medida que as mulheres, que se dedicavam à palha e aos chapéus, foram envelhecendo todos pensavam que esta tradição acabaria, inevitavelmente, por desaparecer.
 Neste contexto de preservação da arte e da cultura popular, as Juntas de Freguesia devem desempenhar um importante papel. Foi o que aconteceu com a Junta dessa Freguesia, que reuniu um grupo de cerca de vinte mulheres e recuperou, desde 2015, a produção artesanal de chapéus de palha. Este grupo encontra-se todas as sextas feiras, à noite, para reviver o passado e, ao mesmo tempo, recordarem canções do seu tempo. A este grupo de pessoas mais idosas têm-se agregado alguns jovens.
A aposta nesta arte pode ser uma afirmação de cultura e de património, mas também uma saída profissional. Basta, recordar o Lenço dos Namorados!

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