Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Os carros de despejo em Braga!

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2018-03-04 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

NUma das grandes preocupações da sociedade atual está relacionada com o meio ambiente. Não é necessário estarmos muito atentos ao que nos rodeia para concluir que assistimos com maior frequência a fenómenos de natureza extremos. Apesar das alterações climáticas que se verificam na atualidade, a verdade é que as populações e os municípios parecem revelar também uma crescente inquietação com as questões do meio ambiente, tomando consciência que a sua preservação começa com pequenos hábitos diários. Um dos mais importantes é a reciclagem do lixo doméstico.
No entanto, as pequenas atitudes diárias, que hoje fazem toda a diferença, nem sempre foram assim. Basta recuarmos pouco mais de cem anos, para termos um cenário bem diferente e, quando aludido, é constituído por episódios de verdadeira comédia.
Assim, em finais do século XIX, os bracarenses varriam o lixo para o exterior das portas onde aí permanecia; os cães, os gatos e os porcos coabitavam com as pessoas no interior das suas casas; em vários largos de Braga, como o Campo das Carvalheiras, as galinhas circulavam às dezenas; os cães vadios eram em número bem superior ao dos próprios cidadãos; algumas pessoas ficavam feridas por porcos, que circulavam livremente pelas ruas de Braga, mesmo de noite; vários cidadãos sujavam-se frequentemente devido à bosta depositada nas ruas.
Foi neste contexto que a Câmara Municipal de Braga resolveu criar um sistema inovador de recolha de lixo, visando desta forma minorar um problema que afetava muitas famílias. Foram então criados quatro carros-caixões, puxados a tração animal, nos quais era colocado o lixo produzido no interior das casas, incluindo as próprias águas sanitárias. Em cada carro foi colocada uma campainha, que servia de chamada de atenção aos moradores que, desta forma, deslocavam-se à rua para depositar o lixo doméstico nestes carros de despejo, como então ficaram conhecidos.
Este sistema de recolha de lixo começou a funcionar a 27 de julho de 1885, há 133 anos, e operava num horário compreendido entre a meia-noite e as 8 horas.
Os carros de despejo, puxados a tração animal, faziam um enorme alarido por onde passavam. O lixo era recolhido durante a noite e as rodas dos carros, ao pisarem pesarosamente as pedras das calçadas, abalavam as casas que se encontravam próximas do percurso efetuado. Além disso, os funcionários municipais que faziam a recolha falavam alto, alguns quase aos gritos, contribuindo também para acordar os habitantes.
Para além do ruído, os carros de despejo, por onde passavam, deixavam um cheiro nauseabundo, vertendo águas repletas de dejetos humanos e domésticos. As pessoas que tinham de madrugar e que por azar se cruzassem com estes carros de despejo da Câmara Municipal, evitavam com um lenço bem apertado no nariz o odor fétido.
Em dias de verão, ao amanhecer, o sol refletia ainda mais os dejectos, provocando cheiros ainda mais intensos, que obrigavam a que as pessoas tivessem que fechar as portas e janelas das suas habitações ou espaços comerciais!
Por outro lado, os próprios condutores destes veículos não estavam preparados para esse serviço, pois paravam os carros de despejo durante muito tempo, aí permanecendo em grosseiras e altas conversas, às quais se juntava a sinfonia das campainhas que os carros tinham! Em consequência, aumentavam as queixas a este serviço.
Apesar do sistema de recolha de lixo ser atualmente bem mais moderno e eficaz que outrora, todos assistimos, com alguma regularidade, a comportamentos de cidadãos que fazem lembrar esses tempos.
Papéis, cascas de banana ou caixas de iogurte, são ainda lançados com frequência pelas janelas dos automóveis em andamento; homens, mas também mulheres, que cospem valentes escarros para a via pública; animais que sujam os passeios ou condutores que lançam restos de cigarros para matas, causando incêndios, a tudo isto ainda hoje assistimos. São comportamentos que fazem lembrar os tempos dos carros de despejo que existiam em Braga!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho