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Braga, sábado

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Os brasileiros em Braga e os bracarenses no Brasil

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2018-10-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As eleições presidenciais que se realizam hoje no Brasil estão a causar expectativa a nível mundial, mas particularmente nos cerca de 210 milhões de brasileiros.
A acreditarmos nas sondagens, prevê-se que o candidato de extrema-direita possa tornar-se no novo Presidente do Brasil. Se isso acontecer, esperam-se anos de instabilidade nesse território, num processo semelhante ao que se vive atualmente nos EUA, com a agravante dos brasileiros não serem tão evoluídos democraticamente como os norte-americanos.
Uma das consequências das eleições de hoje, no Brasil, pode ser o êxodo de brasileiros, com destino a várias localidades portuguesas, especialmente a Braga. O elevado número de brasileiros que procura a nossa região faz lembrar, em sentido inverso, os portugueses que procuraram o Brasil, nas últimas décadas do século XIX e início do século XX.
Nos agitados anos de final do século XIX, foram aos milhares os portugueses que tentaram a sua sorte no Brasil, deixando para trás um país pobre e na busca de um mundo novo.
Muitos bracarenses abandonaram as suas terras, com destino a um local desconhecido. No dia 28 de fevereiro de 1891 a “Cruz e Espada” traz o relato impressionante da viagem de dois jovens bracarenses, que se torna elucidativo da miséria que abraçava estes portugueses. Os bracarenses Custódio Dias, de 21 anos, e Francisco Dias, de 20 anos, resolveram viajar para o Brasil, a bordo do vapor francês “Parahyba”. Contudo, depressa estes jovens foram confrontados com a dura realidade: “deram-lhes, a bordo, uma bolacha crivada de bichos e todo o alimento restante era detestável”. Perante os protestos destes jovens, de imediato o oficial de serviço no vapor ordenou a prisão de Custódio Dias: “lançaram-lhe uma grilheta aos pés e assim permaneceu por espaço de 24 horas”! O resto da viagem foi efetuada no meio da ameaça, do medo e da fome!
A 3 de dezembro desse ano, a mesma fonte refere que chegaram ao Brasil a bordo do “vapor Clyde” cerca de 600 portugueses, acrescentando que “Assisti ao seu embarque, vi-os trazer de terra como um bando de carneiros, amontoados uns sobre os outros…”. Este trato era dado a homens a mulheres, a velhos e crianças! E o tratamento era horrível, pois a tripulação do vapor inglês tratava com “selvático desprezo os nossos infelizes concidadãos”. Este procedimento dado aos portugueses que iam para o Brasil, fazia lembrar os escravos que os portugueses levavam de África para o Brasil, nos séculos XVI a XVIII! As condições de viagem eram de tal forma desumanas que “Os pobres emigrantes dormem uns sobre os outros (…) sobre o convez do navio, nas escadas das escotilhas e no porão, onde o calor abraza, porque há horas em que não corre a menor aragem…”.
Homens, mulheres e crianças dormiam todos separados em três camadas de camas, que se sobrepunham. Contudo, a ondulação provocava enjoos e consequentes vómitos que caíam sob aqueles que se encontravam nas camas abaixo! De seguida, um “cheiro nauseante, repelente, activo, começa a erguer-se lá do fundo, estonteando e perturbando os que ainda não enjoaram. As crianças choram, as mulheres aterram os ares com os seus clamores, os homens praguejam! Oh! meus amigos: é preciso vêr isto para se avaliar o que é miséria e degradação!”.
A ignorância e a ilusão era apanágio destes pobres portugueses, pois nesse navio, com 110 mulheres e 115 homens, apenas dois homens sabiam ler e mal!
Por todas as estações de caminho-de-ferro, por todos os apeadeiros, por todas as paróquias do país, encontravam-se afixados cartazes a anunciar os vapores que partiam de Portugal para o Brasil. Os que viviam deste lucro, os “engajadores”, muitos deles pertenciam às próprias autoridades portuguesas. Imagine-se que “só da povoação de Favaios, partiram na semana última mais de vinte famílias, tendo ido dez na semana anterior! De Villar de Maçadas também partiram seis famílias, e no sul do concelho existem já centenas de casas fechadas!” (“Cruz e Espada”, 17 de janeiro de 1891).
A procura pelo Brasil era de tal forma elevada, que de Cabo Verde surgiram apelos para que os portugueses fossem antes para a cidade da Praia, pois lá havia “falta de bons artistas de quasi todos os officios. Se, em vez de embarcarem para o Brasil, viessem para esta cidade com vontade de se dedicarem com honra á sua arte, por certo aqui fariam melhor fortuna”. E era de tal forma urgente uma mão de obra qualificada, pois em Cabo Verde “Tudo se manda vir de fora feito, por não haver um único artista” (“Cruz e Espada”, 3 de janeiro de 1891).
Apesar destes apelos, vindos de outras colónias portuguesas, o Brasil continuou como o principal destino da emigração portuguesa. Alguns bracarenses encontraram a miséria, mas muitos conseguiram sucesso no Brasil.
É também desta forma que as sociedades funcionam: com portugueses que cruzam o oceano com destino ao Brasil, ou o oposto. Contudo, desejamos que das eleições presidenciais de hoje, no Brasil, possa ser eleito o candidato que melhor defenda os interesses dos brasileiros.

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