Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Os amigos de Mariana (2ª parte)

Não há desculpas

Conta o Leitor

2022-08-05 às 06h00

Escritor Escritor

Texto Pedro Leucrano

- Ah, a Mariana! Já sei. Agora que falaste de Monção. Não sabia que era professora de História.
- Fala muito de ti. Deu a entender que gostava de falar contigo. Penso que gostava de ter o teu número de telemóvel.
- Claro. Sem problemas. Fomos muito amigos na juventude, nos anos setenta. Nunca mais a vi. Já lá vão quarenta anos ou mais.
E dei o meu contacto à Margarida para dar à Mariana. E fiquei com o número da Mariana.
Nunca mais pensei no assunto, pois depois de tantos anos, a minha amiga da juventude, das palavras doces e da alegria contagiante, nada me dizia.
Passaram alguns meses, encontrei novamente a colega Margarida e voltámos a falar no assunto.
- Estive com a Mariana e diz que nunca mais lhe ligaste.
- Mas... eu não fiquei de ligar! Foi ela que ficou de ligar.
- Não sei – respondeu a Margarida.
Esta conversa ficou-me na memória, dava voltas à cabeça e pensava : “Devo ou não ligar à Mariana!?”. Telefonar não me pareceu a melhor solução. Talvez uma mensagem. Sim, uma mensagem. É isso.
E lá seguiu a mensagem. A partir daí, e pelas redes sociais, recordámos velhos tempos. Mariana enviava fotos dos tempos da juventude em Braga, que eu nem imaginava que existissem, acompanhada da habitual pergunta: “Lembras-te?”. De algumas, lembrava-me, mas de outras, nem por isso. Enviou-me duas fotografias atuais e eu correspondi.
“Estás um jovem. Vamos encontrar-nos e falar dos velhos tempos?”, propôs Mariana.
Nada tinha a perder, pois estava divorciado e Mariana, pela forma como se apresentava no Facebook, ou era viúva ou divorciada. Apostava mais em divorciada. Até então, nunca tínhamos falado sobre o estado civil. Mas, numa dessas trocas de mensagens, perdi a vergonha, enchi-me de coragem e perguntei qual era afinal a situação. Prontamente respondeu que estava divorciada há alguns anos. Eu tinha razão. Combinámos encontrar-nos. Era verão. Estava bonita, num vestido elegante, cabelo loiros, olhos castanhos brilhantes, o sorriso que guardava do tempo da juventude e a eterna alegria contagiante.
Cumprimentámo-nos com dois beijinhos dos velhos tempos. Sentámo-nos e conversámos longamente no café Vianna, café centenário, com longa história, fundado em 1858. Mariana estava muito bonita, conversadora e com refinado sentido de humor. Gostei daqueles momentos. Saímos, demos a Volta dos Tristes e marcámos um novo encontro com almoço.
Encontro marcado para o sábado seguinte. Ficámos de nos encontrar na Brasileira, outro café emblemático da cidade. Mariana apareceu à hora combinada, onze da manhã. Continuava bonita, apesar da idade. Tomámos café de saco como nos tempos antigos. Falei das duas Brasileiras, a Brasileira Velha, onde estávamos e a Brasileira Nova, mesmo em frente. Era na Brasileira Velha que, antes do 25 de abril, se juntavam os apoiantes de Marcelo Caetano e da União Nacional. Padres, professores e comerciantes eram os seus clientes habituais. Um empregado comercial não se atrevia a entrar na Brasileira Velha. Os que estavam mais ao lado de Salazar frequentavam a Brasileira Nova. Não tinha bem a certeza se era assim ou o contrário. Mas reparei que Mariana gostou de ouvir a história das duas Brasileiras. Era um assunto que lhe interessava, pois era professora de História. E era capaz de fazer investigação sobre o tema e tudo ficaria esclarecido.
Um almoço maravilhoso no restaurante I(g)nácio no Campo das Hortas com bacalhau à Braga (antigo bacalhau à Narcisa) e pudim à Abade de Priscos. E mais uma pequena lição de história sobre o Arco da Porta Nova e a expressão “Fecha a porta. És de Braga!?”.
Ainda ficou no ar uma volta pelo barroco da cidade. Tanta beleza para apreciar!
A partir deste almoço e do primeiro beijo, foi tudo mais fácil. Começámos a encontrar-nos com regularidade e a viver um romance intenso, quase arrebatador. Eu parecia um jovem, cheio de vontade de viver. Não havia dia que não pensasse em Mariana. Quando não estávamos juntos, trocávamos mensagens através das redes sociais. Estava tudo a correr bem, muito bem. Eu estava apaixonado por Mariana e tudo me dizia que Mariana estava apaixonada por mim. Não tanto como eu. Não se pode ter tudo.
O tempo voa. Já tinham passado quase seis meses deste romance. Era a pessoa mais feliz do mundo. Chegámos a pensar viver juntos. Mas arrumar os trapinhos na casa dos sessenta não me parecia boa ideia. Cada um continuou a viver em sua casa.
Um certo dia, recebi um telefonema do meu amigo Paulo. Paulo era um D. Juan. Casado, mas cheio de aventuras pelo meio. Não podia ver um rabo de saia, tudo lhe agradava e tudo o que vinha à rede era peixe.
Vinha a Braga e aproveitava para tomarmos um cafezinho. E, se o tempo o permitisse, almoçávamos juntos. Fiquei satisfeito. Paulo confiava em mim e contava-me a sua vida amorosa.
E perguntei-lhe, sem qualquer receio:
- Então, ainda andas com aquela casada que tem o marido no estrangeiro?
- Não - respondeu prontamente - cansei-me de a aturar. Sabes como é. Tudo tem um fim.
- Então? E agora?
- Ando com uma professora divorciada. Éramos amigos de juventude. Ficámos vários anos sem nos vermos e um dia ligou-me a perguntar se ainda me lembrava dela. Fiz um esforço e lá consegui.
- Há quanto tempo dura o romance – perguntei, curioso.
- Há cerca de dois meses. É divorciada, muito meiguinha…
Comecei a desconfiar. Professora, divorciada e muito meiguinha! Cheirou-me a esturro. E perguntei com intenção:
- Deve ser uma pessoa muito alegre, não?
- Sim, sim. Muito alegre mesmo. Ao pé dela ninguém está triste.
- Eu conheço?
- Não sei. Talvez. É de Monção.
Não podia ser. Estava tudo a condizer: professora, divorciada, meiguinha, alegre, de Monção. Seria a minha Mariana!? Se soubesse o nome, ficava tudo em pratos limpos. Mas não lhe queria perguntar de forma aberta. E, de repente, surgiu-me uma ideia brilhante.
- Pela maneira como falas tem cara de Teresa! – comentei.
- Não, não. Mariana. É Mariana. Qual Teresa!
Estava quase tudo esclarecido.
- E é professora de quê?
- De História – respondeu o meu amigo Paulo.
Não precisava de perguntar mais nada. Nem o apelido. Tinha de ser Sepúlveda. Só podia. Fiquei uns momentos calado, pensativo.
Estávamos a ser enganados os dois. E quantos mais não o teriam sido com as palavras doces e a alegria contagiante de Mariana. A minha Mariana. Quem diria!
E ficou sem efeito a visita à capital do barroco. Tanta beleza por apreciar!

Fim

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

18 Agosto 2022

O bolo da noiva

17 Agosto 2022

O dente do javali

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho