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Os 7 Pecados mortais na Perda Gestacional (II parte)

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Escreve quem sabe

2011-02-20 às 06h00

Manuela Pontes Manuela Pontes

No nosso último encontro literário, falámos dos 7 pecados mortais na Perda Gestacional. Abordamos a Culpa e a Vergonha, os dois dos primeiros dos sete pecados que aportaremos. Mas existem mais cinco que devemos ficar a conhecer.

Melancolia - o terceiro pecado e o mais amargurado. É muito usual, senão denominador comum, uma mulher que perdeu o seu filho ainda no ventre ter que aprender um conceito de saudade que foge a todas as regras do senso comum. Uma saudade que não assenta em memórias concretas, não atraca em imagens que pertencem a acções objectivas, não assenta em coisas corpóreas; onde não há objectos, cheiro, textura, cor. Onde o que preenche tudo é um vazio cheio de nada. Já se imaginaram ter saudades de algo que nunca viram? Façam este exercício, que tem de tão simples a sua complexidade: imaginem algo que desejem muito, dêem-lhe vida através dos cinco sentidos que somos munidos e quando acreditarem na sua existência, apaguem essa realidade.
O que restou? Uma melancolia, essa saudade do que poderia ter sido, essa saudade do que verbalizamos através de sentidos e que só nós a incluíamos; na melancolia já nem as memórias daquilo que desenhamos jazem nas nossas entranhas. É a ambiguidade de querer-mos muito lembrar-nos, e o desespero de rasgarmos todas as nossas membranas interiores em busca de alguma reminiscência desse sonho e descobrirmos que o que resta é a prostração de não encontrarmos nada. E mais uma vez pecamos, peca-mos quando exigimos que alguém não sinta saudade, apenas porque não partilhamos da mesma imagem ou situação. Por que é que apenas aceitamos a melancolia do Outro, quando faz sentido para nós?
Por que é que a melancolia necessita de ser coerente?
Por que é que a saudade precisa de autorização para se instalar?
Não se iludam, não só o que foi animado um dia em nossas vidas tem crédito para ser lembrado. O que morre dentro de nós, mesmo que invisível para todos os outros, perpetua-se para lá da nossa própria existência. Arranquem o vosso passado de quem não o conhece e tentem permanecer iguais a vós próprios. Não é possível, porque há melancolias que só a nós pertencem, só a nós dizem respeito e sem as quais parte de nós se extinguiria com esse passado. Permitam a estas mulheres chorar um filho e sentir saudades do seu cheiro, da sua pele, da sua face, do seu futuro; ele existiu, nós, sociedade, é que não aprendemos a vê-lo.

Luto - O quarto pecado e o mais fatal. Estamos familiarizados a fazer luto por aquilo que nasceu, viveu e acabou por encerrar o seu ciclo de vida com a morte física. É- -nos inconcebível imaginar um luto de coisas, quanto mais de pessoas que não chegaram a nascer. Para a sociedade, em geral, o luto passa concretamente por chorar sobre as recordações de um passado impregnado de companhia, de vivências em comum; de partilhas e até desencontros. Na morte, mesmo o mais cruel dos Seres, é redimido pelo nosso perdão, porque a morte é um estandarte que se impõe independentemente da nossa vontade. Ela chega e pronto, a sua vontade é soberana e nós somos o elo mais fraco.
A morte lembra-nos que queremos ser perdoados pelas nossas fraquezas, por isso perdoamos neste momento. No entanto, quando vemos uma mulher perder um filho ainda em gestação é absurdamente irreligioso, se associarmos todo o conceito que a morte liga ao divino, não assumirmos aquele Ser, que pulsava num útero, como uma pessoa cujo futuro apenas foi ceifado cedo demais.
O que responderiam se vos questionar com as seguintes questões: O que deverá fazer uma mulher que perdeu um bebé ao longo da sua gravidez? Esquecer?; Apagar este acontecimento da sua vida?; Deitar no lixo as recordações de um processo de gravidez e parto prematuro?; Desprezar aqueles momentos em que sentiu no corpo as primeiras mudanças da maternidade?
Concordam que se responderam a todas estas inquisitivas negativamente, descobriram que o caminho da dignidade a esta problemática é tão claro como o que estamos a abordar: a realização do luto.
O nosso pecado capital é quando intimamos que se reciclem acontecimentos de vida como sendo coisas descartáveis e substituíveis. Ensinem-me a substituir um filho e encontramos a solução para todo o mal deste problema.
Da mesma forma que a morte chega aos 70 anos de idade, pode chegar aos 4, 5 ou 6 meses de gestação; nenhuma destas partidas é mais valiosa; as duas são perdas, uma tem um rosto e álbum de fotografias; a outra possui escassamente uma identidade e um futuro roubado. Pensem nisto!

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