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Os 7 Pecados mortais na Perda Gestacional (I parte)

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Escreve quem sabe

2011-02-13 às 06h00

Manuela Pontes Manuela Pontes

Reza a história que os sete pecados capitais só foram enumerados e agrupados no século VI e são chamados de mortais, porque significariam a morte da alma em contraste com os pecados veniais, considerados menos ofensivos. Recorro a esta analogia, que pode parecer inicialmente absurda, para sublinhar o enorme contraste com uma das problemática sociais mais vorazes e que se senta na soleira de um abismo que, ironicamente, expressa também a morte da alma - A Perda Gestacional.
Quando olhamos para este problema de saúde pública esborrachamo-nos em “pecados”; sim, pecamos freneticamente sem nos apercebermos de que o fazemos, senão vejamos e concretizemos:
Culpa - O primeiro dos 7 pecados e o mais castrador. Qualquer mulher vítima de uma Perda Gestacional é consumida pela culpa, por uma culpa inflamante, daquelas que avançam sem controlo, passo a passo, até anular qualquer resto de auto estima. Daquelas culpas que sabemos não ter culpa, mas por falta de culpado submetemo-nos a ela, pois é mais fácil ser-se qualquer coisa (culpadas) do que imaginar-se vítima de uma impotência. É díficil, senão insuportável, não existir um culpado para uma situação calamitosa, temos sempre que encontrar algo ou alguém que assuma uma consequência; o vácuo de não encontrarmos um réu que pague o preço pelo flagício, seja ele qual for, é incomportável com a nossa sanidade mental. Por isso, vemos mães a assumir a morte do seu filho com o mesmo instinto que assumem a sua vida. Parece-lhes natural? … pelo contrário, esta culpa é tão paradoxal quanto a própria lei da natureza que coloca a morte antes do nascimento. Ninguém é ou vive livre quando a culpa ocupa tudo. Então, qual será o pecado que cometemos?
Somos, sociedade, colaboradores nesta iniquidade. Permitimos que esta culpa corra pelas veias destas mulheres sem tempo limite. Como? Não ouvindo os seus prantos de peito aberto, não lhes assentindo o direito à informação, não lhes oferecendo um ombro como pilar, não lhes aprovar as lágrimas como uma necessidade. No fundo, permitirmos que o mundo prossiga debaixo dos seus pés, em vez de o carregarem aos ombros.

Vergonha - O segundo dos 7 pecados e o mais aniquilador. Poucos pensam neste adjectivo quando associamos os nossos comentários ou pensamentos à Perda Gestacional. Todavia, este pequeno vocábulo é enorme na sua interferência. Chega a ser acutilante. Se cogitarmos no que é a vergonha, que diriam? Alguém tímido? Com um agravado sentido de pudor? Também, mas esta vergonha tem a ver com honra, com descrédito, com uma espécie de sensação de “falhado”. Ninguém está programado para falhar na vida, estamos calendarizados para sermos bem sucedidos: na escola, no casamento, no trabalho, no lazer, na família, na maternidade/paternidade. Quando falhamos, sentimos que somos o elo mais fraco, sentimo-nos avaliados, ninguém gosta desta impressão e rapidamente queremos rectificar o erro, porque as situações, e ainda bem, não são lineares e nada se torna fundamental. Há sempre uma segunda oportunidade. Na gravidez, há sempre uma segunda oportunidade, apenas nunca o mesmo filho. Aquele bebé que se perdeu não volta, nada recuperará aquele Ser cuja identidade é una e insubstituível. Aliado a esta perda irrecuperável, esconde-se o conceito tão badalado e discutido de feminilidade. Se pararmos e observarmos no que a colectividade civil acentua numa mulher, intuímos, sem muito esforço, que a capacidade de reproduzir um Ser à sua semelhança não só incute conceitos de vigor, como de competência. É, manifestamente inteligível, neste momento do texto, compreendermos o âmbito dessa palavrinha que cai como um explosivo: Vergonha.
Onde reside aqui, especificamente, o nosso pecado, estarão a perguntar-se.
No olhar. Na forma como olhamos estas mulheres, ou antes, na forma como não as vemos. São lutadoras natas, mas insistimos em ter pena. São aguerridas, mas teimamos em julgá-las na fraqueza. São combatentes, mas obstinamos em examiná-las como perdedoras. A Vergonha é apenas a desfecho, não das suas prostrações, mas dos nossos (sociedade) pudores.
Como antídoto a estes vícios/pecados podemos sempre contrapor virtudes: na Culpa, deixemos de ser inquiridores; na Vergonha deixemos de julgar.

(continua na próxima edição)

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