Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Os 35 anos da CTB

O que nos distingue

Ideias

2016-10-25 às 06h00

Jorge Cruz

A Companhia de Teatro de Braga (CTB) encerrou este fim-de-semana as comemorações dos seus 35 anos de existência com uma gala no Teatro Circo que também serviu para homenagear algumas das personalidades que mais têm colaborado com a estrutura teatral. De realçar que os preitos não visaram apenas pessoas intrinsecamente ligadas à CTB, estenderam-se também a personalidades exteriores à companhia.

Quero deixar, desde já e à laia de declaração de interesses, que me unem laços de amizade à maioria dos homenageados e que nutro grande simpatia pela estrutura profissional onde, aliás, também conto amigos. Tal realidade, contudo, não me impõe qualquer condicionalismo para abordar o tema que escolhi para esta crónica, tanto mais que tenho o discernimento necessário para não misturar as coisas.

Acompanhei de perto a nem sempre fácil instalação da CENA (nome inicial da companhia, quando foi criada no Porto) na capital do Minho. Assisti, atento e interessado, ao processo de transmutação para Companhia de Teatro de Braga e até me empenhei na procura de soluções para algumas das muitas complexidades com que a estrutura se defrontou. Considero-me, por conseguinte, um observador privilegiado e bom conhecedor dos factos. Ultrapassado este ponto prévio, vamos ao tema.

Creio poder afirmar, sem favor, que nestes 35 anos a CTB produziu um trabalho notável, a partir de um projecto artístico deveras ambicioso, que chegou a ser considerado utópico, mas que tem vindo a ser desenvolvido paulatinamente e com claras preocupações de perenidade. Portanto, um projecto que naturalmente nada tinha - e continua a não ter hoje - a ver com as ideias de animação sócio-cultural, tão em voga na época, como aliás muito bem referiu na gala dos 35 anos um dos homenageados, o artista plástico e cenógrafo Alberto Péssimo.

É que não nos podemos esquecer, por um lado, que a “revolução dos cravos” ainda estava bem presente e, portanto, nesses anos os estereótipos eram uma constante, e, por outro, que nessa altura a dimensão da cidade de Braga era substancialmente diferente daquela que hoje tem. A juntar a esta realidade, outra não menos relevante - o enorme conservadorismo e, inclusive, algum reacionarismo que grassava na cidade.

Foi, pois, num ambiente pouco amistoso mas deveras desafiante que o director Rui Madeira procurou implementar as suas ideias, consubstanciadas num projecto que assentava numa visão de futuro mas que estava longe de obter o consenso entre as forças vivas da cidade, e até mesmo no interior da própria companhia. Valeu-lhe, na circunstância, o facto dessa aposta ter sido compreendida e acarinhada, desde a primeira hora, pelo presidente da Câmara Municipal, que não hesitou em avalizar o necessário suporte para a sua implementação no terreno.

Mesquita Machado acreditou que o crescimento da cidade teria necessariamente que passar por uma mudança de mentalidades e que essa transformação da sociedade bracarense só poderia acontecer pela via cultural. Admitiu, e bem, a imprescindibilidade de uma vivência cultural para a fixação de quadros e para os desafios que a jovem Universidade do Minho colocaria à cidade e à própria gestão do município.

Pode-se, pois, dizer que, desse ponto de vista, o autarca bracarense teve grande visão ao decidir apoiar, como o fez, a instalação em Braga de uma estrutura profissional de teatro. E fê-lo com a firme convicção de se tratar de uma aposta de futuro, uma aposta na criação de raízes, o que contrastava com a onda de acções mais ou menos “folclóricas” que aproveitava a espuma dos dias pós-revolucionários. Temos que recordar que nessa altura já o movimento associativo no concelho de Braga denotava grande pujança, chegando a contabilizar à volta de duas centenas de associações, muitas delas com trabalho na animação e dinamização cultural.

Mas Mesquita Machado sabia que o desenvolvimento sustentável de Braga também passava por uma forte aposta na cultura pelo que, desse ponto de vista, o surgimento do projecto da CTB constituiu a oportunidade para ajudar a autarquia a atingir esse objectivo. Afinal, creio poder falar-se de interesse recíproco - da CMB e da CTB.

Mas deve sublinhar-se que Mesquita Machado não esteve isolado no apoio à ideia de Braga dispor de uma estrutura profissional de teatro. O empresário José Teixeira, tal como o antigo autarca também justamente homenageado na gala, juntando-se assim a Alberto Péssimo, à actriz Ana Bustorff, ao produtor José Casimiro Ribeiro e ao técnico Fernando Gomes, é um apoiante da CTB desde a primeira hora.

O conceito de responsabilidade social do presidente do poderoso grupo bracarense DST está bem patente nos múltiplos apoios que concede a uma grande panóplia de eventos nas áreas culturais, além das realizações do próprio grupo empresarial, como são os casos do Grande Prémio de Literatura e do Prémio Emergentes de Fotografia, para citar alguns. Mas pode dizer-se que o seu extenso percurso mecenático principiou precisamente pela Companhia de Teatro de Braga.
Trinta e cinco anos depois, e tal como Mesquita Machado, também José Teixeira considera que a CTB é uma aposta ganha. Para o empresário, que elogiou o “projecto interventivo, inquieto, insatisfeito e com muita polémica”, a companhia teatral é “a entidade que mais influenciou a Cultura em Braga”.

Aliás, a actual vereadora da Cultura, presente na cerimónia, também afina pelo mesmo diapasão ao constatar tratar-se de “uma companhia que se afirma na região e em termos nacionais”, sublinhando ser igualmente “referência em termos internacionais” pelo “complexo de redes que continua a trabalhar”. Lídia Dias aproveitou para expressar a “renovação da fé numa companhia atraente, resiliente, que puxa por nós a cada peça e projecto em que se lança”.

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