Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Os 150 anos do livro ‘O Capital’, de Karl Marx

Greve

Ideias

2017-10-14 às 06h00

António Ferraz

Em 11 de Setembro de 1867, portanto, há 150 anos, foi lançado em primeira edição o Livro I de “O Capital: Crítica da Economia Política”, de Karl Marx (1818-1883). Esta obra “clássica” tem vindo a ser reconhecida com elevada consensualidade como sendo um marco histórico da humanidade (os Livros II e III de “O Capital” foram escritos já depois da sua morte pelo seu contemporâneo Friedrich Engels). O “Capital” aborda no fundamental a génese, a constituição e a dinâmica contraditória do modo de produção capitalista.
Ora, posto isso, a verdade é que um século e meio depois, verificamos que o capitalismo ainda não colapsou, porém, a visão crítica marxista do capitalismo, no essencial, ainda são consideradas por muitos e muitos pensadores como válidas nos dias de hoje. Porquê? Antes de responder a esta questão deixamos ficar um breve esboço das principais teses críticas de Marx em “O Capital”:
(1) O capitalismo possui uma notável capacidade para a produção de riquezas materiais e, assim, exerceu, historicamente, um papel civilizacional; (2) O capitalismo faz surgir antagonismos nas relações sociais de produção, consequência da divisão da sociedade entre capitalistas, proprietários dos meios de produção, e trabalhadores que vendem a sua força de trabalho, uma divisão que diga-se continua a existir até hoje; (3) O capitalismo como resultado das suas contradições conduzem necessariamente às crises cíclicas ou recorrentes mais ou menos graves; (4) O papel civilizacional do capitalismo esmorece e pode conduzir aquilo que Marx designou por barbarização da vida social, consequência da lei geral da acumulação; (5) O capitalismo, a partir da sua plena maturação, provoca fortes tendências ao bloqueio da sua própria dinâmica; (6) O capitalismo não é a expressão de uma hipotética ordem natural nem, muito menos, o “fim da história”, é sim um modelo substituível de organização da produção e distribuição das riquezas sociais; (7) As crises cíclicas do capitalismo podem tornar-se em oportunidades de mudança social e de construção de um novo e superior modo de produção, o que acontecerá quando houver um elevado grau de consciência social dos trabalhadores.
Quanto a questão levantada, começaremos por dizer que há pensadores críticos do marxismo que apontam para facto de a maior fragilidade do pensamento de Marx residir na sua visão determinista, ou seja, a agudização inevitável das contradições e antagonismos do capitalismo conduz a ruptura social e a construção de um novo e superior modo de produção superior que ele designou por Socialismo (primeira etapa para o Comunismo). Por sua vez, para eles, a História tem mostrado que o capitalismo possui uma maior capacidade de adaptação do que Marx previu, apresentando-se hoje com profundas alterações que mudaram a ordem do capital e um contexto histórico-social e cultural totalmente diverso do tempo de Marx.
Contudo, para muitos outros pensadores, apesar disso - 150 anos depois, “O Capital” e as principais teses críticas marxistas do continuam, no essencial, a ser relevantes e um poderoso instrumento de análise teórica e prática do mundo de hoje.
Com o colapso do chamado “socialismo real” (da URSS) e com o domínio global das teses neoliberais: mercado livre, desregulação económica e financeira e demissão do papel intervencionista do Estado, assistiu-se, nomeadamente a partir dos anos 1970, a um forte recuo do movimento social dos trabalhadores, a um enfraquecimento sindical e a uma secundarização da crítica teórica do sistema capitalista. Contrariando, porém, a crítica mordaz ao sistema soviético será importante ter em conta que se o marxismo for considerado responsável por experiências falhadas a que ele foi alheio, então também muitas outras situações perversas no chamado “mundo livre” poderiam ser justificadas com as ideias de “democracia” ou “liberdade”!
Quer dizer, o pensamento marxista deve ser visto não pelas múltiplas apropriações feitas no passado, mas sim pelo seu relevo na análise crítica teórica e prática do capitalismo e pela emancipação das classes dos trabalhadores e, tudo isso continua perfeitamente válido nos dias de hoje. Aliás, generaliza-se a concepção de que as crises do capitalismo são estruturais e sistémicas: “não existe capitalismo sem crise”. Exemplo recente e maior disso mesmo é a crise económica e financeira desde 2008, com os seus fortes impactos negativos na vida das pessoas.
Marx não deve ser visto como um profeta nem visionário, ele nunca definiu, como, quando e onde aconteceria a mudança social que superasse as contradições do capitalismo. Para ele, isso seria uma tarefa dos trabalhadores e suas organizações de classe, desde que houvesse condições objectivas e subjectivas para tal.
Concluindo, a obra “O Capital” de Karl Marx não deve ser entendida como uma espécie de bíblia, ao invés, a sua leitura deve ser flexível e sintonizada com o tempo histórico em que nos encontremos. Ora, quando se assiste a nível mundial a uma concentração indecorosa da riqueza (por exemplo, nos EUA, os 1% mais ricos tem hoje mais de 40% da riqueza total do país), pergunta-se: não continuam a ser, no essencial, válidas as teses marxistas? Já agora, para finalizar apenas um apontamento: Porquê, a obra “O Capital” e o pensamento marxista não constam (praticamente) dos estudos económicos, sociais e políticos das Universidades portuguesas, e não só)?

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