Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Olá! Adeus!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-09-25 às 06h00

José Manuel Cruz

Nieppe fica em cima da fronteira franco-belga. Em Nieppe, neste 21 de Setembro, polícias franceses detiveram camaradas do país vizinho, que à socapa, em solo francês, depositavam 14 migrantes clandestinos, dos quais 3 crianças. Polícias de bom uniforme virados passadores, escolta e escoltados que transitavam em furgão policial belga. Resultou, do inquérito sumário, que os agentes belgas executavam ‘ordens vindas de cima’ e que já não era o primeiro transbordo que assim se fazia.

Os migrantes haviam sido detectados na Bélgica sem documentos e, como tantos outros, dirigiam-se a Calais. E deram as autoridades belgas uma mãozinha: assim como assim, não era entre eles que os desventurados desejavam abrigar-se. Abstenho-me de referir o que determinam as normas internacionais em semelhante caso, basta-me ficar com uma imagem: as autoridades belgas desembaraçavam-se de migrantes no país vizinho, como nós nos desatravancamos de velho frigorífico no estradão florestal de Lamaçães.

Não sei quem levantaria mão concordante, quem assobiaria para o lado, mas, diz-me dedinho que adivinha, que, podendo escolher, todos optariam por não ter refugiados acampados no quintal. Em Calais não há quem não esteja pelos cabelos. Os ingleses, que não bebem de caridade papal, impressionados com o que deste lado da Mancha se passa, na dúvida decidiram bater com a porta à União Europeia. Por Deus não os ter aconchegado numa ilha, decidiram-se na Hungria por investir em arame farpado, e não se contiveram nos gastos, pois, quanto me pareça, a imponência da sanefa de hoje suplanta o debrum que em tempos traçou o perfil fronteiriço entre o paraíso dos livres e o inferno dos oprimidos.

Destoa a mãe Merkel, esse coração generoso que todos cancelos abriu a sírios e próximos, embora digam as más-línguas que tal se lhe afigurou vantajoso, tamanha a falta de mão-de-obra que por lá se vive, e tão minguada a taxa de natalidade. Consta, no entanto, que o povo não vai na deixa da grande matriarca. Mas nós, portugueses, que bela figura, a que fazemos, com os dez mil que não virão, ou que venham: que são dez mil a comparar com mais de um milhão?

Arredondando. Não querem refugiados, os belgas, e depositam-nos em França. Não os querem os ingleses, e esquadrilham com ferocidade canina o túnel da Mancha, e, ainda assim, inquietos, despedem-se da Europa das maravilhas. Dão os húngaros em abominar migrantes, e encerram-se em odioso casulo de arame farpado. Quem acolhe? Quem rechaça? Quem se afoita a dizer que não quer ouvir falar de refugiados?

Sírio fosse um de nós, ou de outra das nações que passam tormentos inenarráveis, e também aportaríamos afortunadamente a Lesbos, ou a Lampedusa, e daí haveríamos de querer rumar a norte. O drama, na verdade, é que, ao tentarmos acomodar da melhor forma possível os deslocados, mais não fazemos do que aliviar a minúscula consciência dos que criam a instabilidade, dos que entregam arsenais à consignação por conta de bons negócios futuros, dos que alugam a juros negativos ideias ocas de democracia, de paz e prosperidade.

Hoje não me puxa para a ironia. Boa sorte ao engenheiro Guterres.

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