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Oh não, outra vez a paixão pela educação!

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Oh não, outra vez a paixão pela educação!

Escreve quem sabe

2022-10-01 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Certamente se lembram, os leitores, que por altura de uma campanha eleitoral em setembro de 1995, aconselhado por um especialista de marketing político, António Guterres lançou o slogan da paixão pela educação. Sabemos bem o que aconteceu a seguir neste setor com Ferro Rodrigues e, sobretudo, com José Sócrates, em particular no primeiro mandato deste, entre 2005 e 2009, quando teve como ministra da pasta Maria de Lurdes Rodrigues, executora de malfadadas reformas na carreira docente e na avaliação do desempenho dos docentes no ensino básico e secundário.
Durante esses 16 anos de governação socialista – Sócrates demitiu-se em 2011 – assistiu-se uma degradação ininterrupta da imagem da profissão docente e do declínio do seu reconhecimento social.

Em 2015, depois de ter afastado internamente de forma menos curial António José Seguro, novamente numa campanha eleitoral em setembro – que iria desembocar na reeleição de Pedro Passos Coelho, pouco depois apeado de maneira igualmente questionável – António Costa afirmou: “É hora de voltarmos a dizer, como dissemos há 20 anos, que a educação tem que ser de novo uma paixão deste país e é necessário investir na nossa educação”.
O que se passou, entretanto, foi mais do mesmo, ou seja, o contrário do apregoado. Daí resultou que, especialmente nos últimos 7 anos, o desinteresse pela carreira docente tenha crescido. Falta de interesse por parte dos que nela estão e, isto é novo (!), também da parte dos mais novos que agora a evitam e procuram outras carreiras. Sabidas as datas de aposentação dos professores e conhecidos os baixos números de estudantes a formarem-se para a docência, faz tempo, era previsível que 2022 iria ser um ano de viragem, no qual a falta de professores, como tem acontecido nas últimas semanas, abriria noticiários televisivos.

A gravidade da situação tem vindo a ser escamoteada, mas um colega do ensino secundário fez-me percebê-la quando me disse que estava convencido que, se fosse concedida a possibilidade de aposentação antecipada sem penalizações de monta, as escolas básicas e secundárias ficariam literalmente desertas. E pelo que vou testemunhando, outro tanto se poderia esperar no ensino superior. Parecendo querer desvalorizá-la, Costa e Guterres, em clara concertação, intentaram um exercício de prestidigitação verbal na 77ª Assembleia Geral da ONU, encerrada no passado dia 26, asseverando a necessidade de “um novo contrato social para a educação”.

Num estudo publicado em 2017 na revista Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Candido Alberto Gomes e Janete Palazzo, investigadores da Universidade Católica de Brasília, concluíram que os fatores de atração associados ao ensino, nomeadamente a gratificação emocional, a partilha de saber, a formação de profissionais e a relevância social da profissão, são superados pelos fatores de rejeição da profissão, a saber: insuficientes recompensas financeiras e não financeiras, crescente desvalori- zação social, mal-estar docente relacionado com o stresse e o burnout, violência nas escolas, tanto entre alunos como dirigida a professores, divergência entre o ideal e o real, excessiva carga horária, turmas com número excessivo de alunos, sobrecarga de responsabilidades, pais demasiado alheados da educação dos filhos.
Antevê-se, assim, que, não ser que o atual governo consiga divisar um modo de debelar (rapidamente) os apontados fatores de rejeição da profissão docente, algo em que ninguém acredita, o nosso sistema de ensino público segue o mesmo caminho do SNS: a falência.

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