Correio do Minho

Braga, terça-feira

Ocidente e Jihad

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2015-01-07 às 06h00

José Manuel Cruz

Falta-me uma tranquilidade que não sei se atingirei. A de Miguel Torga, por exemplo, para escrever sobre a realidade um parágrafo decente por dia. Factos e fenómenos há para mais. Dou-me à preguiça de só o fazer a espaços, sem regularidade ou critério específico, ao encontro duma eventual publicação neste jornal. Diga-se que têm sido generosos.

Três dezenas de artigos em três anos dão bem a dimensão do meu magro realce, e é certo que entre comentadores não disputo atenções a nível duma primeira divisão. Até há uns meses escrevia em torno da vida política portuguesa, e sobre um ou outro momento internacional em que estivesse à vontade.

Em Maio de 2012, já então dispensado de prestar contributo activo à sociedade, máscara eufemística para a vergonhosa condição de desempregado, escrevia nestas páginas sobre a sugestão piedosa dum primeiro-ministro de passos trocados: que imigrássemos, dizia, que não caíssemos em pieguices, que saíssemos da zona de conforto, que aproveitássemos a extensa cidadania europeia. Hoje, a caminho de Maio de 2015, contando com cinco meses de expatriado, não consigo escrever senão a partir da realidade do território que habito.

Não há nada de sagaz ou pertinente que eu possa assinalar sobre a estapafúrdia arrogância de banqueiros, sobre jogos semânticos ridículos e doutos pareceres relativos a “prendas” e “presentes”. Não há nada de relevante e novo que eu possa registar sobre a incongruência e o laxismo dos reguladores oficiais, sobre escândalos, aldrabices e falsas virtudes.

Não sou moralista nem envergo vestes farisaicas. Descontando a infância e adolescência, vivi durante duas décadas com a ideia que a participação cívica e o engajamento político não eram para mim. Fiz mal. Avanço, em desconto desse pecado, que li e não abdiquei de estar atento. Escrevo tão livremente como falo, e tenho um e outro exercício como reflexo espontâneo às incidências do quotidiano. A distância impede-me de discorrer com propriedade sobre as oscilações da vida portuguesa. Compelido, troquei o rectângulo lusitano pelo hexágono gaulês.

Nem tudo o que se abre diante de mim nos dias de hoje interessará ao público português, nem tudo o que de cá possa escrever prenderá os olhos dos leitores deste periódico.
Confesso que escrevo por vício negligente e necessidade de ligação. Escreverei inevitavelmente de cá. Assim, quanto eu possa seleccionar, quanto ultrapasse o filtro que valide a pertinência do que eu escreva, pois cá me terão.

Abu Uthman, que famíliares e vizinhos outrora conheceram como Mickaël dos Santos, Abu Muhadjir al Purtughali, que em tempos ostentou o nome Steve Duarte, pertencem ao universo português tanto como ao francês ou luxemburguês. Aventa-se que mais do que um milhar de jovens europeus terá aderido à causa armada do “Estado Islâmico”. Uma sociologia expedita diz que a maioria destes jovens tem raízes na classe média, com progenitores trabalhando nos sectores da Educação e Ensino.

Entre as caracteristicas que se avançam, a mais retumbante refere-se ao alegado ateismo de 80% das famílias. Concedo-me uma liberdade especulativa: cruzados islâmicos, filhos de pais ateus, netos em grau próximo de católicos fervorosos! E salta-me à memória o bate-barbas recente do bispo de Roma, e a indignação de bastidores dos cardeais que ele visaria. Bento XVI teria resignado por já não ter forças para sanear a Curia e expurgar o catolicismo das suas vilanias. Sabemos que os vilões resistem sempre, onde quer que estejam - no Vaticano, em Bruxelas ou Estrasburgo, em discretos Conselhos de Administração.

A conversão de centenas de jovens a um islamismo belicista é vista como um incómodo e uma afronta. Fala-se de tudo isto quase nos mesmos termos como uma dependência, e a combater com procedimentos análogos a uma desintoxicação. Existe, inclusive, um Centre de Prevention contre les Derives Sectaires liées à l’Islamisme. Perdoem-me o exagero francesista, mas não será de todo difícil de entender. Sublinho, de passagem, que se trata duma estrutura oficial, embora semi-clandestina, para que nenhum atentado contra ela possa ser orquestrado, ao que parece.

Em resumo, não estarei no “Estado Islâmico” com a graciosa “pequena abetarda”, nome tomado por Mickaël dos Santos, nem com o “exilado português” nome simbolicamente adoptado pelo rapper Steve Duarte. Simpatizarei, por conseguinte, mais depressa com judeus e evangélicos, ainda que raramente lhes encontre justeza nos procedimentos que adoptam, e ainda que nada me obrigue a dizer que a verdade está manifestamente do nosso lado.

Tenho esperança, no fundo, que tanto eles como nós possamos chegar a sentir que não há legitimidade absoluta - nem do lado deles nem do nosso -, e que tanto uns como outros queiramos vir a perceber as desrazões pelas quais nos combatemos mutuamente. É que nem servem a uns nem a outros. Antes a terceiros que se estão nas tintas para nós. Entretanto, convinha que percebéssemos o que está mal na sociedade ocidental, e que o procurássemos corrigir.

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