Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Ocaso

Escrever e falar bem Português

Ideias

2017-12-25 às 06h00

José Manuel Cruz

Dificilmente me veria à frente de qualquer coisa, não serei propriamente um militante de nenhuma causa em particular. Talvez me falte o arreganho, ou aquela bruta convicção de operar dentro de uma razão inquestionável, surda e cega, imune a todo o ridículo. Divago, sobretudo, flutuo, procurando uma coerência transitória, já que tudo «é» e «não é» em simultâneo, já que em todos os eventos há certeza e ensaio, perenidade e espíritos voláteis.

Questiono-me, por conseguinte, sobre o sentido último da minha escrita, sobre a função que cumpra e os méritos que encontre entre aqueles a quem o Correio do Minho caia em mãos. Não darei uma no cravo e outra na ferradura, ou mais na segunda do que no primeiro, ou já me teriam sinalizado, com toda a gentileza, que melhor fosse eu ver se chovia na Arcada. Mas a inquietação subsiste: e se me repito, para lá do justificável? E se caminho para a exaustão? E se não vale a pena insistir, já que aparentemente nada muda?

Não que coisa alguma deva mudar, só porque para lá volva eu olhares cristalinos. Credo! Porém, de que adianta levantar palavra em terra em que se expulsam diabos com dízimos e à paulada, em igrejas de nova vaga, da infecta à opulenta? De que adianta refinar palavra em terra de humores boçais, em horário nobre matinal, em antena radiofónica taxada? De que adianta lubrificar polias de verbo analítico, com tanta hora de quezília futeboleira em tanto canal televisivo?

Não me assenta, a torre de marfim como pilar, nem a redoma asséptica de onde profira acórdãos indecifráveis. É comum dizer-se que mais depressa se retira o incomodado, do que o incomodante, e é facto incontestado que melhor se respaldam os incomodantes do que os incomodados. Corra-se os olhos pela «pouco raríssimas», pela «caso de cunhas, cunhados e afins». E por que quinta repartição anda perdido o affair Sócrates? E, se tudo corre às mil maravilhas com o consulado Costa, que até magos financeiros exportamos, por que é que, segundo consta, os livreiros ainda não foram ressarcidos pelos manuais gratuitos adiantados? E, já agora, por que é que os manuais escolares são um negócio chorudo? Em terra solarenga, de pouco serve tapar o sol com a peneira.

Exaurimo-nos, sem que o Mundo se esgote. Há sempre algo de adicional a dizer sobre a bondade americana e a maldade eslava, sobre a Europa. Sobre os rearranjos políticos, como o austríaco, sobre o colapso do PS francês e a marionete demagógica do Macron. Sobre o vetusto imperialismo castelhano e, de caminho, sobre a obsolescência das monarquias, regime assente na presunção de que uma casta, com olho como os demais, é superior por direito irrevogável.

Resiste, o preconceito, a argumento lógico que se lhe aponha. Mais confiança dá uma certeza de aterro sanitário, do que uma dúvida que abale as fundações do Templo de Salomão. Comove-me, o desfecho do dossiê Bárbara/Carrilho: o que não se disse do senhor! Porquê? Pela simples razão de que, perante uma desavença familiar, o crápula é invariavelmente o cavalheiro, e a vítima - inocente, indefesa - a dama. Eu sei que as mulheres foram destratadas até por credos religiosos, e que, quando as coisas descambam para o confronto físico, mais elas padecem do que eles, e que, no fundo, mata mais o facínora-homem do que o correspondente feminino. Mas, daí à santidade irrepreensível, vai um passo de gigante. Quiçá tempos se façam de proceder à revisão de estereótipos.

Gira o vento, muda o contentamento. Talvez tudo cambie por magia, ou o suficiente, para que realentos se encontrem.

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