Correio do Minho

Braga, terça-feira

Obrigado, parceiro!

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2015-07-09 às 06h00

Escritor

António Ribeiro

Na vida seguimos diferentes caminhos na busca do objetivo comum de homens livres que sonham com um mundo mais fraterno e solidário. Encontramo-nos menos vezes que aquelas que desejávamos. Porém, nesses momentos, e sabe-se lá o porquê, recordamos sempre esses tempos de inocência em que eramos parceiros de carteira.

Naquela escola emblemática dos tempos em que alguns diziam ser de um Estado Novo, mas que depois soubemos ser dos anos de chumbo: arquitetura pesada, separação de géneros, obedientes à senhora professora que nos olhava por cima dos óculos de grossos aros, submissos à esfíngica e tutelar figura do “Excelentíssimo Senhor Presidente do Conselho”, em fotografia austeramente emoldurada, propositadamente afixada por cima do quadro negro. Esse espaço esconjurado, sinónimo de frequentes torturas quando aí chamados e da memória se ausentava a “letra da tabuada”, o percurso dos principais rios, o itinerário completo das vias férreas de Portugal, “continental e províncias ultramarinas”, ou uma outra qualquer ladainha que obedientemente íamos decorando e que ainda hoje consigo reproduzir. Foram inocentes anos marcados pelos ritmos dessa escola onde nos crescíamos na freguesia periférica à cidade que somente imaginávamos.

Quando nos revemos, desfiamos mais uma peripécia, desenterramos nova recordação, trazemos à memória mais um dos nossos de quem já não sabemos as andanças, mas que mantemos ainda vivo na melhor das recordações. Nessas ocasiões voltamos a ser meninos, reconstruímos memórias, e talvez exageremos a nota…, como se cada um de nós, à sua maneira, continuasse preso a um tempo em que desafiávamos o mundo armados com a imaginação que púnhamos nas nossas redações. Procurando que o texto que cada um de nós escrevia fosse o melhor da classe. Umas vezes brilhava eu, outras eras tu o mais inventivo na forma de correr o discurso. Recordas-te, não recordas? Eu sei que sim. Tu próprio costumas rememorar histórias que há muito tinha por confinadas bem lá no fundo das minhas memórias.

Depois, seguimos caminhos diferentes. Esperados. Quando se nos abriu o tempo de juventude, nesse ano em que nos foi prometido o futuro, tu, mais inconformado, lutavas, lutas?, pela revolução. Já! Eu fiquei pelo outro lado da estrada, em passo menos apressado, defendendo e acreditando que a mudança se fazia, e faz!, antes de mais, dentro de cada um de nós. Tu deixaste crescer e alimentaste o talento artístico que sempre em ti viveu; eu conformei-me a um percurso anódino, apenas assinalado pela ausência de sucessos di-gnos de especial menção.
Encontrámo-nos alguns anos mais tarde no movimento das rádios livres. Em apostas diferentes. Como seria de esperar. Contudo, acabariam por nos irmanar em projeto comum. Num tempo em que tive responsabilidades numa delas, convidei-te para realizares um programa naquilo que hoje é considerado o “prime time”. Trouxeste a imaginação, a energia e o entusiasmo que eu esperava.

Assim vamos fazendo o nosso caminho. Paralelo nas aparências, mas em que ambos pomos a esperança de nos conduzir ao objetivo comum. E continuamos a recordarmo-nos por aí. E onde, às vezes, menos esperamos.
Hoje de novo nos revimos e, paradoxalmente, tenho completa certeza que ambos não o queríamos. O nosso encontro não teve o prazer da renovada novidade, não foi selado com a exuberância dos nossos abraços, não trocámos provocações a respeito das nossas opções políticas, não recordámos as nossas vidas infantis. Nem me lembraste algumas daquelas histórias deliciosas que só tu sabes contar. Foi talvez o nosso encontro mais breve. Durou o tempo de um abraço e das palavras que poderiam ser de circunstância. Mas que não foram! Não és homem para o óbvio.

De ti espero sempre a novidade. E hoje voltaste a surpreender-me nesse breve encontro. Por detrás desse sorriso de sempre, senti a dor da perda! É verdade, Parceiro. Não diria que estavas triste. Não! Não és, nunca serás homem para te renderes à amargura. Pareceu-me antes ver-te constrangido num indizível sentimento de perda. Faltava-te qualquer coisa...
Momentos breves. Que me acompanharam na celebração religiosa. Nunca perdi de vista o teu rosto. Estrategicamente coloquei-me de onde o pudesse ver. Sem me denunciar. Procurava inscrever-te nesse tempo e lugar, mas não conseguia adequar a imagem do homem otimista que sempre em ti reconhecera, àquelas sombras que, de quando em vez, anoiteciam o teu rosto. Talvez nem tu próprio estivesses preparado para tamanha perda. Alguém estará? Alguma vez estaremos?

Por momentos temi quando caminhaste em direção ao altar e o celebrante anunciou que irias dizer algumas palavras. Por breves instantes receei uma explosão de revolta e que a tua mensagem pudesse soar como deslocada a quem menos bem te conhece. Puro engano! Até eu, que me envaideço de ter sido o teu Parceiro, e ainda hoje merecer esse tratamento de exceção, fiquei surpreso pela beleza das tuas palavras, pelo genuíno testemunho de amor filial.
Ao meu lado, alguém comentou: Não o concebia tão sensível à perda do pai!

Pois, não Parceiro! Não te conhecem! És muito mais do que o homem socialmente empenhado, o sonhador fora de tempo, o artista em que a maioria te descreve.
Desculpa-me a apropriação indevida, mas naquele instante em que soltaste a voz e cantaste o teu amor de filho, senti-me em coro contigo, não resisti à emoção e disse mais alto do que o que devia:
OBRIGADO PARCEIRO!

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