Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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O que nos distingue

Escreve quem sabe

2015-12-29 às 06h00

Cristina Palhares

Um Conto de Natal: escrito por um rapaz de 13 anos, ainda há pouco rapazinho. Com quem eu tenho o privilégio de partilhar algumas horas (e já lá vão muitas) da minha vida.
Rua Digna

Certo dia, bem no coração de dezembro, encontrei, numa rua fria e escura, um rapazito com cerca de catorze anos que pedia esmola para sobreviver. Certamente emocionei-me e dei dinheiro para um lanche.
Adjacente a essa rua fria e escura, situava-se uma praça de luzes, uma praça de amor, uma praça de esperança, a Rua de Paixões.
Na Rua de Paixões, havia um café singular, um café luminoso, que frequentava regularmente.
Passados, então, alguns dias, retornei ao tal café, passando pela rua fria e escura. Lá estava ele, novamente, o menino magricela com quem me encontrara tempo atrás. Novamente pediu-me esmola e dei-lha.

Desde então, deparei-me com ele outras quatro vezes, até que, da sétima vez, não hesitei. Convidei-o a vir comigo ao café Sentidos, o café singular e luminoso.
Ofereci-lhe um bolo e um sumo, ele recusou, envergonhado. Questionei-lhe a causa, ele não respondeu. Pedi o bolo e o sumo para levar, entreguei-os ao rapazito, ele desapareceu na fria e escura rua.
Fiquei uns tempos sem ir ao café Sentidos, pois trabalhava.

A vinte e dois de dezembro, decidi visitar o garoto. Ele tinha a garrafa de sumo e o saco do bolo por abrir. Perguntei-lhe a mesma coisa, mas, desta vez acrescentei um “Como te chamas?” ele limitou-se a responder com uma única mas valiosa palavra: dignidade. Respeitei-o, comecei a chamar-lhe Dignidade, ofereci-lhe roupas e comida, um dia, cheguei a oferecer-lhe teto. Recusou tudo.

A neve, a chuva, o vento, atacavam impiedosamente a Rua de Paixões, dia vinte e três.
Assim que visitei o Dignidade, ouvi-o tossir. Tossia repetidamente. Aceitou, pela primeira vez, algo que lhe oferecera: um cobertor. Não fui capaz de o deixar só. Abracei-o, encostou-se a mim.
Já o Sol dormitava, já a Lua despertava. Disse-lhe que tinha uma cama feita para ele. Não aceitou, cismando que estava bem.

Previsivelmente fui para casa sem dignidade e sem o meu amigo que queria proteger, o Dignidade.
Manhã da véspera de Natal. Meus pais e irmãos esperavam-me ao fundo da Rua de Paixões, onde moravam. Era uma casa clássica, cada canto valia um rubi. Ao fundo da grandiosa sala de estar, a árvore de Natal parecia iluminar toda a casa. Tinha a certeza que a mesa da sala de jantar iria estar, novamente, repleta dos mais requintados pratos, envolvidos na mais perfecionista decoração.

Não resisti a levar uma prenda ao Dignidade. Entrei na ruela fria e escura, toquei no corpo frágil do rapazola. Decidiu não acordar depois de tanta tosse e frio. Fui insensível, ao não compreender a rejeição do menino de rua, marcado, tantas vezes, por muitos que o desprezaram. Não compreendi a dor. Não protegi o suficiente. Adormeceu e não acordou mais. Deixou mensagem atemporal. A solidão mata.
Esse beco tem agora o nome de Rua Digna.”
Teety

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