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O vírus

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

O vírus

Ideias

2020-03-15 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Ovírus é um bicho, e uma boa parte de nós embala um pavor irracional a bichos: quem nunca viu sensível e impressionável pessoa saltar com interjeição estrídula à alusão de aranha que lhe aterre no ombro, ou à aproximação de pacífica abelha melífera? E as centopeias, e as cobrinhas que não veem buraco em que se escondam, ante bípede tão magnífico? Ironia por linha de pauta. Não nos ameaça um covid da décima nona casa como pacato aranhiço de forrinhos.
Borboleta trocada por morcego, actualização zoológica de efeito glosado na Teoria do Caos. Um esvoaçar de morcego-borboleta no Império do Meio, que tufões provoca por toda a parte, a meio mundo de distância. Férrea disciplina, estado autoritário que por dias cala o que não é passível de supressão por decreto. Semanas se passam: ao presente, quanto não se enaltece um povo que às dezenas de milhão não se atreve a sair da casca, e que cidades inteiras desertifica, por comparação com um “deixa-correr” italiano ou com alfacinhas saídos a banhos em época de reclusão quaresmal e de interdições de lazareto!
Quão de surpresa não foi apanhada a Itália? Há quanto tempo não andaria o bicharoco a pavonear-se? Não teriam os números massivos da China mascarado a percepção da diferença de escala, da ordem de 1:23? Taxa de letalidade que em Itália é sete vezes maior do que no Catai dos nossos dias! Convenhamos no que é simples: a peste só nos apoquenta por poder volver-se fatal. Fosse só um tossir e espirar, uma febre, uma prostração e uma perda de apetite, fosse mal de que recuperássemos intactos, e ninguém se incomodaria. Mas a questão é que mata mesmo, e os italianos que o digam.
O mal varou italianos, por meridional irresponsabilidade, e ai que igual nos aconteça, se inclinados somos a praias e folias, e até presidencial testemunho desrespeitamos! Permito-me uma questão: aquele pessoal de Carcavelos estava todo abrangido por recatos e clausuras? Estariam informados de que eram população de risco? E risco em função de quê? Se somos – ou fomos imprevidentes – por comparação com o siso achinesado, quem à cara lhes atira que, à ditadura que é a deles, agradecemos nós os mimos de morcão maldoso que eles deixaram evadir?
Chegou cá, muito depois do que chegou lá. Chegou cá de mansinho, por comparação com a brutalidade que atingiu no norte de Itália. Entre nós, com óbito por registar, e já da primeira cura nos ufanamos. Tudo diferente, por conseguinte, independentemente de casos mortais que ainda possam tocar-nos por desdita. Entretanto, vá eu ao encontro dos que vituperam quem em areal ensolarado se amontoa, e não tenho como ignorar que, a esse mesmo dia, não era claro para que lado penderiam as decisões governamentais. Se uns são irresponsáveis, os outros são o quê?
Quem decclara um alerta dia e noite, nos quatro quadrantes, por duas salvíficas semanas? Ninguém! Alguém quer ficar doente e, por entranhada malevolência, infectar quem encontre? Duvido! Posta a questão nestes termos, é óbvio que um facilitar aqui ou ali pode acarretar consequências nefastas, mas menos descansado fico quando o Governo exonera o responsável da linha 24, por o serviço ter deixado cair um quarto das chamadas, sendo que, nem dois dias depois, o mesmo atendimento falharia acima de metade dos contactos e, horas mais tarde, emudecia de todo. O bode expiatório de uma calamidade tanto pode ser um quadro superior, que não tira de um utilitário a aceleração de um topo de gama, como uma arraia-miúda com calores. Assim dita o manda-chuva. Em Wuhan deu em alforria ao 19.

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