Correio do Minho

Braga,

'O VERDADEIRO EMBATE SARAMAGO - CARREIRA DAS NEVES', por Paulo César Pereira

Escrever e falar bem Português: Um item complicado

Conta o Leitor

2010-07-02 às 06h00

Escritor

Depois do debate Saramago/Carreira das Neves, na T.V. nacional, não chegou ao conhecimento geral a continuação do embate entre estas duas figuras públicas, mas ele deu-se.

Quem mo contou foi esse não-acreditado deus do Olimpo, Baco, a quem os portugueses negam existência real, mas adoram e veneram, idolatrando-o nas suas formas líquidas. Como bom pai da lusa gente, não abandona os seus descendentes e mantém-se por cá, observando e mantendo vivo o seu culto. Baco contou-me o que se passou logo a seguir ao debate televisivo.

Pelos vistos, e de forma secreta, Saramago e Carreira das Neves haviam combinado um combate de boxe, do estilo “vale-tudo”. Pensaram, em primeiro lugar, defrontar-se no famoso “Caesar´s Palace”, em Las Vegas, mas seria muito complicado transportar todos os apoiantes ao mítico local. Assim, decidiram-se por um pavilhão onde alguns boxeurs amadores treinavam.

Tudo combinado e, à hora certa, lá aparecem os dois opositores, no ringue. De um lado, Saramago, com as peles caídas, a cabeça calva e os oculinhos para ver bem o adversário. Do outro lado, em melhor condição física, Carreira das Neves, já saltitando, fazendo esvoaçar a grenha seca e cinzenta, e, estranhamente, segurando a Bíblia na mão.

O povo aplaude e é curioso notar os apoiantes dos contendores. Numa metade do pavilhão, estão os apoiantes de Saramago: ateus, comunistas, Pilar del Rio, o presidente do grupo Leya, António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carvalho da Silva, líder da CGTP, e um considerável número de estudantes do Ensino Secundário. Baco contou-me que se disfarçou de jornalista do programa religioso “Ecclesia” e foi entrevistar os apoiantes saramaguianos, enquanto os dois oponentes não começavam o combate.

Começou por questionar António Costa sobre o motivo do apoio a Saramago sendo ele crente em Deus. Costa limitou-se a dizer que uma mão lava a outra e lembrou o recente apoio de Saramago. Ao seu lado, estava o sindicalista e militante comunista, Carvalho da Silva, que, interrogado do mesmo, disse, amavelmente, que estava ali para apoiar o camarada comunista. No preciso momento em que profere estas palavras, um jovem estudante fez-se ouvir através destas palavras que dirigia aos amigos: “Olha, o velhote da meia cabeleira seca, o da Serra da Estrela, acho que o vi na companhia da Ministra da Educação. Vais ver que também é do PS.”

Carvalho da Silva, ao ouvir, sem querer, estas palavras, inexplicavelmente deixou a companhia de António Costa e foi sentar-se no meio da claque de apoio ao teólogo, passando a apoiá-lo, em vez do seu camarada de partido. Baco aproveitou este instante e entrevistou aquele que parecia ser o líder e porta-voz dos estudantes do Secundário. Segundo este, os estudantes estavam ali para apoiar Saramago por este ser uma grande fonte de inspiração para todos.

Queriam, no final, chegar à conversa com o escritor e pedir-lhe que continuasse a escrever sem pontuar correctamente, mas também que começasse a não acentuar as palavras e desse erros ortográficos, para que fosse assumida a sua escrita como o exemplo a seguir por professores correctores de testes e de exames. Estavam ouvidos os apoiantes do Nobel.

O imparcial Baco, disfarçado de jornalista por artes deíficas, foi, então, escutar o entusiástico grupo de suporte à vitória do padre Carreira das Neves. Nele constavam padres, frades, freis, monges e freiras e alguns anti-Saramago de longa e curta duração, como o antigo Secretário de Estado, Sousa Lara, e o euro-deputado do PSD, Mário David. Por cavalheirismo, Baco entrevistou, primeiramente, uma freirinha, procurando conhecer as motivações do seu apoio a Carreira das Neves.

A freirinha, muito espontaneamente, disse que o apoiava porque a Madre Superiora lhes tinha prometido que, se o fizessem, as deixaria ver o filme “Cartas de amor de uma freira portuguesa”, do realizador Jess Franco, com a participação de Ana Zanatti. Imediatamente, a Madre Superiora acorre a abafar a noviça, dizendo-lhe que é um filme que revela as cartas de amor dirigidas a Jesus, com total devoção e religiosidade, por uma puríssima freira de tempos passados.

O passo seguinte foi entrevistar um dos religiosos presentes. Acercando-se Baco de um, fez-lhe a mesma pergunta. Este informou-o que, em troca do apoio, lhes tinham prometido assistir ao filme “Freira perversas” de Walerian Borowczyk. Logo, logo, um religioso mais velho, talvez um diácono, se levanta e diz bem alto: “ Freiras perservas! Feiras perservas é esse o nome do filme.

Este nosso frei é disléxico e troca as sílabas das palavras. É um filme que retrata a perseverança e a preservação com que as freiras presenteiam Deus nas suas orações e na pureza dos seus actos.” O combate aprestava-se para o início. Baco ter-se-á espantado, nesse momento, com a visão do árbitro. Estava fantasiado de Jesus Cristo, mas tão bem, tão bem que parecia o original. O gongo soou e o prélio teve início. Do lado esquerdo, Saramago, tentando a custo levantar o braço para poder desferir o seu potente bofetão de direita em suspensão.

Na oposição, está, estranhamente, Carreira das Neves, lendo uma passagem do Novo Testamento e, quando levanta o olhar, a direita esbofeteante de Saramago atinge-o na face esquerda. Sem hesitar, o teólogo oferece-lhe a outra face e o valente Saramago, um pouco em câmara lenta, esbofeteia-o na face direita com o seu não menos famoso chapadão de esquerda política.

Saramago vai dançando um “slow-fox” na pista e pontapeia a canela esquerda de Carreira das Neves que, imediatamente, estica a perna direita para que Saramago o possa pontapear à vontade, o que ele fez, desferindo um violento pontapé octogenário. Carreira das Neves continua a ler o Novo Testamento e o árbitro, o fantasiado de Jesus Cristo, continua sem intervir, assistindo ao massacre. Saramago dá um sopapo na barriga do adversário e este vira-se para ser esmurrado nas costas. Não terá sido bem um murro, foi mais um empurrão, mas o suficiente para lançar Carreira das Neves ao tapete, embatendo em cheio com o nariz na Bíblia, que se tingiu de vermelho. O gongo soou, indicando o fim do primeiro assalto, e cada um se dirigiu ao seu canto, revelando o defensor da Igreja algum atordoamento ao pôr-se em pé.

É, então, que algo de fascinante acontece. Começa a aparecer uma figura de aspecto divino, algo nunca visto, uma sumptuosidade de ser. Era… só podia ser, Deus. Deus tinha vindo apoiar Carreira das Neves e estava, então, a limpar-lhe o suor e o sangue do rosto e da Bíblia e a dar-lhe algumas indicações ao ouvido. O discípulo de Deus olha para a sua Bíblia e começa a folheá-la, parando na parte inicial. Detém-se na leitura do Velho Testamento e, quando o gongo soa, levanta-se com um ar triunfante e dos seus olhos agora flamejantes brilham imagens de fogo e destruição. Parecia, em pose, um super-guerreiro das Cruzadas. Saramago já está de pé, o corpo franzino e debilitado pelo esforço do primeiro assalto, mas confiante na vitória final.

Para ele avança o novo Carreira das Neves que, depois da nova táctica dada por Deus, leu o Velho Testamento e se apresta para investir com total sentimento de vingança. Carreira das Neves avança para Saramago e, enquanto diz “Olho por olho, dente por dente”, aplica um cristianíssimo gancho de direita “à Velho Testamento” no queixo frágil do herege escritor que, depois desta, nunca mais o articulará para blasfemar. Saramago tomba solidamente no chão e o árbitro (já ninguém duvida que é Jesus) piedosamente se acerca dele e lhe presta auxílio, dando o combate por findo, com vitória por K.O. de Carreira das Neves. Depois dos efusivos festejos do vencedor e seus adeptos, Deus vai ter com Jesus, agarra-o pelo braço e diz-lhe que está na hora de cortar o cabelo e de fazer a barba, porque a moda “hippie” já era.

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