Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O velho que sabia amar (segunda parte)

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2015-08-01 às 06h00

Escritor

Torres de Campos

Fiz uma promessa ao meu avô, que falaria com a sua família e arrancaria aquelas pedras todas, para lá plantar uma rosa. Olhando para essa rosa recordaria as palavras dele: “Temos que povoar o mundo de rosas para que ele seja um belo jardim.” Uma rosa plantada chegava, porque outros haveriam de plantar também a nossa.

Antes de voltar à cama, escrevi num papel, para mais tarde recordar:
Fui-te ver
onde os homens colocaram
tua armadura terrestre.
Não tinhas sombra de flores
nem velas de cores
a perpetuar o humano que fostes.
A simplicidade das ervas daninhas
tomaram conta de um pedaço
de terra que tem o teu nome.
Fico contente por saber
que não moras aí.
Seria pouco
para quem amou muito.
Vim só ver
se tens o tua memória limpa.

Pela manhã seguinte fui dar um passeio pela cidade, comprei o jornal e sentei-me num café para beber a minha bica do costume. As páginas iam correndo em frente dos olhos e sentia a minha mente fria perante tudo aquilo que lia. Os meus olhos não se deixaram tocar por nada. Li letras soltas ornadas por imagens reais. Tive a sensação que me estava a transformar num monstro insensível perante o sofrimento de quem mora na minha cidade e no meu mundo.

Naquela mesa de café, pensei durante bastante tempo sobre o que me estava acontecer, fiz uma espécie de caminhada interior para selar dentro de mim a verdade que tinha descoberto naquela manhã. Quando descobrimos alguma coisa que possa mudar a trajectória da nossa existência, para termos mais vida, temos que a selar dentro de nós, senão perde-se.

Olhei para quem passava pela rua. Uns corriam com medo de perder o autocarro, outros fumavam cigarros cabisbaixos e outros passeavam de mãos dadas usufruindo a delícia de uma companhia. Naquele momento queria gritar, não imaginam o quanto me apetecia cometer esse acto próprio dos loucos. Queria dizer a toda a gente que tinha descoberto que me estava a transformar num monstro por não me compadecer por quem sofre. Quem não se compadece diante do sofrimento humano, perde dentro de si a humanidade que tem. Aquilo que nos faz diferentes de outros viventes é a capacidade de amar os que caminham ao nosso lado.

A bica que tomei teve um sabor histórico, porque a partir daquele momento foi levado a tomar opções à luz daquela descoberta interior. O meu avô sabia amar e eu também podia amar como ela amava.

O meu avô foi um peregrino que caminhou entre o asfalto quente, o atalho agreste, o silvado bravio, subia às montanhas sagradas, em cujo cume a terra atingia idealmente o céu, percorria inclusive o tempo assinalando-o com gestos de amor. Sentia o nascimento de si mesmo para uma nova vida e morria em cada passo que dava em busca do ideal a alcançar. Não vivia ao acaso, mas ia ao encontro de novas metas, observando o horizonte terreno que o circundava e tendia para o infinito. Um infinito que surgia como pôr-do-sol que refrescava a sua face, ao longo dos anos de conquista de pequenos pedaços de esperança depositados em mãos franzinas e corações quentes e inocentes.

Ele agora é muito mais que um punhado de pó. Sinto que ele é como um leito de um rio que navega no mar da humanidade e no berço de Deus. Ele deixou de ser noite e estrangeiro nesta terra, para se tornar em madrugada a raiar no nascer de cada dia o que faz dele um soneto, que a memória nos trás à porta da alma.

Com ele aprendi que não posso continuar a esbanjar o meu tempo em futilidades, nem andar preso pelas banalidades do mais fácil, pois corro o sério risco de me transformar num monstro.
Aprendi que devo levar a uma vida simples, sem ânsias de poder ou riqueza, comprometida com o desejo de encontro sincero com os que mais sofrem. Só assim, passarei a contemplar tudo com os olhos da verdade e da proximidade como ele o sabia fazer.

Quando ele morreu perdi a paz e a brisa suave das palavras pronunciadas em manhãs de esperança e de um futuro melhor. Ele era o perfume que tinha inundado a minha vida e que deixara um aroma suave no interior do meu coração. Agora, naquela mesa de café voltava a sentir esse aroma para amar como aquele velho amava.

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