Correio do Minho

Braga, sábado

'O vazio sem ti', por Liliana Malainho

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2012-07-24 às 06h00

Escritor

Olhei-te com olhos molhados, encharcados de tortura com odor a saudade. Não vi mais nada a não ser o teu rosto de porcelana, moldado a mãos de ouro como se cada milímetro de pele fosse desenhado ao pormenor pelas mãos de Deus.

Consegui manter os meus olhos abertos durante largos segundos, e se dessa aventura reti uma lição foi a de nunca deixar fugir a imagem que os nossos olhos tomam como divina. Para mim, o cenário que fazia com que os meus olhos derramassem sal, não era o céu. Olhava-te de queixo lançado para cima, de braços abertos a dar-te as boas vindas. Mas não via as nuvens. Via-te a ti.

O teu reflexo guardado em cada brilho da maior estrela que me adotou naquela noite. Tu.
Senti necessidade de verbalizar instantaneamente tudo que tomava a minha mente. Foi aí que te disse, no silêncio da noite, na quase escuridão do luar, que nunca tinha sentido a saudade até ter perdido o beijo que recebia e dava todas as manhãs. Aquele beijo seco, entregue de lábios gretados e afável na chegada que cobria o coração de uma harmonia cálida mas saudável.

Disse-te também que a minha alegria nunca mais foi a mesma. E desde aquele dia que cobriu a manhã de nuvens escuras e temerosas, acreditei em todas as conceções que os demais confiavam. Deixei de ver o mundo pintado de cor-de-rosa, e passei a vê-lo a preto e branco. A minha alegria não fugiu, manteve-se. Manteve-se escondida por detrás da falta que me fazes, coberta de pó, com aversão à sua própria pronúncia.

Disse-te também que nunca mais ofereci a ninguém aquele beijo sagrado que mantínhamos em segredo quando nos encontrávamos acompanhadas de estrangeiros ao nosso sentimento. Eramos cúmplices de um crime meigo que sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, nos atraiçoaria. Nem assim fechamos os olhos às inúmeras poeiras que nos dificultavam o caminho. Agradeci-te.

Agradeci-te por me teres desvendado a fonte da força precisa para enfrentar cada batalha. Agradeci-te por nunca me deixares ter medo, nem receio… nem vergonha. Agradeci-te por te teres tornado não num modelo para mim mas numa inspiração, porque o modelo vai e vem e tu permaneces. Viva.

Globalizando a nossa curta conversa, sintetizei-a dizendo-te que desejava ver o mundo do teu ponto de vista otimista. Não o reconheço em mim. Mais triste do que não ter a tua mão no meu ombro, é aceitar que contigo já nada mais posso aprender. Quando penso nisso, sinto buracos a abrirem-se no meu peito, como se por eles escorressem pena e desalento. Sinto-me triste por não te ter. Triste por saber que não voltas. Triste por ter quem anseie ter-te como mestra. E neste ponto as minhas frases vão ficando mais curtas e o meu desânimo vai aumentado como se a maré estivesse a subir. E quem sabe, como se as gaivotas levassem no bico a minha felicidade e a escondessem na areia. Gaivotas em terra, descontentamento em mim.

Restam as lembranças. As doces réstias de recordações que me fazem lamentar por não te ter aqui. E a metade do meu coração que deixaste em mim. A outra pertence-te. Assim como sempre te pertencerão todos os beijinhos que te dei no queixo. Todos os lugares que juntas abraçamos e guardamos no nosso abraço. Todas as lágrimas que não chorei. Todas as lágrimas que ainda guardo cá dentro. Por ti. Por tudo o que juntas vivemos. E sobra o céu. O teu palco. O meu sonho. Tu.

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