Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O valor da solidariedade

O CODIS fala

Ideias

2019-05-12 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Os valores da sociedade em que vivemos estão marcados, na sua esmagadora maioria, pela vertente económica e financeira. A preocupação máxima dos Estados é a sua sustentabilidade económica, descurando os valores daqueles que mais necessitam.
Quem não ouve falar, diariamente, nas longas horas de espera dos utentes para uma consulta nos hospitais, quer se trate de consulta externa, quer se trate de urgências? Quem não ouve falar, diariamente, no elevado número de alunos que consome apenas uma refeição por dia? Quem não ouve falar, diariamente, do ostracismo sentido por muitos idosos? Quem não houve falar, diariamente, do excesso de trabalho e da saturação laboral de muitos profissionais (enfermeiros, médicos, professores, polícias…)?
É neste contexto de resistência humana que irei recordar um exemplo de solidariedade que, infelizmente, acabou da pior forma.
O episódio a que me quero referir ocorreu a meio do mês de março, de 1907, e envolveu uma pessoa de escassos recursos económicos, mas com uma grande humildade.
Em 1879, José Neto foi condenado a 28 anos de prisão, por um crime que, segundo o próprio, nem sequer cometera. A pena atribuída foi o degredo em África, pelo mesmo período da condenação.
Preocupado com o que lhe estava a acontecer e aterrorizado com o que o esperava em África, José Neto viu agravada a sua inquietação pelo facto de saber que, no momento em que conhecia a pena, tinha nascido o seu filho, poucos dias antes. O réu mal teve tempo de conhecer o recém-nascido, ao qual foi atribuído o nome de Manuel, pois foi obrigado a embarcar imediatamente para África.
Durante os 28 anos em que aí permaneceu, em Luanda, José Neto manteve duas angústias permanentes: por um lado, mantinha o sentimento de total inocência relativa ao crime que lhe imputavam e, por outro, estava longe de casa, longe da sua família, nomeadamente do seu filho, de quem a saudade o perseguia e atormentava continuadamente.
Toda esta angústia envolveu José Neto, pois o próprio referiu que durante os 28 anos de degredo em África não houve um dia em que não se lembrasse do seu filho, tal era a amargura que sentia pela situação que o apoquentava. A sua obsessão era de tal ordem que, quando se preparava para regressar a Portugal, teve a perceção de que o tinha avistado em Luanda, sem, no entanto, o conseguir confirmar.
Regressado a Portugal, a sua grande obsessão foi tentar saber o paradeiro do seu descendente, sendo de imediato informado que o pequeno Manuel havia viajado há alguns anos para o Brasil, onde tinha conseguido arranjar um emprego. Esta informação transtornou ainda mais o infeliz, pois ao sentimento de abandono que sentiu durante os 28 anos de degredo em Angola, era atingido agora por esse sentimento de distância, quase intransponível, pois o seu filho estava no Brasil.
Durante algum tempo, José Neto deambulou pela sua freguesia, sem ocupação, sem rendimentos e sem habitação. Sobrevivia apenas com as esmolas que recebia da população local, que o ajudava no pouco que podia, tal era a miséria que atingia os portugueses da época.
Quando já não tinha qualquer esperança em receber notícias do seu filho, José Neto acabou por receber uma carta do Brasil, na qual era informado de que estava vivo e que lhe passaria a enviar, mensalmente, uma quantia em dinheiro, para que este pudesse sobreviver com mais dignidade.
Em meados de março de 1907, José Neto foi avisado para se deslocar a um posto de Correios para que lhe fosse entregue a primeira “mesada” enviada pelo seu descendente. Nesse momento, José Neto terá proferido as seguintes palavras “Ora, até que enfim! Depois de tantos anos de sofrimento apareceu-me um filho a dar-me alívio nos últimos dias da minha vida!”. Emocionado, começou a chorar de forma compulsiva, soluçando o nome do seu filho, pela obra de caridade que acabara de lhe fazer. Logo depois, acabou por cair no chão, morrendo de seguida!
A alegria e a emoção de José Neto, provocada pela obra de caridade do seu filho, foi-lhe fatal, pois morreu sem sequer chegar a utilizar o dinheiro enviado pelo seu filho.
O episódio que aqui foi relatado, revela-nos o quão importante é a solidariedade e a palavra de conforto em momentos difíceis da vida. No caso de José Neto, acabou por falecer de alegria pelo gesto praticado pelo seu filho. Na atualidade, não faltam pessoas que sofrem, que passam dificuldades, que sobrevivem no limite das forças, e cujas intrigantes notícias de violência doméstica são um exemplo.

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