Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O valor da palavara na política

O que nos distingue

Ideias

2014-03-10 às 06h00

Artur Coimbra

1. Confesso que, estando farto de “bater no ceguinho”, como se costuma dizer, ou seja, no governo que nos coube em desdita e cuja prática não agrada nem ao Menino Jesus, a não ser para os fanáticos ou beneficiários da situação, preparava-me para rumar a outras praias, do ponto de vista simbólico, até para espairecer nestes dias de antecipada Primavera, quando uma opinião de José Pacheco Pereira, no Público de sábado, vem tocar na ferida da credibilidade democrática, que é o essencial do sistema político em que vivemos.
Refiro-me ao valor da palavra dos políticos, à sua coerência, ou ausência dela, no fundo ao trocatintismo em que se tem convertido a política em Portugal e, por consequência, se tem desgastado a imagem da classe política e da própria democracia, por arrastamento.
O ponto de partida do comentador tem a ver o episódio de quarta-feira passada, na Assembleia da República, quando os deputados do Bloco de Esquerda abandonaram o debate quinzenal, contra a atitude do primeiro-ministro que se recusou responder às perguntas do Bloco sobre cortes futuros aos trabalhadores e pensionistas.
Catarina Martins, antes de abandonar o hemiciclo, disse ainda que a palavra de Passos Coelho “não vale nada”.
Comentando o episódio, o historiador Pacheco Pereira, escreveu que “a começar pelo próprio, ele sabe muito bem que o valor da sua palavra é nulo, e isso não o preocupa muito, não porque seja ‘mau’, mas porque o ‘valor da palavra’ remete para um conjunto de valores que ele e a sua geração acham antiquados e arqueológicos”.
Ora aqui está um facto da maior gravidade: a desvalorização da palavra dada, que significa pensamento, que se traduz em acção.
Nos tempos das gerações passadas, que obedeciam aos tais valores “antiquados e arqueológicos”, a palavra tinha o significado de compromisso, de honra (“palavra de honra”), de testamento, de que não seria desvirtuada ou incumprida de forma nenhuma. Nas relações pessoais, profissionais ou outras, palavra dada, era palavra que “valia mais que uma escritura”, como sustentava o povo humilde, recto, sincero e bom.
Infelizmente, vamo-nos habituando ao abastardamento dos compromissos, à não execução de promessas reiteradas, verbalmente e em letra de forma, porque, irresponsavelmente, se conclui que “palavras leva-as o vento”…
Do ponto de vista político, o valor da palavra equivale a zero, sem dúvida.
Basta atentar no que dizem e prometem os dirigentes partidários na ânsia de chegarem ao poder. Por exemplo, o que prometeu e verbalizou Passos Coelho, em 2011, quando forçou a queda de José Sócrates e do PEC 4, para mais rapidamente se sentar no poleiro (como há uma semana confirmou, sem rebuços ou sombra de dúvidas, o centrista António Lobo Xavier, para quem havia naquela altura solução para o país, legitimada pela Comissão Europeia e por Ângela Merkel). Em Abril daquele ano, Passos Coelho afirmava que fez as contas e estava em condições de garantir que não seria preciso cortar salários nem fazer despedimentos para consolidar as finanças públicas portuguesas.
'Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro', afirmava o então líder do PSD. E q ue era um disparate mexer no 13º mês e no subsídio de férias. E que não iria aumentar impostos. E que iria apostar no corte das gorduras do Estado… E que iria respeitar as funções sociais do Estado…
Depois, foi o que se viu. Uma completa violação das promessas eleitorais, uma clamorosa ausência de respeito pela palavra dada, firmada e reafirmada.
Mais recentemente, o mesmo personagem começou por anunciar “cortes temporários” em ordenados e pensões, no objectivo de poderem passar no Tribunal Constitucional. Na passada semana, já anunciou que os cortes serão “definitivos” e que não será possível voltar aos níveis salariais de 2011. Uma vez mais, a palavra de um primeiro-ministro não tem qualquer valor, não significa qualquer compromisso de honra.
Como explica Pacheco Pereira, “quando [Passos] fala em modo eleitoral, os cortes são ‘temporários’”, tal como sucede “quando fala em modo constitucional, para o Tribunal Constitucional”, mas “quando fala em modo troika, diz que os cortes são ‘definitivos’”, como “quando entra em modo mercados”. Não restam, assim, dúvidas de que “na concepção do ‘ajustamento’, o Governo está do lado da troika e que tudo fará para que sejam ‘definitivos’.
Ou seja, palavra de político não vale coisa nenhuma, o que apenas vem agravar o desprestígio e a falta de credibilidade da classe política neste país, afastando ainda mais os cidadãos da causa pública, porque, nesta perspectiva, os políticos sem palavra são todos. Não são confiáveis, o que significa que os fundamentos do sistema político estão em perigo.
Se os cidadãos não confiam nos políticos, porque não passam de aldrabões, de videirinhos, de cataventos, de gente sem palavra, de gente em que não se pode acreditar, alguém confia nas instituições que são corporizadas por políticos sem crédito? A resposta só pode ser negativa.
Em plena comemoração dos 40 anos da instauração do regime democrático, era bom pensarmos nisto!



2. Finalmente, e por incrível que pareça, vindo de quem vem, alguém fala verdade neste país sobre a questão do fim do programa de ajustamento, que levou o caricato, demagogo e “irrevogável” Paulo Portas a proclamar que, em 17 de Maio, “Portugal is back”. O Presidente da República considera 'uma ilusão' pensar que as exigências de rigor orçamental vão desaparecer após a conclusão do programa de ajustamento e avisa que pelo menos até 2035 Portugal continuará sujeito a supervisão. 'É uma ilusão pensar que as exigências de rigor orçamental colocadas a Portugal irão desaparecer em meados de 2014, com o fim do actual programa de ajustamento económico e financeiro. Qualquer que seja o governo em funções, o escrutínio europeu reforçado das finanças públicas portuguesas, bem como a monitorização da política económica, vai prolongar-se muito para além da conclusão do actual programa de ajustamento', escreve Aníbal Cavaco Silva, no prefácio do 'Roteiros VIII' e que o Expresso publicou no sábado.
É esta verdade que o governo anda a esconder aos portugueses, por se encontrar há muito em claríssimo “modo propaganda eleitoral”!

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