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O valor da liberdade

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Voz às Escolas

2010-04-29 às 06h00

Vasco Grilo Vasco Grilo

A liberdade é hoje em dia um valor enraizado na sociedade portuguesa, de tal forma interiorizado que se torna quase banal enquanto tema de conversa. Não raras vezes, somos até tentados a sublinhar mais as sombras do que as luzes, como se pudesse haver liberdade plena, sem escolhos e limitações. Não há de facto liberdade absoluta, assim como não há, sou tentado a afirmar, poder absoluto. A realidade das sociedades democráticas atinge a liberdade no seu modo mais profundo, porque é universal no espaço público, mas é sempre parcial, relativa, imperfeita, e não podia ser de outra forma. É o imperfeito preferível (melhor).

Gosto de pensar que será assim para sempre, pese embora saber que o 25 de Abril aconteceu apenas há trinta e seis anos e que nem sempre foi assim. Como explicar a diferença em termos simples? Como fazer entender o valor profundo da liberdade, tendo em conta todas as debilidades que a actual crise social veio exacerbar? Tudo sabe ainda a pouco, quando olhamos para o desemprego, para a pobreza, a injustiça social e a especulação financeira. “O futuro está em aberto”, citando Karl Popper, e, nesse sentido, todos somos responsáveis pelo que está para vir. Haver ou não liberdade dependerá sempre, em última análise, das opções que tomarmos a partir do hoje que vivemos.

É preciso, portanto, ter memória. Nos anos obtusos da ditadura, era normal a censura a qualquer forma de expressão, mesmo a artística, ou melhor, em especial a artística. Um livro, um quadro, uma canção, eram instrumentos perigosos, de possível subversão dos bons costumes, pelo que iam ao lápis azul. Publicar qualquer coisa só era possível após a passagem pelo crivo da arbitrariedade do censor, e constituía um risco para os autores, caso houvesse ali matéria considerada contra o regime. Portugal era um país amordaçado, na expressão de Mário Soares.

Era um país amordaçado e um país pobre, analfabeto, confinado às suas fronteiras, ostracizado pelo mundo livre e mantendo uma guerra inútil, fonte de sofrimento e atraso civilizacional.
É preciso, assim, ter memória e perceber como é fundo e frágil o valor da liberdade. Os trinta e seis anos de Abril são ricos de progresso e de desenvolvimento, quando comparados com os tempos da ditadura, mas sabem ainda a pouco, principalmente quando percebemos que ainda não são para todos, por força da enorme crise social que atravessamos. As curvas da história ofuscam-nos muitas vezes o sentido geral do caminho e há hoje em dia a sensação de que Abril não é um valor seguro.

Não é um mal em si mesmo mas é um sinal de aviso a merecer a nossa vigilância. Não há uma verdadeira liberdade se não houver justiça social. Ora, Portugal está muito desigual nessa matéria e, nesse sentido, ainda tem muito caminho a percorrer, até que se possa dizer que respira livremente.

É preciso, sempre, ter memória. Foi por isso que juntámos um escritor, um músico e um humorista, no passado dia 22 de Abril, para falar da liberdade. A escola deve abrir espaços de debate sobre a expressão da cidadania, os seus valores mais queridos e os seus adversários mais temíveis. Se a censura já não é de lápis, ostensiva, rude e castradora, permanece ainda difusa, insinuada, subtil, uma espécie de censura doce, referida por José Manuel Mendes, que induz mais do que conduz, mas que ainda é presente.

A educação para a liberdade é essencial, neste contexto, pois que a liberdade também se educa, alimenta, entranha-se. Falar de liberdade é permitir a sua posse por parte de quem a respira.
A liberdade é para sempre, embora imperfeita, como não pode deixar de ser, enquanto expressão de humanidade.

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