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O último Natal do Francisco

Plano, Director e Municipal …

Ideias

2018-12-23 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O Francisco passava os dias a pedir moedas aos automobilistas que ajudava a estacionar. Tinha o cabelo despenteado, sujo e com aspeto de não ter visto água e sabão há vários dias.
As calças rasgadas que o Francisco trazia vestidas estavam quase sempre colocadas por dentro de umas peúgas brancas, cor cinza escura devido à sujidade. As sapatilhas também já foram brancas e agora mostravam vários rasgos, devido ao desgaste provocado pelo uso diário e intenso.
As camisolas que o Francisco trazia no corpo tinham um odor que se sentia a alguns metros de distância e mantinha-se depois de ter cruzado com alguém.
O Francisco nasceu dois anos antes do 25 de abril de 1974. Era um rapaz alto, de olhos verdes e com um sorriso envergonhado e meigo. Tinha um filho que lhe foi retirado quando tinha poucos meses de vida e uma mulher com quem nunca chegou a casar.
Viveu sempre com a mãe, que o foi amparando, até que esta faleceu, deixando-o entregue a si próprio.
Na escola, que frequentou até ao sexto ano, era um rapaz tranquilo, aplicado e nunca tinha repetido um único ano de escolaridade. Mas a morte do pai, que perdera aos onze anos, colhido por um comboio, nunca foi ultrapassada pelo jovem. Entregue aos cuidados da mãe, que vivia com enormes dificuldades, numa casa sem luz elétrica, nunca mais conseguiu progredir um ano de escolaridade, até que aos quinze anos passou a ajudar os operários da construção civil. Nessa profissão foi mantendo-se de forma intermitente, raramente aparecia ao trabalho à segunda-feira, uma vez que o seu “patrão” pagava-lhe no final de cada semana.
Aos 21 anos conheceu uma rapariga de quem teve um filho um ano depois. Então, a partir daí, os seus problemas foram-se agravando. Vivia com a mulher e o pequeno filho na casa da mãe, mas a morte desta foi o culminar de uma desistência de qualquer projeto de vida e quase da própria existência.
A mulher deixou-o, dois anos após, e o seu filho foi entregue aos cuidados de um familiar de segundo grau de parentesco. Nos primeiros meses, após a perda do filho, o Francisco ainda se deslocava até à porta desses familiares, a tentar ver o menino à distância, mas com o passar do tempo, foi perdendo essa vontade, ao ponto de raramente aí ser visto.
Sem pai, sem mãe, sem mulher, sem filho e sem emprego, o Francisco começou a ser visto com frequência com garrafas de cerveja e de vinho na mão. Também os cigarros que fumava transformavam-no num homem sonolento, desgastado e triste.
Muitos começaram a vê-lo a arrumar carros junto ao mercado. No final do dia, deslocava-se para a casa da mãe, que estava cada vez mais degradava, com vidros partidos, sem luz elétrica e com um balde à porta que transportava água dada por um vizinho.
No início de dezembro deste ano foi visto, às dez da noite, com uma bicicleta velha e com uma garrafa de vinho na mão. Mas já não chegou a casa. Uma queda, num local ermo, deixou-o ferido e abandonado até à manhã seguinte. Quando a bicicleta foi avistada por um taxista, que às seis horas da manhã transportava um passageiro à estação de caminho-de-ferro, o Francisco já não dava sinais de vida.
Morreu sujo, cansado, abatido e doente, há três semanas apenas. Tinha uma bicicleta velha e uma garrafa de vidro na mão...
O Francisco já não chegou ao Natal, talvez já não quisesse chegar ao Natal. O último, o de 2017, foi passado à porta de um café do bairro onde morava, mesmo depois de este ter encerrado.
Foi assim o último Natal do Francisco. Assim como será o Natal de amanhã para muitos que passam por dificuldades, numa sociedade que preserva a aparência e o culto da imagem:
- numa sociedade em que muitos idosos estão abandonados, enquanto uma parte do país anda preocupada em realizar debates em torno de legislação que visa a qualidade de vida dos animais;
- numa sociedade em que, segundo um estudo da OMS, 11% das estudantes universitários portugueses afirmam que se deitam com fome, por falta de alimentos em casa;
- numa sociedade em que milhares de pessoas se desloca para beber um copo e outro, depois uma garrafa inteira, até ficarem sentados, deitados, em plena noite de Natal, tudo por uma fotografia que visa chamar as atenções nas redes sociais.
O dócil Francisco já não está entre nós, neste Natal. Assim como muitos não estarão aqui no próximo ano. Desejamos que aqueles que nos vão deixando possam ter um fim de vida melhor do que o Francisco.
Aproveito para desejar a todos um Feliz Natal e um excelente ano de 2019.

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