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O último engraxador de Braga

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O último engraxador de Braga

Ideias

2022-10-02 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A construção de uma localidade, de uma região ou de um país, deve-se ao trabalho e dedicação de muitas pessoas que, ao longo dos seus percursos profissionais e pessoais, deram o melhor de si à causa de todos.
A dinâmica das sociedades é marcada pelo trabalho destas pessoas e de outras que, de forma despreocupada, serena e educada, acabam por deixar também a sua marca na sociedade.
Como sabemos, a evolução da sociedade atual, nas suas diversas vertentes, está marcada pelo advento de novas profissões, bem como pela extinção de outras que, noutras épocas, eram amplamente reconhecidas na sociedade. Refiro-me concretamente a uma dessas profissões, o engraxador de sapatos.

Os engraxadores são uma profissão quase extinta, pois calcula-se que existam apenas cerca de 15 engraxadores em Portugal, quase todos em Lisboa e no Porto, e em Braga teremos apenas um engraxador.
Com a chegada do século atual, a forma de trajar alterou-se a um ritmo sempre crescente, assim como o calçado que, consequentemente, atingiu diretamente os engraxadores. Basta ver que há vinte anos raramente víamos pessoas com calçado mais desportivo, que dispensa a graxa. Hoje é o contrário.
Na segunda metade do século XX, algumas profissões, mais dominadas por homens, requeriam o uso de sapatos bem polidos. Nesse sentido, não faltavam engraxadores no centro das cidades e junto a cafés emblemáticos situados nas zonas urbanas.

Não havendo certezas absolutas quanto à origem do engraxador, presume-se que o mesmo terá surgido em 1806, em plena guerra desencadeada por Napoleão Bonaparte, em nome da França. Na altura, um operário resolveu polir as botas de um general. Este, agradado com o serviço prestado, entregou uma moeda de ouro ao nobel engraxador. A partir desse momento, o número de engraxadores foi crescendo durante todo o século XIX.
Nesse século, marcado profundamente pela emigração europeia para a América, não faltaram portugueses, espanhóis, italianos ou gregos que se descolaram para esse continente, ganhando o seu dia-a-dia engraxando sapatos. Pelo seu aspeto humilde, os engraxadores acabaram por ficar associados a um rótulo depreciativo.

O mesmo aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, na Europa. Perante a miséria generalizada, muitas crianças e jovens dedicaram-se a polir as botas dos militares.
A partir dessa altura, vários militares e outros homens de “prestigio” social, resolveram solicitar o mesmo serviço, surgindo desta forma os engraxadores que faziam desta arte de engraxar os sapatos, ou as botas, a sua profissão.
Braga não fugiu a esta realidade, começando a surgir por aqui alguns engraxadores, com destaque para a segunda metade do século XX, altura em que, por exemplo, a profissão de bancário, proliferava no centro da cidade.
Na atualidade a realidade do país também se reflete em Braga, sendo raríssimo encontrar alguém a engraxar os sapatos. Contudo, quem frequenta o centro histórico de Braga, pode encontrar uma pessoa simpática e cordial, que por aqui passa os seus dias. Refiro-me ao senhor Raúl, que se encontra diariamente no café “A Brasileira”.

Raúl Jorge Carvalho Pinto nasceu a 15 de julho de 1937 em Braga, concretamente na Rua da Boavista, ou na Cónega, como gosta de dizer. Foi durante vários anos engraxador no então Café Sporting. Ainda antes do seu encerramento, Raúl Pinto veio para o café “A Brasileira” há cerca de 20 anos, acompanhado pela sua indispensável cadeira de engraxador, e aí permaneceu até aos dias de hoje.
Possuidor de um sorriso envergonhado, o Sr. Raúl destaca-se também pelo seu casaco, quase sempre de xadrez, e ainda pelas suas cautelas, que delicadamente tenta vender aos clientes desse café.
Apesar do número de pessoas que atualmente engraxa sapatos ser praticamente inexistente, o Sr. Raúl tem-se mantido diariamente no referido café, onde chega normalmente pelas oito horas da manhã e aí permanece ao longo do dia. A sua presença assídua neste local, associado à sua delicadeza e nobreza de caráter, torna-o num dos rostos mais simpáticos de Braga.

Durante os anos de 2020 e 2021, marcados pela pandemia e pelo isolamento social, e que resultaram no encerramento de praticamente todo o comércio, incluindo os cafés, o Sr. Raúl ficou impedido de frequentar “A Brasileira”. Esse período foi bem difícil de ultrapassar, pois ficou privado do contacto social que tanto aprecia.
Então, mesmo com “A Brasileira” encerrada, devido à pandemia, o sr Raúl não resistiu a passar calmamente pelo exterior do café, sempre que as autoridades permitiam a circulação de pessoas. Nessas ocasiões, notava-se verdadeiramente a dor que sentia ao ver-se privado de frequentar o seu local predileto!
Apesar de ainda não estarmos livres do motivo que nos levou ao isolamento social, hoje pudemos encontrar novamente o Sr. Raúl, com 85 anos de idade, no café centenário de Braga, sempre com o seu sorriso puro que nos lembra que não é necessário disputar ferozmente cargos, desencadear conflitos permanentes, perseguições e arrogâncias, para marcar uma época.

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