Correio do Minho

Braga, terça-feira

O turista e o residente

Um caminho diferente

Ideias

2018-09-24 às 06h00

Filipe Fontes

“Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam em nós como em casa”. Don Delillo, escritor

Fruto do tempo estival (propício ao relaxamento e culturalmente destinado a férias – que significam invariavelmente associação a turismo) e do contexto que se verifica em muitas cidades, algumas portuguesas (de atracção de visitantes e permanência de pessoas de forma temporária, facilidade de deslocação e estadia), o turismo é, hoje, tema incontornável quando se fala da Cidade e das cidades. Mais ainda quando se regista uma cada vez maior e progressiva reacção (independentemente da sua qualificação) quer dos “residentes das cidades” à presença dos “turistas na cidade” (vice-versa), quer dos respectivos efeitos e marcas deixadas no território, nomeadamente ao nível da reabilitação, transformação e ambiente urbanos.
E se este turismo é sinal dos tempos e se afigura tão incontornável que importa “contar com ele”, não menos verdade é que este turismo deixa sinal evidente do seu tempo no “chão da cidade” e que, portanto, importa “tê-lo em conta”… para que possa ser rentabilizado (quando “se conta com ele”), condicionado e controlado (quando “se tem em conta”).
Nesta dicotomia e reflexão, é convicção de que fundamental se revela voltar ao significado das palavras e, assim, melhor estabilizar o suporte à discussão (saber o que é e o nome a dar “às coisas” é comumente tido como regra básica do entendimento…).

Antes de mais, importa distinguir turista e residente.
O primeiro (turista) é uma pessoa – sempre uma pessoa porque sempre um ser humano em relação com outros seres humanos – que permanece temporariamente num determinado lugar e que procura a resposta adequada à sua boa permanência (transportes, centralidade, acesso a edifícios significativos e “patrimoniais”, facilidade na compra de produtos, entendimento de linguagem,…). O segundo (residente) é uma pessoa que permanece longamente num determinado lugar e que procura as condições necessárias à sua boa fixação (conforto, oferta de comércio e produtos na correspondência do quotidiano, recato, prioridade no acesso a serviços, equipamentos de suporte, …).

Na cidade (porque território de todos e para todos, porque território democrático), e enquanto permanência nela, ambos são pessoas de pleno direito, ambos revelam interesse legítimos, divergindo fundamentalmente no tempo que permanecem no território urbano. E, consequentemente, no interesse e apropriação que revelam , nas raízes e identidade que geram (o turista procura absorver o mais significativo e de forma ávida, o residente procura gerar âncoras que suportem a sua acção de forma lenta e continuada). Ou seja, a grande diferença entre o turista e o residente não se centra na legitimidade sobre a apropriação da cidade – ambos têm esse direito – nem na obrigação de tratar bem esta mesma cidade – ambos têm esse dever. A grande diferença prende-se com o tempo que “gastam” na cidade e, consequentemente, com a acção que desenvolvem, de forma mais acelerada ou lenta, para atingir os seus objectivos.

Assim, e concluindo-se como sem alternativa a coexistência do residente e do turista, acredita-se que esta será tão boa e saudável quanto se colocar em prática a compreensão e a solidariedade.
Ambos deverão compreender que a cidade é de todos e que a necessidade de cada um é diferente. E que a visita, a fotografia, o passeio, o conhecimento da cidade é sinal de riqueza cultural e actividade económica. E diversidade social que transmite cor e dinâmica à cidade. Mas que a cidade só é identitária e singular se recheada de residentes, se polvilhada dos seus residentes satisfeitos e envolvidos, integrados e participantes.
Há aqui uma dependência e interligação que se julga incontornável e indisfarçável. Um depende do outro, jamais um será feliz sem o outro.
Por isto mesmo, quando “se ouve falar” de expulsões de residentes e desertificação, de insatisfação e indiferença, de uns que não aceitam e outros que “não querem saber”, significa que algo se estranho se passa. E que algo na cidade não está a funcionar. E é aqui que o poder público pode, e tem o dever de actuar. Para influenciar e corrigir, para recentrar a cidade na sua essência e concertar a cidade nas suas múltiplas perspectivas. Afinal a cidade é de todos e para todos. E o poder público a todos representa para a todos servir!

(continua)

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