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Braga, quarta-feira

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O triunfo dos...na noite de S. João

Plano, Director e Municipal …

Ideias

2019-06-23 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Celebra-se hoje uma das noites mais eufóricas de todo o ano. Refiro-me, naturalmente, à noite de S. João, Santo Padroeiro de muitas localidades portuguesas, com particular destaque para o Porto e Braga.
Durante a noite de hoje, iremos assistir a um desfilar de milhares de pessoas pelas ruas de Braga, tendo muitas delas a companhia de um animal de estimação. Com base na realidade crescente dos últimos meses, os cães são um animal de veneração crescente. São muitos os que centram as suas e as atenções da família no seu cão, dotando este animal de cuidados extremos e de adornos cuidadosamente preparados e adquiridos. E com uma concentração e apoio crescentes a nível legislativo.
Não condeno a defesa e proteção do animal, pelo contrário. Apenas gostaria de assistir a uma maior proteção e defesa, a nível social e legislativo, para com os idosos.
Vivemos atualmente um novo paradigma social, marcado por alterações constantes dos comportamentos daqueles que nos rodeiam. Vejamos que:
- Hoje, até as palavras podem ser ofensivas para os animais, mas não para os idosos!
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a passearem os cães na via pública, mas não os vemos a passear idosos;
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a limparem orgulhosamente a sujidade dos cães na via pública, mas não vemos a ajudar os idosos que necessitam de cuidados básicos;
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a levarem os cães ao veterinário, mas não levam os idosos ao médico;
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a levarem os cães aos gabinetes de estética, mas não levam os idosos a cortar sequer o cabelo;
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a transportarem os cães no automóvel, mas não a passearem os idosos;
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a deslocarem-se às urgências das clinicas de veterinários, mas abandonam os idosos nas urgências dos hospitais, sobretudo em dias festivos;
- Hoje, como nos últimos tempos, vemos algumas pessoas a levarem os cães para a praia, mas não levam os idosos a verem o mar;
Reitero que não estou contra este apego aos animais de estimação. Apenas estranho a inversão de valores e de sentimentos relativamente a pessoas abandonadas, sobretudo idosas. Hoje, concentramos mais a atenção, gastos, auxílio, emoções e sentimentos nos animais do que em algumas pessoas. Hoje, reparamos mais facilmente num cão que num idoso.
Segundo o Relatório de Prevenção contra os Maus Tratos a Idosos, da Organização Mundial de Saúde (OMS), na Europa, diariamente, são cerca de quatro milhões os idosos vítimas de humilhações, quer físicas, quer psicológicas. No nosso país, 39% dos idosos portugueses são vítimas de diversos maus tratos, que passam muito por murros, queimaduras no corpo e cortes propositados. Segundo o mesmo relatório, realizado em 53 países, Portugal encontra-se nos cinco piores países no que se refere ao tratamento hostil dado aos mais velhos. Basta recordar que há três anos (2016) foram registadas três agressões a idosos por dia!
Portugal encontra-se ainda no grupo de países que menos investimento tem relativamente à terceira idade. Basta ver a dificuldade em encontrar um lar para um idoso, assim como os preços mensais exorbitantes, que ultrapassam os mil euros! Há idosos que só encontram um lar noutros concelhos; há idosos de Braga que só encontram um lar em Vieira do Minho, em Paredes de Coura ou em Monção! A distância do lar implica que os familiares mais próximos encontram dificuldades em visitar o familiar, ficando estes sem verem os seus filhos ou netos durante semanas e meses!
Por estes dias reli o livro, Triunfo dos Porcos, de George Orwell. E recordei o capítulo que se baseou na reformulação das lei da Quinta dos Animais, que determinava que “a idade da reforma fora fixada em 12 anos para os cavalos e porcos, 14 para as vacas, 9 para os cães, 7 para os carneiros e 5 para as galinhas e gansos”. Com a psicose legislativa associada às questões dos animais, não estranharia que este sarcasmo de George Orwell, publicado em 1945, um dia destes venha a ser uma realidade.
Hoje, durante o dia, assim como nos próximos, reparem e cuidem dos cães, mas não se esqueçam de reparar e acarinhar também os idosos!

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