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O talento do futuro e a cidadania digital

Cisnes negros

O talento do futuro e a cidadania digital

Escreve quem sabe

2019-03-31 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

No contexto do Open Day da Universidade Católica, que decorreu na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, refletimos sobre os desafios das novas gerações e sobre o papel da universidade, no quadro da formação dos estudantes das diferentes áreas do conhecimento, docentes e investigadores, no horizonte temporal de 2030. Abordamos ainda dimensão humana do talento do futuro, como uma vantagem competitiva para as organizações públicas e privadas, no âmbito da sociedade do conhecimento e da informação. Alertando para o empowerment das ciências humanas e sociais, onde temos sinais positivos, pela forma como estamos a antever o do talento na sua dimensão humana, perante a evolução vertiginosa e positiva do conhecimento científico e do desenvolvimento tecnológico, impulsionados pela inteligência artificial (IA) e pela machine learning.
Um círculo virtuoso que deverá ser potenciado pela dimensão humana desta evolução, sob pena de o homem correr o risco de se transformar num prisioneiro e/ou “escravo” da sua criação, em desfavor do seu conhecimento e da sua própria inteligência. Felizmente, os exemplos com esta preocupação continuam a acontecer, no sistema de investigação científica e da dinâmica de desenvolvimento tecnológico. A Huawei na sua linha de inovação, agilizou a inteligência artificial com o conhecimento humano, para criar um impacto positivo no dia-a-dia das pessoas, promovendo a conclusão da sinfonia nº 8 de Schubert, que apresentou no Cadogan Hall em Londres. Uma conquista baseada no estilo em que o músico iniciou a sua criação, através de uma combinação virtuosa da evolução tecnológica com o conhecimento humano. O mestrado em Comunicação Digital é um excelente exemplo e uma excelente resposta da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, à “necessidade de formação de investigadores e profissionais dotados das competências para este novo paradigma e esta nova sociedade digital”.
Nesta perspetiva, o Japão criou o conceito que designou como “sociedade 5.0 ou da Imaginação”, onde a inteligência artificial, os dados ou a robótica são usados em prol do bem-estar das pessoas e de uma forma sustentável. Defendem que está a arrancar “uma nova era, que se segue à sociedade da informação (4.0), deixando para trás a industrial (3.0), a agrária (2.0) e a da caça (1.0)”. Uma sociedade inteligente, que liga o mundo virtual e o real, “onde os humanos e os robôs ou a inteligência artificial coexistem e trabalham para melhorar a qualidade de vida, oferecendo serviços detalhadamente personalizados, que vão dar responder às necessidades das pessoas”, na perspetiva dos responsáveis políticos japoneses.
Foi este o tema da conferência do BCSD - Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, intitulada “Sociedade 5.0: O Desafio das Sociedades Inteligentes Sustentáveis”, que se realizou recentemente, em Lisboa. Em Portugal, já há drones a fazer entregas, robôs a cuidar de doentes e tratores autónomos. Este é prenúncio de um futuro, que já está parcialmente no presente. Neste âmbito, afirma João Wengorovius Meneses, presidente do BCSD, que é um processo em que vai ser necessário investir, para poderemos afirmar a nossa condição humana tirando partido do avanço tecnológico. Adaptando “ao século XXI as leis e as instituições que herdamos do século XX”, e para isso “temos filósofos, designers, políticos, economistas, biólogos e artistas. A construção das sociedades inteligentes, centradas nas pessoas e no planeta, só depende do nosso potencial criativo coletivo”, a que devemos acrescentar níveis crescentes de paz e de respeito pelos direitos humanos “o futuro será certamente melhor”.
No entanto, a nossa sociedade enfrenta muitos desafios e paradoxos, com muitos empregos em risco resultantes da evolução tecnológica, da escala de valores e do enviesamento dos princípios éticos, em que assentam os modelos de desenvolvimento, a “transparência e o tratamento justo de todos os envolvidos na cadeia de valor”, no funcionamento das organizações públicas, sociais e as empresas. Uma dimensão da tecnologia, da utilização da inteligência artificial e do alargamento da cultura digital, numa combinação efetiva com o conhecimento humano, que exige uma nova perspetiva da formação em filosofia, humanidades e em ciências sociais.
Neste contexto, o IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional, lançou em 2018 um programa de promoção de competência digitais - Incode.2030 Portugal – com o objetivo de reduzir os défices de literacia digital ainda persistentes. Desenvolver a qualificação profissional na área das TICE, em parcerias estratégicas com entidades setoriais e com instituições de ensino superior, enquanto fator crítico de empregabilidade de licenciados. Uma medida que prevê criar e implementar Academias Tecnológicas, orientadas para as competências digitais, na sua rede de centros de formação e em estreita colaboração com o setor empresarial. Uma nova dinâmica de aquisição de competências tecnológicas e digitais, na preparação dos professores do ensino secundário e técnicos superiores da área social e cultural, na adaptação dos percursos formativos e estruturas curriculares da formação superior, através da introdução de unidades curriculares nesta área.
A formação superior na sua generalidade, já não tem a soberania do saber. Nem é um repositório detentor do conteúdo pronto e acabado de conhecimentos e de competências profissionais. Sendo de forma cada vez mais evidente a comunicação e a liderança, a gestão de informação e o trabalho em rede, valorizados pelo capital cultural e intelectual, os fatores diferenciadores do talento do futuro, que reclamam novas competências tecnológicas, para mudar a forma como as organizações trabalham no processo de adaptação à sociedade 5.0, da inteligência artificial e da cidadania digital.

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